Na etiologia da infecção pela Covid há um factor estranho, mal estudado pela doutrina e pela comunidade científica, e que vem a ser a influência que o vírus exerce em pessoas que dele não são portadoras, em particular médicos, e que os faz ter opiniões arrogantes e suficientes sobre a forma de lidar com a pandemia, que não é um assunto exclusivamente médico (nem exclusivo aliás de nenhuma formação específica, a ideia de que há formações específicas para lidar com problemas complexos que envolvem conhecimentos científicos de índole vária mas têm uma dimensão social gravosa é em si uma simplificação ingénua, para não dizer primária).
O médico é essencial para tratar doenças, como o mecânico é essencial para reparar automóveis, mas nem a um se deve tolerar que seja muito mais do que um conselheiro do doente nem ao outro que decida como o cliente deve conduzir.
Portanto, aconselharia à população malcriada que anda nas redes do alarido (foi lá que originalmente publiquei este desabafo) a destratar quem, sobre as políticas públicas para lidar com a pandemia, tem opiniões cépticas, que se aconselhasse junto de especialistas, no caso psiquiatras, para o efeito de terapêuticas calmantes que carecem de receita médica.
Mas atenção, convém não entabular conversas demasiado extensas com o facultativo sobre o assunto do dia, não vá ele não ser um exemplo típico da espécie, caso em que se requer uma visita ao médico de família, para verificar a tensão.

nem a um se deve tolerar que seja muito mais do que um conselheiro do doente
Este post também se aplica àqueles que, por exemplo no partido do José Meireles Graça, pretendem outorgar nos médicos poderes de veto ou de autorização sobre práticas como o aborto ou o suicídio assistido.
“Redes do alarido” é uma excelente expressão. Vou adoptá-la também, caso me dês licença.
Não precisas, claro. Um abraço, Pedro.
Caro José Meireles Graça. Toda a gente sabe tudo sobre tudo, que não lhes diga particularmente respeito.
O maior problema, o mais insolúvel e dramático que alguém possa ter, aquele que o faz perder noites intermináveis de congeminações e para o qual não consegue solução, é imediatamente resolvido pelo primeiro estranho que encontre e a quem lho conte.
Subscrevo. É mais um exemplo sobre o marialvismo que aponto à sociedade portuguesa, em concreto aos que se julgam dirigentes de tudo e mais alguma coisa. Ou que presumem que todos os demais são destituídos de qualquer conhecimento ou capacidade de poder conhecer.
Lembro-me de há uns anos conversar com um médico amigo sobre uma situação pontual que me tinha ocorrido e o espanto dele por, após me ter prescrito um determinado medicamento, lhe ter dito: “essa merda, toma tu. Pensa melhor e continuamos a conversa em outro momento.”
Em conclusão, falou comigo mais tarde e disse-me que se eu aguentasse seria melhor deixar o organismo reagir.
Em uma outra situação recordo-me também que foi um médico-veterinário que resolveu uma simples questão. Quem cuida de animais também entende de patologias humanas.
Este exemplo permite somente aferir que também existe uma cultura provinciana de dependência e subserviência a uns quaisquer doutores – que por se licenciarem para aprender julgam saber tudo – sem a preocupação de cada um pensar que também é responsável por si mesmo.
Em matéria de cuidados de saúde estaria bem lixado se tivesse deixado os meus, alguns já partiram, ao cuidado de um qualquer diagnóstico definitivo vindo de um qualquer profissional de saúde.
O melhor meio de prevenir, diagnosticar e cuidar de um enfermo começa no ambiente familiar, e por vezes, ou muitas vezes e sempre, é necessário supervisionar as prescrições e as cogitações que os profissionais vão fazendo. O mesmo se aplica em matéria individual, mesmo que vá contra a corrente vigente. Sei que isto pode incomodar bastantes. Mas é preferível incomodar a viver com incómodos.
Ninguém pense que isto é um ataque a uma qualquer classe em particular, pois de entre todas existem muitos bons profissionais. É antes um ataque à cultura que se instalou
Na matéria em apreço continuo a afirmar a minha liberdade de consciência e liberdade pessoal, mesmo que o Costa julgue ser a lei e a constituição.