Notas pessoais sobre o Dia Mundial da Língua Portuguesa


Paulo Sousa,

Hoje assinala-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Muito poderá ser dito sobre este património imaterial que nos une, e por praticantes muito mais versados que eu próprio.

Não quero, no entanto, deixar de fazer aqui três pequenas notas.

 

1 – Felizmente a língua portuguesa é de facto imaterial e não pertence apenas ao nosso país. De outro modo ainda poderia ser dada em garantia de dívidas contraídas. Celebremos por isso.

 

2 – Após ter procurado afincadamente por outro caso, em que uma língua coincida com um território, com um país, com uma bandeira e uma identidade nacional, e em que ao cruzar qualquer fronteira a língua aí praticada também seja diferente, encontrei apenas dois países nestas condições. Portugal e o Brasil.

Será que me escapou algum outro caso? E quando falo em fronteiras, refiro-me a fronteiras terrestres. Ilhas não contam.

 

3 – A língua portuguesa, sendo a mais falada no hemisfério sul, já tem relevância global. Mas se não for uma ferramenta de ensino, que acrescenta espessura cientifica aos idiomas locais com que coabita, até pelo desperdício de oportunidade será como um diamante em bruto à espera de ser valorizado.

 

Na sequência do lançamento da moderna Tele-escola, como forma de manter o ensino em funcionamento durante o estado de emergência, reparei que os conteúdos pedagógicos aí produzidos poderiam ser preciosos para outros países da CPLP.

Nem todos os países que hoje connosco assinalam este dia sofrem do mesmo nível de carências de ensino, mas de facto para alguns deles estes conteúdos, produzidos regularmente e abrangendo os diversos níveis de ensino, poderiam valorizar muito as vidas de quem de outra forma acabará por não ter acesso a um nível de instrução inclusiva no mundo actual.

Qualquer coisa dentro desta linha poderia fazer mais pela cultura em língua portuguesa do que vários 1% do PIB sempre na boca dos donos da coisa cultural.

12 comentários em “Notas pessoais sobre o Dia Mundial da Língua Portuguesa”

  1. A língua portuguesa já foi dada em garantia, desgraçadamente. Pior, entregue em acto de humilhante rendição, para violentação incessante numa repugnante orgia de triunfo da mais arrogante e impenitente estupidez.

    Ainda hoje – na verdade já ontem – esse gosto de desfigurar e de celebrar o domínio do (pelo) indefensável embrutecimento e a evidente negação prática dos, aliás inúteis e inalcançáveis, objectivos com ele invocados, ficou consagrado num texto assinado por quatro ministros do (des)governo deste país, alusivo ao dia e redigido conforme o acordo “ortográfico” de 1990.

    E para nossa ainda maior humilhação, espécie de escarro despudorado, publicado no único diário nacional que preserva o respeito pela boa ortografia da língua portuguesa. Mas não surpreende. O que surpreende é que esse tão servil jornal ainda se não tenha juntado ao rebanho “acordista”.

    Questão de tempo, certamente.

    Costa

    1. Não vejo isso de uma forma tão confrontational. A activo imaterial é muito superior e mais duradouro do que as agendas dos politicos. Isso é a espuma dos dias.

  2. Please, não. A língua não é economia, nem vamos fazer tele-escola para os PALOP. Eles que façam a deles. As línguas devem seguir rumos diferentes.

    E esqueçam as colónias de uma vez por todas.

  3. outro caso, em que uma língua coincida com um território, com um país, com uma bandeira e uma identidade nacional, e em que ao cruzar qualquer fronteira a língua aí praticada também seja diferente, encontrei apenas dois países nestas condições. Portugal e o Brasil

    De verdade? Eu diria que o grego é falado somente na Grécia, o polaco é falado somente na Polónia, e o checo é falado somente na Chéquia.

    1. O grego é também falado na Macedonia, na Polónia existem minorias que falam línguas vizinhas e dialectos locais e nos Sudetas fala-se alemão. A nossa língua é estanque ao nosso território (na Europa) não por magia nossa mas apenas em resultado da geografia.

      1. Vendo na wikipedia, constato que na Macedónia se falam muitas línguas, mas não grego.
        Nos Sudetas já não se fala alemão, desde que os alemães lá residentes foram chutados de lá para fora no fim da Segunda Guerra. Naturalmente que haverá na Chéquia famílias que falam alemão, mas o alemão não é língua falada de forma sistemática em nenhuma parte do território checo, que eu saiba.
        Mas posso saber mal.

      2. Pela mesma lógica poderias argumentar que em Portugal se fala o mirandês que é muito semelhante ao galego (creio). Mas pronto: esloveno, eslovaco, hebreu, mongol? Dinamarquès? Norueguès? Línguas africanas? O português novamente mas em Angola e Moçambique? Ou por falarem outros dialectos ou línguas locais não dá? Quando é que comunidades que falam outra língua (como com o alemão na Bélgica, por exemplo) deixam de o ser para serem apenas imigrantes que estão perto uns dos outros e mantêm a língua (portugueses em França, por exemplo)?

        Tens que ser muito mais específico nas definições para tal afirmação Paulo. Mas é uma observação sem dúvida interessante.

        1. Mas se fores ver fala-se francês desde a Bélgica até à Suíça, alemão na Áustria, russo em todas as antigas repúblicas ex-soviéticas, o sueco e russo são predominantes em várias zonas da Finlândia, italiano na Suíça, húngaro no norte da Roménia, sobra pouco. E referi o grego na Macedonia porque vi outdoors em grego no país.
          A coincidência da língua com a fronteira e da mesma língua dentro da fronteira, para nós é algo normal, mas é um caso muito raro.

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