Desloquei-me de casa própria, regressando a Nenhures. Apesar do bucólico aconchegante em que aqui sempre mergulho, tanto que permite imaginar-me um qual Daudet no seu imaginário moinho, senti a falta de alguns confortos aos quais me fui habituando nas últimas destas minhas já quase seis décadas, esses que por ora tomaram o nome de gájetes. Por isso deles me fui abastecer ao armazém oriental da vila próxima, consabidos os aprazíveis preços ali praticados, pois no poupar é que está o ganho …
Ontem decidi estreá-los. E ao enfrentar uma cenoura maturada alcei do virginal descascador, encontrando-o inábil para o desiderato. Troquei de raiz, optando por uma mais viçosa, para findar com a mesma desilusão. Cuidadosamente coloquei o objecto proveniente da Celeste República Popular no saco do lixo adequado, fiel à responsabilidade ecológica, enquanto tartamudeei – na liberdade da solidão inescrutável – elogios ao vigor sempre demonstrado pelo em breve ex-presidente gringo, Donald Trump.
Por aqui tantas e tão frondosas são as nogueiras que até por elas se nomeiam os lugarejos. E assim sigo rodeado de cabazes de nozes. Hoje, domingo, acoplei-as ao matabicho – como antes se chamava ao branche – acompanhando um suculento naco de marmelada avoenga. Até temeroso trouxe à mesa o novo quebra-nozes, ainda intacto de mácula. Mas sosseguei, pois estreei-o com sucesso. À primeira noz comi-a com volúpia. E logo passei à segunda. Diante da qual logo se partiu uma haste do artefacto … Não me preocupei, confesso que até já esperava, por temido, o acontecido. Busquei o martelo e fui abrindo nozes, acompanhando as marteladas com loas à pertinência do professor Ventura, naquilo do Portugal para os portugueses, contra esses mariolas estrangeiros que para cá vêm viver e vender rebotalho.

Que lugar é esse, que tantas nogueiras com tão boas nozes tem?
Eu tenho nogueiras na minha propriedade na Bairrada. Mas já há três ou quatro anos que consistentemente só dão umas nozes todas pretas, cuja casca exterior não se separou da interior, antes se queimando, e em grande parte podres ou estragadas por dentro. Creio que é do calor excessivo que nestes últimos anos tem feito no verão, sempre com ondas de calor que, por mais que se regue as nogueiras, as deixam secas. jpt não tem o mesmo problema com as suas nogueiras?
As nogueiras não são minhas – não digo “infelizmente” não só porque sigo desprovido de anseios possidentes como, acima de tudo, estão muitíssimo bem entregues. Mas adianto que estas nogueiras minhas vizinhas estão em muito bom estado, fertilíssimas. Muito lamento o que se passa aí nas suas, uma dor de alma, decerto.
Isto passa-se a sul do Tejo, cerca de Nenhures. (De onde se vê uma Lisboa longínqua e muda, assim aprazível)
Há aí à venda um livro de um escritor chinês intitulado “China em dez palavras”. É bastante interessante. Duas das (dez) palavras que dão mote ao livro são “pirata” e “enganar”. Ele diz (e dá exemplos, alguns bem chocantes) que na China atual é enorme a quantidade de pirataria e de enganos. Diz que até já leu num jornal uma “entrevista” a ele que não lhe tinha sido feita e que, quando interrogou o jornalista sobre o assunto, ele lhe disse sorridente que era “uma entrevista-pirata”. Ou seja, a quantidade de falsificações que se produzem naquele país é chocante.
É claro que também se produzem lá excelentes produtos…
JPT, este seu post, fez-me sorrir e levou-me à infância. Explico. Quando era criança e passava temporadas no Alentejo – Férias Grandes – em casa dos meus avós – uma pequena herdade com várias árvores de frutos [também com um poço e um “tanque” habitat de girinos e rãs que vinham refastelar-se ao Sol e…OK isto já é entrar por uma outra “história”] dizia, eu nessa altura, sempre fui uma miúda franzina, não conseguia partir as nozes com um quebra-noz, não tinha força para isso ou então era mesmo falta de habilidade, mas vou pela primeira. Sabe como fazia? Partia as nozes nas dobradiças das portas. Muito mais fácil!!
ora disso se diz fazer das fraquezas força … Eu é mais à marretada, de martelo (mas sem foice) em punho