Memórias do Vento


Maria Dulce Fernandes,

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No princípio, era a TV a preto e branco com um só canal, espremida numa caixa quadrada inestética e escura, com um pequeno cinescópio cheio de estática, que ligava aos fios que corriam até uma antena em formato de espinha de peixe fixa no telhado, que em dias bons nos permitia ver as notícias, alguns desenhos animados e as noites de teatro.

O Pai adorava as noites de teatro e posso dizer com sinceridade que, dos programas descontinuados, foi o que mais saudades me deixou.

O temporal que  sobre nós desabou deixou as sequelas de destruição que os ventos largados em fúrias assassinas costumam deixar por onde passam.

Vi e chorei. Chorei pela árvore que eu conheço desde que me conheço, aquela que soçobrou e com um gemido de dor não resistiu ao sopro forte do huno que a fustigou.

Chorei, porque me lembrei de estar com o Pai em frente à caixinha preta, a rever pela enésima vez “As árvores morrem de Pé”, de Alejandro Casona, soberba interpretação duma já muito idosa Palmira Bastos, onde brilhava o também saudoso Varela Silva. Chorei por me recordar de como o Pai, de olhos brilhantes, repetia as palavras finais com a protagonista “Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores”… Fico parada a olhar para dentro da recordação que me acarinha, enquanto tudo à minha volta rodopia num turbilhão tão violento como as emoções que me assaltam. 

Lá fora,  o  vento  que estridente sopra do mar continua a poderosa investida contra as muralhas da nossa incapacidade, numa batalha que sabe ganha à partida.

18 comentários em “Memórias do Vento”

  1. Há meia dúzia de anos houve uma ventania brutal em fevereiro, com o vento a soprar de Norte em vez de Sul como é habitual em Portugal quando há ventanias. As árvores já têm raízes mais fortes do lado Sul para aguentar essa ventania de Sul, mas não têm raízes tão fortes do lado Norte. Eu tinha um choupal com choupos já altos, quase na altura de cortar. Foram todos arrancados pela raiz, nem um se salvou. Todos os choupos grandes foram arrancados, somente os pequenos ficaram. Foi um prejuízo enorme para mim.

    1. É provável que esta minha memória seja dessa franja de ” furacão”, pois tem à vontade seis ou sete anos. As árvores grandes do jardim sofreram todas danos consideráveis, com muitas pernadas partidas a voarem largos metros e a danificarem telhados, janelas e automóveis.

      1. O que aprendi desse episódio é que as árvores grandes são mais suscetíveis que as pequenas e que, portanto, quando uma árvore já está bastante grande convém cortá-la um bocado. As árvores pequenas não são derrubadas pelo vento, mas as grandes são.

          1. Se o vendaval se passou em dias de inverno, embora não sendo entendido em dendrologia, a árvore derrubada da fotografia parece ser um jacarandá.
            O jacarandá é uma árvore que perde as folhas a meio do inverno (decídua) e de raízes fundas, por isso o vento não a arranca antes racha/parte.

        1. Não são necessariamente as árvores grandes, são as que têm mais resistência ao vento devido à quantidade de vegetação. A altura pode ser um factor mas uma árvores grande com poucos ramos e vegetação raramente cai por vento.
          Há também espécies como os ciprestes(por vezes erradamente chamados cedro) que têm as raízes muito pouco profundas..

          1. 100-150m é uma grande distância .

            Ramos com vegetação tornam-se ainda mais pesados com o peso da chuva.

          2. Exactamente. Foi muito vento e muito forte . Chaminés, telhados, carros, havia bocados da árvore por todo o lado e muitas delas tinham feito estragos consideráveis. Lembro-me de uma que entrou num telhado com uma lança ramalhuda. Não tirei muitas fotos porque estar na rua era um bocado assustador.

    2. “As árvores já têm raízes mais fortes do lado Sul para aguentar essa ventania de Sul, mas não têm raízes tão fortes do lado Norte.”

      Não. Deve ser por isso que as árvores expostas aos ventos estão inclinadas a Sul…elementar torna as raízes a norte mais fortes não as de sul.

      Em 2013 ocorreu a tempestade Gong. o que a destacou das outras não foi o máximo de vento mas cerca 24 horas de vento muito forte continuamente.

  2. Há uns bons anos fui ver a uma classificativa do Rally das Camélias, para os lados de Mafra, e no regresso feito a pé, até ao local do estacionamento do meu carro, levantou-se um vendaval tal que arrancou uma grande árvore. Assistimos ao fenómeno que parecia como um dentista a arrancar um dente com a raiz .

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    E o vento cala a desgraça
    O vento nada me diz.
    O vento nada me diz

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