Arrumar a biblioteca (VII)


Pedro Correia,

 

Kafka, Nixon e Burt Bacharach

 

De ontem para hoje isto alterou-se muito. E a minha estupefacção aumenta.

Porquê?

Porque encontro cada vez mais duplicações nos livros que comecei a distribuir pelas estantes. A um ponto que nunca imaginei.

Vou enumerar algumas das obras que tenho repetidas (a lista, acentuo, está longe de ser exaustiva):

– As Aventuras de Tom Sawyer (Mark Twain)

– Mar Morto (Jorge Amado)

– As Neves do Kilimanjaro (Ernest Hemingway)

– A Peste (Albert Camus)

– O Nome da Rosa (Umberto Eco)

– A Náusea (Jean-Paul Sartre)

– O Som e a Fúria (William Faulkner)

– Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)

– Morte em Veneza (Thomas Mann)

– As Vinhas da Ira (John Steinbeck)

– O Estrangeiro (Camus)

– O Amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence)

– Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)

– Ficções (Jorge Luis Borges)

– Contos de Natal (Charles Dickens)

– As Torrentes da Primavera (Hemingway)

– O Ano da Morte de Ricardo Reis (Saramago)

– Lolita (Vladimir Nabokov)

– Crime e Castigo (Fédor Dostoievski)

– O Túnel (Ernesto Sabato)

– Um Espião Perfeito (John Le Carré)

– Pequenas Infâmias (Carmen Posadas)

– No Coração das Trevas (Joseph Conrad)

– A Terceira Rosa (Manuel Alegre)

– O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)

– Pela Estrada Fora (Jack Kerouac)

– Barranco de Cegos (Alves Redol)

– O Americano Tranquilo (Graham Greene)

– Por Favor Não Matem a Cotovia (Harper Lee)

 

Tanto livro. Enquanto ouço Chico Buarque cantando Tanto Mar. Há pouco, Caetano Veloso interpretava Salva Vida com a irmã (do álbum Uns, de 1983). Daqui a pouco estarei a escutar outro CD que reservei para me dar música nesta empreitada: The Look of Love – The Burt Bacharach Collection — 50 faixas, grande parte delas a justificar nota máxima.

 

 

Em certos casos — não me perguntem porquê pois sou incapaz de responder — tenho não dois mas três exemplares da mesma obra, sempre de edições diferentes.

É o que sucede, entre os autores estrangeiros, com 1984 (de George Orwell), O Processo (Franz Kafka), O Velho e o Mar (Ernest Hemingway), O Grande Gatsby (Scott Fitzgerald), Gente de Dublin (James Joyce) e Boneca de Luxo (de Truman Capote; neste caso a mais antiga das edições portuguesas, anterior ao filme de Blake Edwards, intitula-se Ao Começo do Dia, tudo muito diferente do original Breakfast at Tiffany’s).

Entre os portugueses, encontro três cópias de O Senhor Ventura (de Miguel Torga) e Húmus (Raul Brandão). Tratando-se também, em qualquer dos casos, de edições diferentes. Um dos exemplares de Húmus, que herdei do avô paterno, é primeira edição — certamente um dos volumes mais valiosos que tenho cá por casa.

 

O que fazer a estas obras em duplicado e triplicado?

 

Escuto agora uma das minhas canções favoritas deste álbum homenagem a Bacharach — álbum também duplo, para condizer com os livros. I Say a Little Prayer, imortalizada por Aretha Franklin, a diva do soul.

E troco o escritório pela sala. Para rever uma das mais extraordinárias entrevistas televisivas de todos os tempos: a que David Frost fez em 1977 ao ex-presidente norte-americano Richard Nixon. A SIC Notícias anda a exibi-la, demonstrando pela enésima ver que um operador televisivo privado pode fazer verdadeiro serviço público.

Frost entrevista um derrotado. Nixon ocupou o posto máximo a que um político pode aspirar no planeta: teve tudo ao seu dispor e viu tudo desfazer-se à sua volta, por culpa própria, passando à História como o primeiro chefe da Casa Branca forçado a demitir-se.

Retirado na sua mansão de San Clemente, este Nixon que emerge de sombras kafkianas é um homem profundamente amargurado. Tem dinheiro, tem o tempo todo ao seu dispor, joga golfe e viaja para onde quer, mas garante ao entrevistador que só sonha com uma quietude destas quem não sabe realmente o que é a vida. «O que dá sentido à vida são os objectivos, é haver uma meta, uma batalha, uma luta, mesmo que não a ganhemos.»

Um excepcional trabalho jornalístico que devia ser matéria obrigatória em todos os cursos de formação de profissionais da comunicação social.

 

E deixo-vos com um dos temas de Burt Bacharach que ouço sempre como se fosse a primeira vez. Tema que integrou a banda sonora de um inesquecível western. Um filme que termina com um dos maiores saltos no abismo de que há memória no cinema — algo semelhante àquele que selou a fulgurante e malograda carreira de Nixon.

Até segunda-feira.

 

32 comentários em “Arrumar a biblioteca (VII)”

  1. Pelo menos a duplicação (ou mais) é de grandes livros. Acontece, sobretudo quando se não tem capacidade de manter uma base de dados actualizada. Já me aconteceu mais do que uma vez. Em determinadas circunstâncias ofereceram-me livros que já tinha. Não há como recusar…

    Em alguns casos também pode ser propositado (embora não me pareça ser o caso) sobretudo para efeitos de estudo. Um dos meus mestres, profundo conhecedor da obra de Maquiavel, tem mais de 100 edições (em diferentes línguas, de diferentes tradutores e vários períodos) do Príncipe. Por vezes a tradução de uma determinada palavra ou expressão justifica a existência de diferentes exemplares.

    1. É verdade, Filipe. Reparando agora nisso, verifico que há pelo menos alguma consistência estética nestes duplicanços. Em certos casos relacionam-se com a vontade de adquirir a obra na versão original (é o caso de ‘Dubliners’, que vem na foto, aproveitando as excelentes edições da Folio Society londrina), ou ‘The Great Gatsby’.
      Percebo esse professor, que é um coleccionador no verdadeiro sentido do termo. Não é o meu caso em matéria de livros. Colecção só mesmo de livros autografados, como também hei-de falar aqui. Mas essa foi acontecendo por uma sucessão de acasos. Sem nada de intencional à partida.

  2. De facto a situação apresenta-se menos pacífica do que parecia à primeira vista .
    Triplicados ? Só não é grave porque são os livros que são .

    A mim acontece-me comprar livros que já tenho porque os encontro em excelente estado em alfarrabistas ou na Feira da Ladra e penso para comigo que irão dar umas muito apresentáveis prendas de Natal ou de anos por um preço razoável .
    Só que chega a altura e o livros não dão com as pessoas a quem tenho que oferecer algo ou as pessoas não dão com os livros que eu tinha de lado e vão ficando .

    Também gosto muito de Burt Bacharach , que é o pai incontestado do “easy listening” , um género considerado menor durante muitos anos pelos que têm a mania que sabem de música e citam compositores que ninguém conhece .
    Só que com os tempos toda a música se tornou de tal modo “easy” no pior sentido do termo que muitos desses puristas começaram a repensar o assunto .
    As suas parcerias com Hal David na voz de Dionne Warwick (e por vezes nas dos Carpenters) são hoje imprescindíveis em qualquer colecção (nem que seja para dizerem que as têm !).

    A canção que nos oferece no fim ganhou o Óscar da melhor canção desse ano (e a banda sonora de que é tirada também ganhou um Óscar) e a escolha não era fácil , competia com “What are you doing the rest of your life ?” do Michel Legrand .

    1. Alguns livros que tenho repetidos aconteceram-me também dessa forma. ‘Barranco de Cegos’, por exemplo. Tinha já uma boa edição, comemorativa do 50º aniversário. Um dia, passando por um alfarrabista de Campo Ourique, deparei com uma primeira edição da obra. Perguntei o preço e pareceu-me tão razoável que vim com ela. Trouxe também a primeira edição da ‘Seara de Vento’, de Manuel da Fonseca.

      Bacharach tem vindo a ser redescoberto e reinventado: ao fim de algumas décadas, perceberam que têm ali o seu Jobim, durante demasiado tempo empurrado para a tal etiqueta do ‘easy listening’ (eles adoram etiquetas, cada uma mais disparatada do que a anterior).
      Das canções dele, entre tantas outras e para além das que refiro no texto, destaco ‘Magic Moments’ (Perry Como), ‘A House is not a Home’ (Brook Benton), ‘I’ll Never Fall in Love Again’ (Dionne Worwick), ‘The Look of Love’ (Dusty Springfield), ‘Alfie’ (Cilla Black), ‘Baby it’s You’ (Shirelles, que os Beatles também cantaram) e ‘I Wake Up Crying’ (Chuck Jackson). Todas Canções do Século.

      1. O seu comentário sobre as etiquetas disparatadas lembrou-me a “R & B” (“Rhythm and blues” para os leitores menos familiarizados) .

        Aquilo tem dado para tudo desde os anos 40 do século passado , cada década que passava era algo diferente que vinha associado à etiqueta e , o que é pior , ainda continua nessa linha , já pouca gente se entende sobre o real significado e poucos sabem como é que tudo começou .

        Grandes canções e grandes intérpretes , vem no meio o Brook Benton que eu tenho “esquecido” nos últimos anos , vou já ali pôr um disco dele …

        1. Tenho pensado já várias vezes nisso a propósito do ‘R&B’, que serve para tudo acabando por não servir para nada.
          A mim apetece-me sempre ouvir o Brook Benton. Ou a Shirley Horn, que escuto agora.

          1. A Shirley Horn , claro , uma carreira de um equilíbrio e uma constância raras , sem concessões ao facilitismo .

            Curiosamente (ou talvez não) tenho muito mais dos últimos anos do que dos primeiros , talvez porque ela transmitisse uma grande segurança no que fazia .

  3. Há cerca de quinze dias ganhei mais de uma prateleira, dando cerca de 70 livros. Repetidos muitos, outros já fora do meu âmbito. E ainda tenho que gerir, um dia no futuro, a coexistência com os livros do meu pai

  4. Dou de boa vontade três endereços (em Portugal, na Suíça, e em França) onde há espaço para obras repetidas e por repetir…

    Agora a sério – da última vez que arrumei a minha pequena biblioteca, se assim lhe posso chamar, tirei os repetidos e dei-os a um amigo especial. Sim, porque mesmo repetidos, custa deixar os nossos livros numas mãos quaisquer…

    Abraço.

  5. É bom chegar aqui e ter sempre coisas interessantes para ler sobre livros, filmes e música.
    Pena ter descoberto o Delito há pouco tempo, mas estou a espreitar lá mais para trás e estou a adorar.
    Pedro, talvez possa
    doar esses livros a uma
    ou mais bibliotecas, municipais, escolares, até mesmos de prisões ou hospitais.
    Eu costumo fazer isso, ainda agora quando fui procurar os livros da PH, levei os Contos Exemplares da Sophia, pois comprei esta nova edição ilustrada da Porto Editora e não fazia sentido ter dois. Lá será mais útil…
    Nesta sua lista estão alguns daqueles livros que deram belos filmes.
    Boas arrumações e bom fim de semana!
    Antonieta

    1. Na maior mudança que fiz até hoje, ao fazer os caixotes antes de deixar a casa, deixei de parte dezenas de livros que doei a uma biblioteca. Tratando-se de uma biblioteca no estrangeiro, onde o acesso a livros portugueses é muito mais difícil do que em Portugal, julgo que a utilidade foi ainda maior. Enviar livros para paragens tão diversas como Goa e Timor, onde a carência de livros em português é absoluta, acaba por ser outra opção. Embora mais cara.

      1. Fez bem em lembrar isto.
        Está em vigor a tabela dos CTT de 3.00€ por cada caixa de 2kgs com destino a Timor-Leste , São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau (caixas abaixo não parecem ter interesse aqui para o caso) .

        Claro que os livros são pesados e cada 2kgs não são muitos livros mas continuo a pensar que numa caixa de 2 kgs pode ír muita alegria para muita gente e que , para a maior parte de nós , 3 ou 6 ou 9€ cada vez que rearrumamos a estante não são um sacrifício terrível.

        Permito-me o link :

        http://www.ctt.pt/fectt/wcmservlet/ctt/empresas/correio/envio_internacional/correio_normal/correio_economico.html

          1. Como acontece muitas vezes , vejo agora que o link não abre devidamente , pelo menos eu não o consegui .

            Aos interessados bastará assim pôr “CTT- Correio Económico” na pesquisa do Google e abrir o dito que aparece logo ali à cabeça .

  6. Vai emigrar?
    Reformou-se?
    Vai doar a alguma biblioteca pública?

    Só a lista que publica neste post, eu, recomendava para a esmagadora maioria da nossa classe política ler até ao fim do ano.

    O que me diz?

    1. Eu não tenho a ideia de que a classe política — ao nível das estruturas dirigentes, à esquerda ou à direita — seja analfabeta, longe disso. Conheci pessoalmente políticos que eram/são leitores vorazes: Maria José Nogueira Pinto, Carlos Carvalhas, Medeiros Ferreira, Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Louçã, Francisco Lucas Pires — já para não mencionar Manuel Alegre e Pacheco Pereira.
      Mas da lista que menciono recomendaria desde logo a um político — qualquer político — ‘A Peste’, ‘1984’, ‘Ensaio sobre a Cegueira’, ‘As Vinhas da Ira’, ‘Crime e Castigo’, ‘No Coração das Trevas’, ‘Um Espião Perfeito’ e ‘O Americano Tranquilo’.
      Reformar-me? Longe disso.
      Emigrar? Já fui emigrante, sou filho e neto de antigos emigrantes. Sabe-se lá se não voltarei a sê-lo outra vez. Faz parte da condição do português: somos seres marcados pela errância.
      Mas, para já, estou só a pôr a biblioteca cá de casa em ordem.

  7. Pois… muitos desses são ofertáveis, independentemente da qualidade das capas 😉 , desde que sejam boas traduções e os conheça, há sempre uns jovens a iniciar a sua coleção e nada melhor que contribuir para que estes tenham acesso a boas obras.

    1. As traduções são boas, em diversos casos. Falamos pouco de traduções, mas muitas vezes esse silêncio é injusto. Destaco aqui, por exemplo, as traduções de Rogério Fernandes (de ‘O Estrangeiro’), Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira (de ‘Um Espião Perfeito’) e Ana Maria Chaves (de ‘Luz de Agosto’, de Faulkner, outro livro que tenho repetido, como descobri agora).

      1. Mas vai ser muito bom olhar a obra feita depois de concluída.
        E para mim (nós) está a ser óptimo ler estas crónicas!
        A propósito, que tal ouvir o “C’est en Septembre” do Bécaud, já que foi este o mês da grande decisão?
        Fica a sugestão.
        Antonieta

        1. Fala em música francesa (em boa hora) e cá estou eu , como o nosso caro Pedro Correia sabe.

          “C’est en Septembre” ou ” September Morn” , qual delas a galinha ou qual delas o ovo , início de uma parceria entre Gilbert Bécaud e Neil Diamond que viria a dar excelentes frutos um ano depois na banda sonora do filme “The Jazz Singer” (1980).

          O filme com Neil Diamond , Laurence Olivier e Lucie Arnaz levou pancada da crítica a tempo inteiro (se calhar bem merecida) mas a banda sonora foi um enorme êxito , incluíndo meia dúzia de canções deles os dois entre as quais “Love on the rocks” ou “L’amour est mort” , outra grande canção .

          1. A propósito de música francesa, muitos não sabem (e até teimam) que o My Way do Sinatra é a versão inglesa do “Comme d’habitude” do Claude François.
            E que o She é do Aznavour.
            😉 Antonieta

  8. À parte essas aquisições para se aproximar do original pode-se conjecturar que a sua memória terá uma componente forte de imagens (neste caso capas), o que explicaria a aquisição da mesma obra com capas diferentes. Mas subsistem-me duas perguntas: dado seu hábito de colocar a data da conclusão da leitura de cada livro esses livros repetidos têm também anotada uma data de leitura? Se sim, essas datas são diferentes?

    1. É difícil responder-lhe. Para o fazer deveria ter lido os livros que menciono pelo menos duas vezes. Mas desta lista, tanto quanto me recordo, isso só aconteceu com ‘As Neves do Kilimanjaro’, ‘A Peste’, ‘O Estrangeiro’ e ‘O Americano Tranquilo’. E em nenhum destes casos a primeira leitura ocorreu com exemplares que possua agora. ‘O Americano Tranquilo’, por exemplo, foi num exemplar da colecção Unibolso, que me desapareceu e até agora não consegui encontrar (faltam-me quase todos os livros dessa colecção, tal como me faltam muitos livros da colecção Miniatura, com títulos que li mais de uma vez, como ‘O Terceiro Homem’ ou ‘O Velho e o Mar’).
      Mas dá-me uma ideia que tenciono desenvolver num dos próximos textos desta série.

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