
No princípio, era a TV a preto e branco com um só canal, espremida numa caixa quadrada inestética e escura, com um pequeno cinescópio cheio de estática, que ligava aos fios que corriam até uma antena em formato de espinha de peixe fixa no telhado, que em dias bons nos permitia ver as notícias, alguns desenhos animados e as noites de teatro.
O Pai adorava as noites de teatro e posso dizer com sinceridade que, dos programas descontinuados, foi o que mais saudades me deixou.
O temporal que sobre nós desabou deixou as sequelas de destruição que os ventos largados em fúrias assassinas costumam deixar por onde passam.
Vi e chorei. Chorei pela árvore que eu conheço desde que me conheço, aquela que soçobrou e com um gemido de dor não resistiu ao sopro forte do huno que a fustigou.
Chorei, porque me lembrei de estar com o Pai em frente à caixinha preta, a rever pela enésima vez “As árvores morrem de Pé”, de Alejandro Casona, soberba interpretação duma já muito idosa Palmira Bastos, onde brilhava o também saudoso Varela Silva. Chorei por me recordar de como o Pai, de olhos brilhantes, repetia as palavras finais com a protagonista “Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores”… Fico parada a olhar para dentro da recordação que me acarinha, enquanto tudo à minha volta rodopia num turbilhão tão violento como as emoções que me assaltam.
Lá fora, o vento que estridente sopra do mar continua a poderosa investida contra as muralhas da nossa incapacidade, numa batalha que sabe ganha à partida.
