Morta não bota chifre…


Pedro Correia,

 

Eu sei que há sempre um certo pudor “intelectual” nos blogues em escrever sobre telenovelas, como se fosse um tema menor. Acontece que para mim não existem temas menores – existe, isso sim, escrita de qualidade ou escrita menor, seja qual for o tema, seja ou não avalizado pelos patrulheiros do gosto dominante. 

Escrevi aqui e aqui o que na altura me ocorreu sobre Gabriela – uma produção da Globo que me reconciliou com as telenovelas brasileiras – em sintonia com uma grande parte dos telespectadores portugueses, que voltaram a dar a liderança do horário nobre à SIC graças à retransmissão desta adaptação televisiva de Gabriela, Cravo e Canela, o inesquecível romance de Jorge Amado.

A qualidade dos diálogos e a excelente direcção de actores são dois aspectos em que os brasileiros continuam a destacar-se claramente na comparação com os portugueses. Convém assinalar este pormenor numa altura em que alguns – muito pouco exigentes – garantem que as produções de cá já podem ombrear com as de lá.

Não é verdade.

Reparem só nestes excertos de diálogos, oriundos precisamente de Gabriela:

 

 

D. Doroteia falando com o filho, coronel Amâncio:

– As minhas suspeitas se confirmaram. Tem mulher botando chifre no marido nesta cidade.

– Ser corno é o pior que há. Minha mulher morreu faz tempo. Às vezes até agradeço porque morta não bota chifre…

– Tem muita mulher que devia morrer por não respeitar o marido!

 

Professor Josué falando sobre Glorinha com o coronel Coriolano:

– Você está com um avião em casa que está decolando todo o minuto…

– Lá em casa é gemada todo o dia e alegria toda a noite!

 

Maria Machadão, dona do Bataclã, para Zarolha:

– Puta que se apaixona é puta burra.

 

D. Doroteia, à conversa com as maiores beatas da vila, as irmãs Dos Reis: 

– Cristo era generoso porque era Cristo. Mas nós aqui, na Terra, não somos generosos sem motivo.

 

Tonico Bastos para o pai, coronel Ramiro:

– Painho, quando uma mulher vai muito à igreja isso é ruim?

– Depende do santo para quem está rezando…

 

Mundinho Falcão, para um cliente bêbedo do bar Vesúvio:

– Ainda bem que cachaça não vota.

 

Coronel Ramiro Bastos discute com D. Doroteia:

– A senhora é uma velha fofoqueira e palpiteira. Bico calado!

– Ainda não nasceu homem para me calar!

 

Tonico, falando de sua mulher:

– Se Olga tivesse o peso em cacau valia uma fortuna.

 

Dona Arminda para Nacib:

– Homem que é homem leva mulher no cabresto!

 

Coronel Manuel das Onças dialoga com Zarolha:

– Quem é que toma quenga como esposa?!

– Se eu sou só a sua quenga, coronel, prefiro continuar quenga. Teúda e manteúda, aceito não. No dia em que quiser casar, avise.

 

Beto para o pai, coronel Amâncio, referindo-se ao irmão:

– Vai passar o dinheiro todo para Juvenal? Mas ele vai casar com quenga…

– Sua avó também era quenga. Assim fica tudo em família.

 

8 comentários em “Morta não bota chifre…”

  1. Para além de ter gostado muito desta versão da Gabriela, e de ter lido recentemente o livro de Jorge Amado, gostei especialmente da sua observação sobre o pudor intelectual. Que não reina apenas nos blogues, mas em toda uma postura cultural. Temos, enquanto país, um eterno metro de retrosaria no que diz respeito a medir e avaliar a cultura.

    Bom fim de semana

    1. É isso mesmo como assinala, Cristina: “Temos, enquanto país, um eterno metro de retrosaria no que diz respeito a medir e avaliar a cultura.”
      Os tempos movem-se mas esta mentalidade não muda. Lamentavelmente.

      Bom fim de semana para si tam´bém.

  2. Inteiramente de acordo consigo. Esta GABRIELA, do grande Jorge Amado, que, nos já distante ano de 75 ou 76, até os plenários da Assembleia da República fazia ‘parar’ para que os próprios ‘pais da pátria’ à sua transmissão televisiva pudessem assistir, é, de facto, uma coisa – de telenovelas falando – do outro mundo. Que agora, na repetição, fez subir as audiências da SIC, que andavam pelas ruas da amargura. As telenovelas portuguesas, acho eu, ainda terão de comer muito pão de milho até conseguirem chegar aos calcanhares de uma GABRIELA.

    1. Penso o mesmo, Beirão. E partilho do seu entusiasmo pela ‘Gabriela’. Entusiasmo redobrado, aliás: já tinha gostado muito da versão de 1975, retransmitida pela RTP dois anos mais tarde, e gostei ainda mais desta versão, que assinalou o centenário de Jorge Amado. Em boa hora a SIC a integrou na sua programação: as audiências corresponderam. O que só prova que vale a pena fazer investimento na qualidade.

  3. Quando a telenovela tem um bom suporte literário, uma boa direcção de actores, não há que ter pudores. Agora o que abunda é uma indigência no texto e na direcção francamente assustadora. Não foi o caso da Gabriela, antiga e nova. No entanto achei a nova versão demasiado hiperrealista.

    1. De facto, quando uma telenovela tem um bom suporte literário isso ajuda muito. Não entendo por que motivo nenhuma produção nacional arrisca uma adaptação de uma boa obra literária de autor português.

  4. Sou suspeita para comentar o assunto, já que trabalho directamente com telenovelas.
    O impacto de uma protagonista feminina e livre de pudores sociais e morais foi tal, que antes da estreia deste “remake” ainda havia quem se lembrasse de certas falas. É certo que não é a mesma coisa do que ler um livro, mas também é certo que Jorge Amado nunca sonhou que a crítica à sua cidade natal fosse disseminada desta forma.
    Seria bom que os guionistas e argumentistas portugueses enveredassem por este tipo de adaptação. Creio que daqui a pouco tempo, esta será a única forma de dar a conhecer aos jovens determinadas obras. Que eu conheça, ouve apenas uma adaptação de três obras de Camilo Castelo Branco (Amor de Perdição, Mistérios de Lisboa e Livro Negro do Padre Dinis). A produção luso-brasileira passou na RTP e chamou-se Paixões Proibidas.
    A naturalidade dos diálogos, que os portugueses não conseguem igualar, é fácil de perceber. Os autores brasileiros fazem uso de estereótipos e lugares-comuns, fazendo a sua crítica à sociedade e educando, alertando sempre para fenómenos como a gravidez na adolescência, as DST, a violência doméstica, a acessibilidade, a corrupção política, as drogas, etc.. Os autores portugueses imaginam um mundo de betos e tias, onde toda a gente se trata por você, com o qual ninguém se identifica, e sem qualquer conteúdo.
    Em relação aos diálogos da Gabriela, retive este:
    “- Olha, Nacib. Dou-te aquela estrela.
    – Uma estrela?
    – Uma estrela, Nacib. Aconteça o que acontecer, ela estará lá. Sempre. Quando olhares para ela, lembra-te de mim. Mesmo que esteja longe. A estrela é tua. O brilho da estrela é teu. É para sempre.”
    Romântico, bonito e desprendido. Algo que se quer, nos dias que correm.

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