Não foi notícia mas devia ser


Pedro Correia,

Um ministro ameaçou Adriano Moreira, enquanto presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de «extinguir» esta instituição caso não estivesse «ao lado do Governo» na autorização ao “desacordo” ortográfico, nos idos de 2008. Não por motivos linguísticos, não por motivos culturais, mas por motivos políticos.

Assim, com todas as letras.

A revelação surgiu num depoimento prestado na Assembleia da República e que, estranhamente, não foi notícia. Mas devia ser. Pode ser consultado aqui.

(via Bic Laranja)

19 comentários em “Não foi notícia mas devia ser”

  1. Mas já agora expliquem-me: porque é que ninguém é capaz de dizer nomes, preto no branco??? Porque é que é “a pessoa que na altura dirigia a área cultural no Governo”? Não tem nome, o Ministro? E o secretário de Estado que o José Gomes Ferreira acusa o tempo todo a propósito das PPP, dizendo inclusivamente que o entrevistou 2 vezes, também não tem nome, esse?
    Eu lamento mas não consigo ter o mais pequeno respeito por estes whistleblowers de
    água doce. É a versão intelectual do muito tuga “Agarrem-me senão eu mato-o!”

    1. IsabelPS

      Porque Portugal tem uma cultura de poder autoritário e, por isso o poder instila o medo: a frontalidade, a visão diferente, tudo é considerado uma transgressão que pode acarretar castigos.
      E acarreta mesmo… o que perpetua o hábito da obediência, o temor reverencial, a subserviência.

      Está a ver episódios destes numa democracia? Portugal não é uma democracia e muito menos há uma cultura democrática e do primado do direito.

      O “acordo ortográfico” nem sequer está em vigor! É o total abuso de poder e violação de lei – para não falar já do aspecto puramente criminal de todo o processo.
      O regime, nas mãos da maçonaria – do CDS ao PS – não contente em nos levar à bancarrota orgulha-se desta boçalidade que é o acordês, instaurando o caos onde não havia qualquer problema
      Sou obrigado a convir que não é qualquer ajuntamento de canalhas que toma a peito retraçar a Língua Pátria em nome de meia dúzia de patranhas e histórias da carochinha!
      Não é fácil, nem nunca foi feito!
      (Talvez por isso se celebrem tanto e tão continuamente)

    2. Ainda não descobri qual o motivo pelo qual toda a gente se sente forçada a reinvindicar uma vida fora da internet.
      De facto, para além de ser geralmente má, é totalmente dispensável, pura perda.

  2. Este aborto ortográfico (AO) foi mal parido devido a tanta falta de decência e outras coisas mais… Este aborto ortográfico (AO) é um aborto linguístico mesmo que outros aceitem-no, impávida e miseravelmente. Este aborto ortográfico (AO) será banido porque a resistência não dará tréguas!

  3. Já tinha lido a notícia na caixa de comentários, mas fez bem em passar a postal principal.
    O ministro já agora era José Pinto Ribeiro, que recebeu condecoração pela Ordem da Liberdade e outras (Alemanha, Polónia).
    É o que se chama meter a Liberdade em Ordem…

    Ambos foram ministros, em Repúblicas diferentes, mas parece que os tiques ditatoriais trocaram de lugar.

    1. A questão – grave – é que a 2ª República, nestes assuntos – respeitava mais a Lei e o interesse nacional.

      A defesa dos interesses do brasileiros (ou daquilo que eles pensam ser os interesses deles – fácil de serem coisas muito diversas em países culturalmente indigentes) – por parte de titulares de cargos políticos de Portugal, eleitos por portugueses, para defenderem os interesses de Portugal, pautando-se pela mais completa e reles subserviência a interesses de potências estrangeiras, é mais um sinal do ao que isto chegou.

      1. Quatro portugueses e dois brasileiros, reunidos numa sala de um velho edifício lisboeta em Outubro de 1990, decidiram o futuro ortográfico de uma língua falada por 250 milhões de pessoas. Parafraseando Churchill, embora às avessas, nunca tantos ficaram a perder tanto graças a tão poucos.

        1. E é de crer que todos eles da maçonaria.
          Seria interessante saber se Maria Helena Rocha Pereira também pertence a essa agremiação que tanto interesse tem pelas questões linguísticas (consideravam as línguas nacionais um empecilho à fraternidade universal).

    1. Toda, nada!
      E se o um ministro tem o atrevimento de ameaçar de extinção a Academia das Ciências, o que não farão os “irmãos de avental” a quem precisa de créditos nos bancos que dominam, ou da publicidade estatal nas suas páginas?

  4. Nem toda a comunicação social se rendeu ao «acordo». Porém, é certo que uma parte significativa dela se rendeu, com destaque para as três estações de televisão portuguesas.

    A pior delas, claro, é a RTP, que, mais do que o utilizar, faz propaganda ao dito cujo, em especial (mas não só) nessa dose diarreica diária que é o «Bom Português» no «Bom Dia Portugal». Ironicamente, com o patrocínio da Porto Editora, cujo presidente, Vasco Teixeira, em audiência recente no parlamento no âmbito do grupo de trabalho sobre o AO, admitiu que aquele não tem, não traz, qualquer vantagem:

    http://ilcao.cedilha.net/?p=10262

    Pelo que, Pedro, e infelizmente, não é estranho que não tenha sido notícia. Para muitos «jornalistas», neste tema como em outros, o fundamental é obedecer a uma «agenda», a uma narrativa, e/ou obedecer… ao(s) «chefe(s)»; para eles isso é mais importante do que dar voz aos opositores do «aborto», o que até poderia proporcionar o aumento de audiências e de tiragens; é mais importante do que a deontologia profissional básica – ouvir, e respeitar, as diferentes partes de um conflito.

    1. Respondi primeiro aqui em baixo ao nosso amigo ‘Bic Laranja’, caro Octávio, dizendo praticamente o mesmo por outras palavras. É como diz: o aborto ortográfico tem vários cultores nas redacções por mera imposição hierárquica. Mas sei do que falo: não faltam jornalistas claramente anti-AO. E outros não hesitarão em escrever como sempre escreveram se a maré mudar. Defensores convictos do ‘acordo’ são pouquíssimos.

  5. Grato pela menção.
    O depoimento é um rombo de todo o tamanho na nau acordita. Com ele tivemos a prova (como faltasse) do coma em que está o jornalismo.
    Cumpts.

    1. Grande rombo, de facto. Os jornalistas estão muitas vezes condicionados por editores e directores que são pró-‘acordo’ simplesmente porque sim. Mas muita gente, nas redacções desses órgãos de informação, é claramente anti-AO, não faltando quem exerça resistência passiva às absurdas regras ‘acordistas’: uma forma de contornar tais regras é escrever sem palavras pervertidas pelo ‘acordo’. Como o crítico de arte do ‘Expresso’ que escreve ‘desenhador de casas’ para não ser forçado a escrever ‘arquiteto’.
      Dá um pouco mais de trabalho mas ao menos escreve-se sem erros, prestando serviço público. Vários jornalistas e colaboradores de jornais fazem isso. São heróis anónimos da resistência anti-AO.

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