Nem sempre o que parece é…


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Sem colocar em dúvida a veracidade da história contada por Mário Crespo, surgida em vésperas do lançamento do seu livro de crónicas, creio que vale a pena reflectir um pouco sobre o assunto.

A tendência de tirar conclusões sempre no mesmo sentido, quando está em causa a relação entre um jornalista e o governo começa a revelar alguns resquícios de maniqueísmo.

A conversa em "alta voz"  relatada por MC, entre três membros do governo e um executivo da televisão (que pena MárioCrespo não nos ter dado a conhecer o nome do executivo e do canal de televisão…),  revela um espírito suicidário do executivo.

Seria da maior utilidade deslindar a história até ao fim, sob o ponto de vista jornalístico (a psicanálise também pode dar uma ajuda), porque permite várias leituras. Se calhar, até teríamos algumas surpresas.

Gosto sempre de tentar ver o lado B das notícias. E, neste caso, pode bem existir um lado B que não deve ser menosprezado, particularmente pelos jornalistas.

28 comentários em “Nem sempre o que parece é…”

  1. «O Sindicato dos Jornalistas (SJ) critica as alegadas referências desprimorosas e ofensivas que terão sido feitas por membros do Governo ao jornalista Mário Crespo.
    Em Nota hoje divulgada, e que a seguir se transcreve na íntegra, o SJ considera que, a confirmar-se o teor de uma conversa entre o primeiro-ministro, dois ministros e um executivo de um operador de televisão, difundida no sítio do Instituto Sá Carneiro na Internet, envolvendo o jornalista Mário Crespo, estamos perante uma situação “profundamente condenável”, susceptível de “alimentar a suspeita de que o Governo persegue os jornalistas” e que “impõe uma retractação pública”.

    Nota da Direcção do SJ

    Tendo tomado conhecimento do teor de um artigo do jornalista Mário Crespo, difundido hoje no sítio do Instituto Sá Carneiro na Internet e replicado por vários órgãos de informação na Rede, aludindo ao teor de uma conversa entre o primeiro-ministro, dois ministros e um executivo de um operador de televisão, durante a qual o nosso camarada terá sido objecto de referências desprimorosas e ofensivas, e tendo sido instada a pronunciar-se sobre o caso, a Direcção do Sindicato dos Jornalistas torna desde já público:

    1.A ser comprovado o seu teor, a conversa referida é profundamente condenável, não apenas pelas expressões desprimorosas para a pessoa e para o profissional, mas também por alimentar a suspeita de que o Governo persegue os jornalistas, os serviços noticiosos e os órgãos de informação que não são do seu agrado.

    2.Reconhecendo-se o direito de opinião sobre o desempenho dos órgãos de informação e dos jornalistas, não se pode aceitar o recurso a expressões susceptíveis de atentarem contra a honra e a dignidade dos visados ou que constituam uma ameaça – mesmo velada – ao seu futuro profissional.

    3.As expressões alegadamente utilizadas não podem ser empregues por pessoas de bem e muito menos são aceitáveis na boca de titulares de altos cargos, pelo que, a confirmarem-se, se impõe uma retractação pública das pessoas que as tenham proferido.»

  2. Desculpe, mas o senhor não é membro da direcção do Clube de Jornalistas? É que pela maneira como fala às vezes custa a crer que assim seja.

  3. Tenho Mário Crespo em boa conta, isso inclui achar dele, não jogar sujo, baixo, com 2ªs intenções.
    Só há uma coisa que me faz MUITA confusão e já uma vez coloquei essa questão.
    Depois de tanta porcaria em que já se viu metido, a estupidez, burrice, ingenuidade, serão assim tão… descaradas para dizer o que alegadamente disse, em público, alto e bom som, sabendo que “poderia” ser ouvido?
    Se for eu, num restaurante, a falar mal do vizinho, quem ouvir, possivelmente nem ligará, mas isso sou eu, um zé ninguém, desconhecido, mas o PM, com outros membros do governo, em conversa, quem estiver à volta, até se mete em bicos de pés para ouvir melhor, para saber do que falam, como falam. Não me venham dizer que não é assim, com gente conhecida, mesmo num local “in” (que não foi referido).
    Por isso não entendo. Se aconteceu (já foi tomado por todos como certo) foi por burrice ou… propositado?
    Mas, e se não aconteceu? Já alguém pôs esta hipótese?
    Por muito ténue que possa ser, já alguém se questionou se realmente aconteceu?
    Há coisas que me fazem muita confusão….

  4. “É certo que Mário Crespo invoca ter testemunho fidedigno dessa conversa. Mas terá comunicado isso ao director do JN? Tudo indica que não” – escreves tu, no teu Rochedo. Desculpa, Carlos mas isso não é argumento. Não passa de uma presunção tua, talvez porque Leite Pereira é teu amigo. Presunção que não colhe. Pois quando o conteúdo das prosas é polémico, o mais certo é que essa conversa prévia tenha acontecido. Faz parte.
    Quanto ao resto comento dizendo-te que subscrevo inteiramente o teor do comunicado do sindicato de jornalistas que alguém já aqui transcreveu.

  5. Teresa:
    Era realmente presunção minha quando escrevi o post, mas depois de ler o comunicado do JN fiquei sem dúvidas de que tinha mesmo razão. Far-me-ás o favor de reconhecer que não é por JLP ser meu amigo que tomo a posição que tomei. A minha postura sempre foi equidistante e continuará ser em situações semelhantes.
    Se leste bem o que escrevi no CR, terás reparado que levanto questões bem mais pertinentes do que essa.Para apenas citar uma: a não indicação dos nomes do executivo, do canal de televisão, e do local.
    Quando, numa crónica, se relata uma história pessoal, exige-se que o autor seja rigoroso e não deixe suspeitas no ar sobre a veracidade da história.
    Também subscrevo o teor do comunicado do SJ ( embora o tom moralista do ponto 3 me pareça um pouco descabido) que em nada belisca o que escrevi aqui ou no CR.Bem pelo contrário… Se reparares, lê-se logo no ponto 1: “A confirmar-se…”
    Para mim, é isso que está em causa. Nada me obriga a acreditar “a priori” numa história que, embora podendo ser verídica, está muito mal contada.
    E como não sou maniqueísta, tendo sempre a ver as histórias pelo outro prisma. Embora, reconheço, seja muito mais apetecível pelo lado dramático.
    Para terminar, vou ver se encontro uma crónica antiga do ECT sobre MC , que talvez te ajude a perceber muito do que escrevi. Porque o escrevi com consciência e não para defender um amigo
    É que para mim, na liberdade de expresão, não vale tudo! É preciso haver responsabilidade e rigor, coisa que manifestamente faltou na crónica de MC.

    1. Peço-te muita desculpa, Pedro, mas dizer que este foi um caso de censura é de uma enorme irresponsabilidade. Qualquer director de jornal, minimamente responsável, faria o que fez JLP. O jornalismo não é a “Noite da Má Língua”, é rigor. O que é posto em causa na crónica é muito grave e só um irresponsável a publicaria sem ter provas.
      Infelizmente, o jornalismo hoje em dia está tão cheio de maus exemplos, que a atitude de JLP é vista como censura.
      Lamento que assim seja, principalmente pelos muitos jovens jornalistas que conheço que vêem a profissão de forma nobre e rigorosa, mas obrigam-nos a trabalhar no chafurdanço, na intriga, na maldicência.
      Depois queixem-se que não há jornais.

      1. Era o que falta caro CBO, pedir-me desculpa para dar a sua opinião….
        No meu entender um artigo de opinião vincula só quem o escreve e não o Jornal, até porque há muitissimos artigos de opinião que são escritos por pessoas que não são jornalistas.Se em vez de se chamar Mário Crespo, fosse o Pedro Oliveira (presunção minha)?
        abraço meu caro

  6. Depois de ler os dois posts que V. dedica ao assunto, fiquei sem dúvidas quanto à sua qualidade de jornalista.
    Como também pertenço ao Clube (e desde o princípio), sinto-me na obrigação de tratar do caso. Vamos ver.

    1. Também fiquei sem dúvidas que, apesar de você dizer que é sócio do Clube de Jornalistas, desde o princípio, ainda não conseguiu perceber o espírito do Clube. Um sócio do CJ dá sempre a cara, como eu faço, não se esconde cobardemente no anonimato para fazer ameaças. E trata-se sempre por tu
      Já era altura de ter aprendido algumas coisas…

      1. Jamais trataria por tu um ser como V..
        Não o ameacei. Apenas o avisei de que, como sócio do Clube de Jornalistas desde que este se formou, me sinto na obrigação de investigar como é que V. está lá inscrito.
        Só isso.
        E não me venha cá com as tretas da cobardia e do anonimato. Sou jornalista há mais de 40 anos e orgulho-me de um passado de luta contra a Censura, que aliás se encontra publicamente documentado. Mas não pretendo pavonear-me com isso, entendeu?

        1. Já agora, uma vez que apesar de ser sócio, parece desconhecer os órgãos sociais, informo-o que pertenço à Direcção.
          Só mais uma coisa: não é a idade que torna uma pessoa cobarde, é a falta de dignidade e de coragem.

  7. Carlos

    “Excuse me!” Muito mais grave do que o que aconteceu agora com Mário Crespo já aconteceu na TVI, com a Manuela Moura Guedes.
    Com um precedente desses – críticas públicas de um PM a um canal de televisão (julguei estar na Venezuela) o caso de Mário Crespo é apenas “mais um”.
    O jornalismo em Portugal já foi praticamente condicionado. Aliás como muito bem disse Paula Teixeira da Cruz ontem no “Frente a Frente” da Sic Notícias.
    Não ver isto é não querer ver mesmo nada…
    Ana

  8. Já foi confirmado que o “executivo de televisão” era Nuno Santos, director da SICN, que almoçava com Bárbara Guimarães no Hotel Tivoli. E agora, Carlos? Sempre parece que vamos ter de ficar só com o “lado A” da história.

    1. Tão ilustres governantes, conhecem tão ilustres clientes de tão ilustre restaurante. Continuo na minha, a irresponsabilidade será assim tanta para chegarem a esse ponto?
      Tudo isto pode ser verdade, não estou a dizer que o não é, mas custa-me muito, mas mesmo muito, acreditar que o PM “continue” a deixar apanhar-se em cenas destas.
      Até pode mesmo haver só o lado “A”, mas já começo é a achar que HÁ muita gente, com jogo sujo, a querer fazer-lhe a folha a todo o custo.

    2. Ainda bem que já é conhecido o nome do executivo, José. Só é pena que MC não o tenha citado na sua crónica, pois teria evitado, certamente, este circo mediático, cheio de “nonsense” e ideias feitas .
      De qualquer modo, quero esclarecer-te que um dos predicados de um jornalista é o inconformismo. E, por muito que te custe aceitar, as histórias têm (quase) sempre um lado B. Esta não será certamente excepção. Admito que não seja o que alinhavei no CR. Nunca me considerei dono da verdade mas, como sempre me recusei alinhar no pensamento cómodo das maiorias, acredito que esta história tem um lado B.
      Admito que seja difícil, a quem nunca soube o que era a Censura Prévia e pensa que o Estado Novo e a PIDE eram ficção dos comunistas, compreender o significado de “liberdade de expressão”. Não precisarás, certamente, que te explique, mas permito-me lembrar-te que a verdade e o rigor são essenciais a um jornalismo livre. Mal estaríamos se qualquer opinião visando terceiros, só porque foi escrita por um jornalista, não estivesse sujeita ao princípio do contraditório. No dia em que se entenda como “liberdade de expressão”, publicar tudo aquilo que um jornalista escreve, sem sujeitar ao contraditório os casos que merecem algumas dúvidas, o jornalismo terá os dias contados.
      Aprendi , com a Filosofia, que questionar traz à luz do raciocínio novos pontos de observação da verdade que se quer obter. Por isso, nunca me resignarei com o princípio do “o que parece é”. Reflectir sobre os assuntos, é sempre melhor do que embalar na opinião de um rebanho de cordeiros. Reconhecerás, certamente, que não sou um “yes man” nem tão pouco um defensor acérrimo deste governo. Tenho a liberdade de pensar pela minha cabeça e sinto-me no direito ( e no dever) de contribuir para que as pessoas reflictam sobre os assuntos. O post que escrevi tinha esse propósito e não mais. Nunca escrevi que MC tinha inventado a história, apena s dise- e reafirmo- que houve falta de rigor na história.
      Como jornalista ( e não por ser amigo do JLP)sinto-me na obrigação de apaludir a decisão de JLP em não publicar o artigo sem o sujeitar ao contraditório. Para mim, isso é jornalismo responsável. São, no mínimo, injustas as acusações de censor que se fazem ao director do JN. O que houve foi, tecnicamente, um embargo. As razões que levaram MC a retirar de imediato o artigo, recusando a prova do contraditório, só ele as conhecerá e não vou fazer juízos de valor sobre isso, embora tenha a minha opinião. Recuso-me é a fazer julgamentos em praça pública e a aceitar que o jornalismo se transforme numa espécie de tribunal popular, onde a defesa da honra já não seja possível. Tão pouco me interessa que a liberdade de expressão seja confundida com falta de rigor.

      1. Donde lhe vem a autoridade para falar do que é ou deixa de ser jornalismo?
        É certo que V. se diz jornalista. Mas qual é a sua experiência profissional? Em que jornal, rádio ou televisão trabalha?
        É confrangedora essa posição de sabe-tudo, numa matéria de que, como está visto, V. não sabe nada.

      2. Caro Carlos, este é um assunto complexo, que envolve ainda por cima questões emocionais (no seu caso) e preferências políticas assumidas (no meu). Não pretendo terminar a discussão, embora seja para mim óbvio que temos posições muito distintas. Em todo o caso, ficam as seguintes observações:

        1. Não vivia no período do Estado Novo e por isso não assisti à prática institucional da censura. Isso não me impede de saber o que é a limitação da liberdade de expressão num regime democrático, alicerçado numa estratégia indirecta de pressões político-económicas.

        2. A filosofia ajuda e muito a olhar para os vários ângulos de um problema, mas não deve servir para validar o relativismo absoluto. Penso que o Carlos, à força de querer que Mário Crespo não tenha razão, o está a fazer.

        3. Não sei se a história está “mal contada”. Suspeito que sim. Mas sei que os dados já confirmados são motivo de preocupação, para mais tendo em conta o passado recente.

        4. Discordo que o JN tenha feito bem em não publicar um artigo de opinião. E especialmente que o faça depois de não ter hesitado em publicar um e-mail privado, aquando do “caso das escutas”. Dois pesos e duas medidas.

        5. Lamento que o Carlos refira, repetidamente, que isto não passa de uma estratégia de Mário Crespo para vender livros. Parece-me uma acusação que não lhe fica bem.

        Um abraço!

        1. Caro José:
          1- Começando pelo fim, agradecia que me disseses onde é que eu afirmo que isto é uma estratégia do MC para vender livros. Nunca o escrevi em parte alguma e não faço acusações gratuitas.

          2-Pelo contrário, quem está a acusar JLP de censura é que está a fazer acusações infundamentadas. Repito, pela enésima vez, que não houve censura ( a avaliar pelo comunicado do JN). Tratou-se de um embargo, apenas. Quando JLP comunicou a MC que queria confrontar a a história com os visados, de imediato MC terá retirado a crónica. E, nas palavras do próprio MC terá então telefonado a Zita Seabra para publicar o livro. Ninguém de boa fé pode dizer que, caso a história fosse comprovada. JLP não a publicaria.

          3- Ao contrário do que afirmas, não quero tirar a razão a MC. Limitei-me a seguir um caminho diferente da maioria. Isso, como sabes, é perfeitamente legítimo. Nunca acusei MC de nada, nem pus em causa a veracidade da história, apenas apontei alguns factos que, por omissão, lhe retiravam solidez. tentei que as pessoas reflectissem.
          Se fores ao CR verás que foi assim que as pessoas, sem azedume , nem acusações, fizeram os seus juízos. Reflectiram. Umas concordaram, outras não, mas ninguém me acusou de estar a defender A ou B.
          Tive, aliás, o cuidado de dizer que sou amigo de JLP , o que muitas pessoas que defendem MC não tiveram a dignidade e coragem de fazer.
          4- Penso que os blogs não são meras máquinas de reprodução de pensamentos. Devem ser, também, um pretexto para reflectir sobre as questões. Quando isso deixar de ser possível e as pessoas reduzirem as opiniões e as reflexões a uma mera questão de partidarite, então o melhor é partir para outra

          5- concordo contigo no ponto 3 do teu comentário, mas já discordo do ponto 4, por duas razões:
          – Salvo erro, o JN não publicou nenhum mail privado no caso das escutas ao PR. Quem o fez foi o DN!

          1. Obrigado pela resposta cuidada, Carlos. Claro que faz sentido levar a uma reflexão apurada sobre as questões. Mas neste caso, há dados recentes que tornam as coisas demasiado claras…

            Retomaremos esta conversa noutro local, que a escrita nem sempre facilita a resposta sustentada. Um abraço!

  9. A minha grande curiosidade é saber como vai reagir Francisco Balsemão a tudo isto. É um turning point curioso, uma prova de fogo. Fico à espera para ver…

      1. A minha curiosidade quanto à reacção de Balsemão é marginal (embora não descabida), mas não significa que eu desvalorize o facto principal. Tudo isto é gravíssimo. Mas não vou fazer juízos de valor até que se saiba mais sobre este assunto.

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