Deslumbramento


joaomsandre,

Webb's_First_Deep_Field.jpg

Há muito que não escrevo e não me vejo a retomar a escrita frequente no futuro próximo, mas não podia deixar de escrever algo sobre as primeiras imagens do telescópio espacial James Webb. A primeira imagem revelada, que encima este post, é “apenas” a imagem de maior resolução do Universo quando jovem (imagem de maior resolução e com possibilidade de fazer zoom aqui). Dizer que o Universo era jovem é algo relativo, já que a imagem é de um aglomerado de galáxias (no centro da imagem) como existiam há 4,6 mil milhões de anos, quando o Universo teria cerca de 9,2 mil milhões de anos. O Universo teria já uma aparência semelhante à actual mas, crucialmente, não estaria ainda sob a influência de Energia Escura. Não vou alongar-me com este tema, mas de acordo com o nosso conhecimento de Física e do Universo, a Energia Escura tornar-se-à (ter-se-à já tornado?) o mais importante factor na evolução do Universo. Importante no entanto é notar que uma das galáxias que se vêem na imagem aparece como existia há 13,1 mil milhões de anos, ou seja, apenas 700 milhões de anos depois do Big Bang (se o Universo fosse uma colecção de pessoas com 80 anos agora, estaríamos a ver a galáxia como se fosse uma criança de 4 anos).

O Telescópio Espacial James Webb (JWST na abreviatura inglesa) é um projecto com décadas e que demorou imenso tempo a ser completado e se atrasou no lançamento múltiplas vezes. A primeira vez que se discutiu um sucessor para o Hubble foi nos anos 80 mas os planos iniciais só começaram a sério nos anos 90, após o sucesso do Hubble. O desenho final só começou a ser verdadeiramente formulado em 2005 e a construção em 2007. Múltiplos desenvolvimentos tecnológicos foram incorporados e novas descobertas levadas em consideração. A construção foi altamente complexa, dado que era um objecto de enorme tamanho mas muito baixa massa, o que levava a que os elementos fossem difíceis de produzir e integrar. Isto levou a que a construção demorasse bastante tempo, incluindo todas as revisões dos desenhos e do projecto em si. Em 2016 a construção terminou e a fase de testes começou, a qual resultou em vários problemas que tiveram que ser corrigidos. Em 2019, a construção final do JWST como existe hoje terminou e os testes recomeçaram. Tudo isto contribuiu para o seu custo final de pouco menos de 10 mil milhões de dólares.

Após passar os testes, o JWST foi lançado para o espaço a 25 de Dezembro do ano passado e viajou até chegar ao seu destino, o Ponto de Lagrange L2, onde o efeito da gravidade da Terra e Sol, bem como a força centrífuga da rotação de um objecto neste ponto, se equilibram e permitem estabilidade de órbita. Este Ponto de Lagrange (há 5 no sistema Terra-Sol) foi escolhido porque está para lá da Terra, na extensão de uma linha imaginária do Sol à Terra. Este posicionamento permite bloquear muita da luz vinda tanto do Sol como da Terra, o que facilita a observação espacial. Durante a viagem, o JSWT iniciou a sua instalação completa (desdobrando e extendendo todos os componentes) incluindo os seus espelhos, necessários ao funcionamento, que foram colocados em posição e alinhados (num processo que demorou meses) ainda antes de chegar à sua órbita em torno do ponto L2 (a 24 de Janeiro deste ano). Depois disso foi necessário proceder a todos os testes de equipamento antes de chegar à imagem acima.

Neste momento vale a pena perguntar o porquê. Porque razão gastamos milhões (milhares de milhões) num telescópio para nos dar imagens? Numa câmara fotográfica, portanto. Claro que não é tão simples. Esta máquina fotográfica tem capacidade de medir a luz em comprimentos de onda que não eram possíveis até agora e nos dão a possibilidade de ver objectos que estavam escondidos até agora. No entanto sim, é uma máquina fotográfica. A resposta mais simples a esta questão é “porque sim”. Porque queremos saber mais sobre o mundo e o Universo. Porque queremos entender o que nos rodeia. Pela mesma razão que Sócrates ou Aristóteles ou Descartes pensavam, porque queriam compreender. O alcance e o detalhe e a forma de compreensão é diferente, mas a natureza da questão não mudou. Porque queremos saber mais.

Há outras respostas que podemos dar, no entanto. John Keats falou sobre “Unweave(ing) a rainbow” (“desconstruir o arco-íris”) para criticar os estudos de Isaac Newton sobre a natureza da luz, argumentando que ao se tentar explicar um fenómeno, a sua beleza, o deslumbramento que causa, se perdem. No entanto a resposta dos cientistas é que não só não se perde isso – um cientista pode apreciar a beleza de um arco-íris tal e qual qualquer outra pessoa – mas lhe acrescenta ainda mais beleza. Como não apreciar a beleza das fotos que o Hubble nos deu ao longo das suas décadas de serviço? Como não ficarmos ainda mais deslumbrados ao vermos as fotografias que o JWST nos deu quando estava simplesmente a ser testado? E ainda não partilhei aqui algumas das fotografias mais belas e as descobertas que nos trouxeram já. A beleza e o deslumbramento, a sensação do maravihoso que estas imagens nos trazem – me trazem – é inigualável. Não quer dizer que é a maior sensação de deslumbramento que já tive, mas nunca como esta. Já vi uma referência a esta notícia como sendo das poucas que podem causar um bem estar quase universal, tal como a missão Apolo XI (com as devidas ressalvas de importância) e não posso deixar de concordar. É um deslumbramento que transcende – deveria transcender – fronteiras e culturas. Isso em si já deveria bastar.

Mas vivemos num mundo materialista. Como tal podemos referir os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que foram certamente necessários para conseguir produzir esta maravilha da ciência e engenharia. Desde a ciência dos materiais, métodos de construção, novos instrumentos, novos robots para construção e montagem, métodos de análise (não só por parte do telescópio mas também para avaliar o próprio telescópio), etc. Já li algures que os nosso smartphones actuais devem quase tudo aos programas de exploração espacial. Desde as câmaras, aos hips, aos GPS, tudo isso foi desenvolvido graças a, ou para facilitar, os programas espaciais. Se hoje a SpaceX de Musk e a Blue Origin de Bezos podem competir com a NASA, isso deve-se ao trabalho de décadas dos prigramas públicos. O nosso mundo é em grande parte possível devido ao nosso desejo de conhecimento, à nossa sede de saber mais. À sensação de deslumbramento que olhar para cima nos trás.

Porque razão gastar 10 mil milhões numa câmara fotográfica? Porque podemos recuperar esse investimento com tudo o que desenvolvemos. Porque podemos saber mais. Porque podemos ser deslumbrados, mais uma e outra vez. Para mim, esta última basta.

 

Nota: provavelmente terei erros ou imprecisões na informação acima. Não é a minha área de conhecimento, sou apenas um apaixonado pela ciência. Agradeço quaisquer correcções nos comentários.

32 comentários em “Deslumbramento”

  1. > John Keats falou sobre “Unweave(ing) a rainbow” (“desconstruir o arco-íris”)

    Por amor da santa, não traduza Keats com Derrida, é pior anacronismo do que aqueles legionários romanos com relógios de pulso.

    (desfazer, desfiar, etc.)

      1. Disse “Há muito que não escrevo” e veja que escreveu sobre um assunto insignificante que teve logo direito a um destaque, talvez por ser insignificante.

        Mas eu explico porque razão é insignificante. Desde logo são apenas umas imagens. Depois somos um mundo apenas avançado em tecnologia e manipulação, mas bastante atrasado em valores humanos.

        Por exemplo por vezes há violações de direitos humanos que são abafadas e isso acontece cá. Assim se enganam os cidadãos e depois eles podem continuar a discutir o que é insignificante.

          1. Sim, bastante atrasado em valores humanos. E a sua resposta significa que ou é ignorante ou foi manipulado ou o assunto não lhe interessa.

            E aqui eu falei em violações de direitos humanos que são abafadas e vou ficar à espera para ver quem dá valor a isto.

            Possivelmente vou ter aqui mesmo a confirmação que estou certo.

          2. Não, neste post não me interessa. Há mais coisas no mundo (e fora dele).
            Se lhe interessa tanto o assunto, crie o seu blogue (se não o tem) e escreva sobre o assunto. Não venha pedir a outros que lhe façam a papinha toda. Ainda por cima nem assina.

          3. Ainda bem que está a confirmar que eu tinha razão ao dizer “bastante atrasado em valores humanos”.

            E você foi o mesmo que disse: “Largue o espelho”, deve ter feito copy/paste.

            E eu disse: Mas eu explico porque razão é insignificante. Desde logo são apenas umas imagens. E sobre isto ficou em silêncio, ainda bem!

          4. Fiquei em silêncio porque o disparate não necessita de resposta. Fique-se com as suas tolices e deixe-me em paz. Vá lá escrever num blogue seu para si, para o vento ou para quem o ature. Eu estou farto. Já me bastam as parvoíces de outros comentadores.

    1. Como traduziria? Desfiar? Destear (se é que existe)? Do meu ponto de vista, o termo desconstruir é o que mais se adequa à interpretação filosófica, mesmo que fique aquém do teor poético (não sou Keats nem tenho artes para o traduzir).

      1. “Desconstruir” foi um neologismo introduzido pelo Derrida, prontamente expelido para os media pelos mesmo abençoados que acham que “exponencial” quer dizer “muito”, e que maciço agora se escreve “massivo” porque inglês.

        Antes disso o mais que se fazia era desmantelar, desfazer, destruir, etc. Como o Keats falou em “weave” (tecer, tecido), desfiar também não ficava mal.

        Agora meter na boca dum romântico do século XIX o vocábulo do pós-moderno do século XX … a mim soa-me muito mal, mas pronto, já sei que sou uma minoria insignificante.

        1. Compreendo o seu ponto de vista, mas quando analisamos o texto noutro período, usando outra língua e tendo outra perspectiva em mente, não creio que seja desadequado usar neologismos, quaisquer que tenham sido as intenções de quem os introduziu (se não me engano Shakespeare também criou uns quantos).
          Eu fico-me com o “desconstruir” porque serve o meu propósito (Newton não me parece que se tenha pronunciado, mas fico à espera do vídeo de TikTok de refutação da parte dele) mas compreendo que não goste. Leia “desfiar” onde aparece “desconstruir”. Concordo, não ficaria mal. É só que eu não sou um romântico (pelo menos não do século XIX)

        1. Mas desfiar, por literal que seja, tem um sentido de “desfazer”, o que não será o pretendido. Se necessário evitar o anacronismo do “desconstruir” (concordo, irrita-me um pouco o derridianismo, ainda que este não esteja no postal) então o melhor seria “desmontar” (que deixa em aberto a possibilidade de remontar).

        2. Concordo que seja ambas, mas para o meu propósito prefiro desconstruir. Mas podemos utilizar o “desmontar” que o jpt propõe abaixo para não causar alergias a ninguém

      2. Unweaving também é inglês esquisito — e o próprio poema foi feito para reforçar a importância da ideia poética do arco-íris que na opinião de Keats estava ameaçada pelas explicações científicas de Isaac Newton.

        Por isso, para mim, a tradução adequada de unweaving seria mesmo destecer o arco-íris.

  2. Devias escrever mais, João. Ainda bem que trouxeste cá este tema. No meu círculo, a malta mais ligada à ciência e à ficção científica recebeu as primeiras imagens do James Webb com entusiasmo, mas fora disso ninguém parece querer saber. É pena, mas é também sintomático.

    1. Concordo que estes temas não aparecem o suficiente e é pena. É falta de atenção aos temas científicos e que levam a que as secções de “Tecnologia” dos jornais fiquem pelo IT, como se fosse essa a única tecnologia existente.

      Quanto a escrever mais, depende da disponibilidade (de tempo e desejo). Há muito que me falta.

  3. li algures que os nossos smartphones actuais devem quase tudo aos programas de exploração espacial. Desde as câmaras, aos hips, aos GPS, tudo isso foi desenvolvido graças a, ou para facilitar, os programas espaciais. Se hoje a SpaceX de Musk e a Blue Origin de Bezos podem competir com a NASA, isso deve-se ao trabalho de décadas dos prigramas públicos.

    Este argumento foi feio, e muito bem apresentado, pela economista Mariana Mazzucato.

    (Há aí disponível um livro dela, em tradução portuguesa, com o argumento apresentado em detalhe.)

    1. Não me lembrava de quem era mas sabia que existia de facto tal argumento. Penso que até lista uma série de tecnologias que costumamos atribuir ao sector privado mas que têm as suas origens no público. O sector privado tem um papel importante (aliás, indispensável) em trazer as tecnologias ao mercado e de forma a que o público as queira, mas sem os estados a absorverem os riscos iniciais, muitas das coisas que hoje damos por garantidas não existiriam.

  4. Padrinho, envio daqui, do campo de batalha, um abraço.
    Simplificando sua informação: O James Webb não vê no espectro da luz visível. Ele está programado para captar ondas infravermelhas. Assim, o trabalho do telescópio consiste em registar as “pinturas rupestres” que o universo deixou-nos no tempo.
    Abraço

    1. Tem mais a ver com o tempo que passou e o efeito “red shift” causado pela expansão do Universo, mas é verdade. Só que isso não faz diferença. infravermelho, visível, ultravioleta, raios-X, tudo isso é luz.

  5. Eu não sei bem, mas suponho que esta alegada “fotografia” nem sequer foi tirada em comprimentos de onda visíveis aos nossos olhos, pelo que, as cores que nós vemos na “fotografia” são todas manipuladas, isto é, inventadas. Sendo assim, a beleza da fotografia é totalmente artificial. Houve mãos humanas que escolheram as cores que atribuíram a diversos “objetos” na “fotografia” por forma a que o conjunto ficasse bonito.
    Ou estou a ver mal a coisa?

    1. Mais ou menos correcto. A fotografia foi tirada em comprimentos de onda do infravermelho. Isto porque a luz que viajou dessas galáxias distantes passou por um Universo em expansão e como tal sofreu o que se chama efeito “red shift” (lamento, não conheço o termo técnico português). Isso faz com que chegue aqui nos comprimentos de onda de infravermelhos. No entanto, o que saiu de lá é luz (visível, infravermelho, ultravioleta, tudo isso é luz) e muita dela é visível (por isso é que o Hubble também era capaz de tirar a fotografia, apenas veria menos nela).
      Só que o que acontece depois é que os instrumentos podem analisar a fotografia e determinar os comprimentos de onda que foram bloqueados quando a luz passou pelos diferentes objectos. Isso ajuda a determinar a cor que os mesmos objectos teriam. Por isso é possível reproduzir a fotografia como se ela tivesse sido tirada com uma câmara normal.

      Seria talvez semelhante a alguém reproduzir um som fora do nosso espectro auditivo. Se alguém o captasse e depois manipulasse, poderia fazê-lo audível para nós. O mesmo se alguém falasse 300 vezes mais depressa que nós. Poderíamos tentar gravar um discurso a essa velocidade e depois ouvi-lo. Ou seja, a informação está lá. Nós, seres humanos, é que somo demasiado limitados para a entender, por isso usamos métodos para o conseguir.

      1. > “red shift” (lamento, não conheço o termo técnico português)

        Às vezes um bom truque é saltar do artigo inglês da wikipédia para o português: https://pt.wikipedia.org/wiki/Desvio_para_o_vermelho

        Pode sair algo abrasileirado, mas pronto

        Já agora, peço desculpa de ter reclamado de um pormenor sem começar por agradecer o esforço posto num artigo agradável. “Mea culpa”.

  6. João, já é uma espécie de estribilho este comentário que vou fazer: como adoro ler os teus textos! Porque trazem temas que são pouco difundidos e sabes escrevê-los de forma acessível a qualquer leigo como eu e com paixão. Pena não escreveres mais 🙂

    1. Obrigado Teresa, como sempre

      Infelizmente a disponibilidade leva-me a não escrever muito (nem sempre devido a tempo).

      Mas conto ainda escrever mais sobre este tema. Só não o anunciei no post porque não quero estar em falha se acabar por não o fazer.

  7. Gostei de ler. Bela explicação. De facto o assunto foi referido nos media quase de raspão e, quase como um foguete, foi absorvido pela espuma dos títulos das notícias bombásticas.
    Este episódio da “História do dia” na Rádio Observador trata também da publicação e explicação destas fotos. Estamos realmente perante algo sublime, de uma dimensão cientifica que ultrapassa o nosso entendimento. É maravilhoso.

    1. Confesso que nem sei qual o destaque que se lhe deu nos meios de comunicação (ultimamente leio pouco deles, fico-me pela The Economist, quase), mas eu esperava esta há muito.

  8. Mais do que a beleza cénica das imagens, que é enorme, pensar nos milhões de anos que têm aqueles astros (assim como a infinitude) provoca uma vertigem que origina aquela frase tão batida nestas ocasiões”somos tão pequenos”.

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