Ressonância kafknética


Teresa Ribeiro,

Um dia o ortopedista disse-lhe:

– Tem de fazer uma ressonância magnética.

Como não estava numa consulta da caixa, ela, preocupada, replicou:

– Mas a ressonância magnética é um exame muito caro e já me disseram que a caixa não comparticipa.

Infiormado sobre as vicissitudes do Serviço Nacional de Saúde e os custos da ressonância magnética (cerca de 300 euros), o ortopedista, simpático, não desarmou:

– Ouvi dizer que há uma forma de conseguir essa comparticipação, creio que em 40%. Vá ao seu médico de família com esta carta, onde explico tudo e ele com certeza colabora.

Mas o médico de família não colaborou:

– Ressonâncias magnéticas não passamos.

– Porquê? – perguntou ela.

– Não estamos autorizados.

– Mas o ortopedista diz que é a única forma de se saber o que tenho.

O médico de família nada respondeu. Abelhuda, ela insistiu:

– Não estão autorizados porque é um exame muito caro, não é?

O médico de família fitou-a com um olhar pardo e disse:

– Vá, vamos medir-lhe a tensão.

Dias depois, alguém lhe garantiu:

– Pagam, pagam. Na caixa pagam. Vá à ARS que lhe explicam como deve fazer.

Na ARS uma funcionária informou-a sem reservas de que a caixa pagava tudo. Feliz, ela então pediu-lhe o papel.

– Qual papel?

– O papel que prova que é assim, para eu mostrar ao médico de família.

– Papéis não temos.

– Mas eu tenho de provar que é verdade aquilo que me disse.

– Não precisa de provar, porque é assim há muitos anos e os centros de saúde sabem.

– Mas o meu médico de família diz que não está autorizado.

– Isso não pode ser.

– Se me pudesse dar uma fotocópia dessa norma era mais fácil.

– Impossível.

Mesmo sem papel ela decidiu confrontar o seu médico, ao que ele respondeu:

– Ignoro essa norma. O mais que posso fazer é marcar-lhe uma consulta no hospital.

– Mas isso demora meses.

– É o que posso fazer.

Algum tempo depois veio a nota do hospital: "O pedido de consulta foi recusado"

– Justificaram? – perguntou ela ao seu médico de família.

– Não.

10 comentários em “Ressonância kafknética”

  1. Mais uma pérola do nosso sistema nacional de saúde.

    Eu tenho muitas… desde que vim morar para Lisboa, tenho pelo menos um caso por ano. Desde aguardar sete horas nas urgências do Santa Maria com um traumatismo craniano, a ser-me recusado atendimento no centro de saúde da minha área de residência quando eu apresentava sintomas de gripe e estávamos no pico da histeria mediática da gripe A… enfim. Qualquer dia escrevo um livro 🙂

  2. Também tenho algumas para a colecção, mas esta é de antologia! E a impunidade continua, exactamente porque ninguém se compromete a passar a papel o que defende de boca, a pés juntos, como sendo uma verdade absoluta.

  3. Antes de viajar para Angola tinha que marcar consulta no Instituto de Medicina Tropical em Lisboa. Sendo de Elvas lá teria que perder um dia para tomar um simples par de vacinas, não sem antes ter de esperar um mês pela consulta. Mas não. Fui a Badajoz, já que cada capital de província, em Espanha, tem um centro de medicina tropical! Fui sem marcação, esperei 15 minutos e fui vacinado, diante da incredulidade do médico perante a minha justificação de que em Portugal só em Lisboa. Resposta do mesmo: se após o regresso tiver sintomas estranhos volte cá para ser tratado… E só paguei 12 euros.

  4. Um retrato esclarecedor da “saúde” neste maravilhoso país do século XXI. À atenção do ministro da tutela, Dr. Francisco George, e da directora-geral da Saúde, Drª Ana Jorge.

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