O cartel do pensamento


Luís Naves,

Sempre me perguntei: para quê escrever quando as nossas palavras são iguais às dos outros? Infelizmente, a pergunta não é deste tempo, em que acelera o fecho das mentes. As opiniões de hoje são de tal maneira idênticas entre si, que se torna difícil aceitar convicções fora de limites estreitos. Existe uma espécie de cartel do pensamento que combate ferozmente as teses heterodoxas. Por outro lado, assistimos a um fenómeno de banalização, em que triunfa a informação fútil e onde muitos falam de cátedra sobre coisas que não compreendem. O ambiente é propício a manipulações, teorias da conspiração e cepticismo. Também vivemos numa época má para a resistência. As pessoas parecem ter receio de participar em discussões e desconfiam à partida da fiabilidade das informações que lhes chegam pelos canais tradicionais, cada vez mais fragmentados. Foi o que aconteceu no antigo regime, o público sentia-se enganado e não acreditava naquilo que lia. O que nos leva a um incidente menor. Ontem, pessoas que se manifestavam contra o recolher obrigatório ameaçaram agredir um jornalista. O repórter teve de abandonar o local protegido pela polícia, apenas porque o seu cálculo do número de presentes não coincidia com o palpite de quem protestava. Ao desconfiarem do mensageiro, os ingénuos manifestantes perderam uma oportunidade para debater a questão que motivava o protesto. A frustração não os fez avançar um milímetro. O que estava em causa era como preservar um sector vital da economia evitando a desordem e contendo ao mesmo tempo a expansão de um vírus perigoso. Há milhares de restaurantes em perigo de fechar nas próximas semanas ou meses? Empregos e negócios ameaçados? O que se pode fazer? Aparentemente, os meios de comunicação ainda não levam nada disto a sério e o público parece apático. E aqui chegamos à outra faceta do mundo contemporâneo: a hipocrisia. Se formos ao fundo da rua, ao restaurante que frequentamos, estaremos solidários com o proprietário, vamos lamentar que ele despeça um dos empregados e achar mal que aumente os preços. Depois, quando fechar portas, encolhemos os ombros e dizemos cá para nós, em voz baixinha: ‘que pena, aquele sítio era tão porreiro’. 

13 comentários em “O cartel do pensamento”

  1. Falta senso comum, de cima abaixo. Os restaurantes sofreram uma primeira vaga de confinamento, e quando terminou abusaram, na muito compreensível ânsia de recuperar das perdas – falo dos que conheço, mas acredito que não foram casos isolados. Alguns tiveram a sensatez de estabeler contratos com Uber e Glovo e virarem-se para o takeaway, sempre ajuda.
    Eu compreendo tudo isso e também a indignação. Se numa sala pequena o governo considera que 30 alunos lado a lado não constitui um risco, ou se afirma que em transportes públicos lotados também não há risco, parece injusto que recaia sobre eles a tarefa impossível de conter a pandemia.
    As directivas avulsas e contraditórias que vêm de cima não ajudam a acreditar que são critérios exclusivamente sanitários o motivo do que sofrem. Por outro lado, cabe a cada um de nós exercer bom-senso, e isso não tem sido a regra.

  2. Sobre a comunicação social, prevejo que mais casos destes venham a acontecer. Não só aqui, mas em outras partes do mundo também e com resultados mais graves.
    Esta é a CS que tem ajudado a espalhar o terror e a alimentar estas medidas extremamente agressivas, cujos resultados são devastadores para o sector da restauração.
    Esta é a CS que ecoa repetidamente o número de infetados diários, mas refere ao de leve o número de recuperados.
    Esta é a CS que não faz o cálculo entre o número de infetados e o de recuperados, que mantém a aparência de que o país ganhou mais 3000 ou 4000 infetados, quando na realidade ganhou 1000 ou 1500, porque entranto foram recuperados 2000 ou 2500.
    Esta é a CS que não procura saber quantos dos positivos diários se encontram em fase de contágio.
    Esta é a CS que não publica quantos infetados ativos existem e quantos desses de facto se encontram em estado de contágio. Se fizermos essas contas, o número não é com toda a certeza tão chocante. Mas é necessário manter as aparências, o terror, o medo.
    Esta é a CS que em qualquer outra manifestação em que a polícia atue, de imediato a rotula de violenta, racista, opressora.
    Mas quando provam a dura realidade, exigem logo que a polícia aja para os proteger.
    A CS descredibilizou-se, tornou-se meio de informação tendenciosa, oportunista e de tablóide, com agendas políticas e nenhuma isenção.
    É natural que a desrespeitem, quando ela própria não respeita os valores pelos quais se deveria reger.

    1. A primeira vítima desta CS instrumentalizada já foi. A CNN teve reações orgásmicas com a não eleição de Trump. Sim, porque o objetivo não era que Biden ganhasse, mas que Trump perdesse.
      A Itália foi o aquecimento e serviu para testar a maquina.
      Segue-se o Brasil, onde a estratégia utilizada nos EUA já se encontra em andamento, depois de 2 anos de preparação. Certos jornalistas já estão nos lugares chave, em horários privilegiados, os editores e chefes de redação do sistema estão controlados, só falta mesmo fecharem as pessoas em casa, a consumir esta CS enviesada, e esperar para ver se lá também acontece o mesmo.
      Qual será o próximo, é a pergunta a fazer…

  3. Então mas afinal, devemos ou não manifestar a nossa indignação?
    Em que cartel de pensamento é que nos devemos colocar?
    No dos negacionistas, aqueles que ignoram que está a morrer muito mais gente não covid do que com covid.
    Ou no dos realistas, aqueles que acreditam que se a economia colapsar, os doentes covid passam a ser o menor dos problemas.
    Acredito que haja um cartel, mas não é o do pensamento, é o da comunicação social. Felizmente há a net, e apesar das fake news, existe a possibilidade do contraditório.
    Não infantilizem as pessoas, o que estão a fazer não tem nada a ver com saúde. São outros objectivos que a história se encarregará de revelar.

  4. Para só falar dos vivos, que pena mais uma falência. Entre Sócrates e Costa qual srá o mais porreiro?

  5. Caro Luís Naves,
    As questões que deviam colocar a António Costa e a Marcelo Sousa são as seguintes:
    – O vírus só ataca ao sábado e ao domingo?
    – O vírus só ataca a partir das 13h00?
    Se as respostas forem não e não, nada disto faz sentido, é tudo uma palhaçada (com todo o respeito pelos palhaços) e espero que o “povo” na altura de botar voto se lembre, que todos tenhamos memória desta longa noite negra que Costa e Sousa nos fazem viver.

    1. E preciso ser dotado de grande inteligência para perceber que é a partir das 13 h de sábado e nos domingos que mais se juntam//concentram as pessoas?

      1. Então mas a maioria dos contágios não acontecem em casa, no círculo familiar?
        É preciso ser dotado de grande inteligência para perceber que sendo obrigados a estar mais tempo em casa, em família, existirão mais contágios?

    2. Um bocado demogógico… é óbvio que deve haver um número maior de contágios nos períodos de lazer (à noite e fins-de-semana). Quer não quer perceber não sei o que espera contribuir para uma discussão séria do assunto.

      Concordar com este aspecto (os horários) não impede que não se concorde com a regra em geral — eu por exemplo acho que uma proibição de deslocação entre concelhos mais alongada no tempo e proibir ajuntamentos de mais de 5 pessoas permitiria ter coisas a funcionar e controlar os contágios ao mesmo tempo, sem ser preciso enfiar toda a gente em casa outra vez. Mas também não possuo números que me permitam sequer ter uma opinião como deve de ser.

      E depois era fazer cercas sanitárias nas zonas piores. Mas como têm medo de ferir susceptibilidades e querem meter tudo no mesmo saco a coisa vai continuar assim.

  6. Costa ainda não percebeu que importa garantir a protecção dos mais vulneráveis; e a única maneira de garantir isto passa também pelo ensino à distância, qualquer que seja o grau, segurança nas aulas presenciais absolutamente indispensáveis, no teletrabalho e na rotação de turnos nos diversos estabelecimentos comerciais e indústrias.
    No restante a implementar, siga-se as regras de higiene, segurança e distância. Como não anteciparam-se à situação querem agir quando a situação está descontrolada.

    Já se perderam empregos e negócios, e outros mais seguirão na exportação e no turismo e até mesmo no sector da energia: gás, petróleo… É necessário deixar funcionar o que ainda pode ser uma resposta para a economia.

    Quanto à agressão: uma parvoíce dos manifestantes. Mas também reflexo disso mesmo que refere: o descrédito da classe e o desrespeito por ela.

  7. Tal como aconteceu no ‘isto é que está dar’ nas situações anteriores de sapatarias, agências bancárias, ida a Alcochete ao ensopado de enguias, cervejarias, marisqueiras, esplanadas também rebentaram as que tiveram de rebentar: não era pra todos. Agora chegou a vez dos restaurantes, chegou a haver mais restaurantes que pessoas para almoçar/jantar, vão ficar uns tantos e vale uma aposta que vão ser os do costume.

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