A Literary Review deu justa fama aos Bad Sex in Fiction Awards, que testam anualmente a benevolência dos notáveis — em 2010 Jonathan Franzen integrava a shortlist, e em 2009 o prémio foi concedido a Jonathan Littell. Não sei se algum deles reconheceu com brio a ambígua distinção.
Até hoje não vi explicado porque é que os bons escritores enchem parágrafos atrás de parágrafos com falos erectos e entumescidos. Arrisco pensar que talvez os homens se concentrem demais na mecânica do acto sexual. Ou talvez o seu talento seja perturbado por uma rejeição ansiosa da pornografia. Ou então existe uma incompatibilidade entre os centros nervosos responsáveis pela estética e os que se encarregam de desembaraçar a líbido.
Agora, por um motivo desconhecido, pensei noutra coisa: que o mau sexo, na literatura, provém de um conhecimento prático mas irreflectido do desejo. Qualquer palerma se deixa seduzir por uma adolescente de mamas grandes, e nenhuma cabeleireira resiste a um macho alfa com boa estrutura óssea. Mas Anita Brookner descreve-nos, num dos seus livros, uma mulher que olha para o espelho e se espanta por ter ainda admiradores. A imagem que ela vê é a de um corpo desmaiado, que ficaria melhor numa revista de medicina do que num boudoir. Eppur si muove.
Ou seja, o que falta à má literatura sobre sexo não é estilo, é insight e reflexão.

Basta isto “adolescente de mamas grandes” (ler, não é ver), para ficar tolo.
Não — não me parece que você precisasse disso para ficar tolo.
Em cheio.
Para não nos fixarmos sempre nas obras norte-americanas alguém poderia dar-se ao trabalho de fazer o mesmo na literatura cá do quintal. Nessa antologia não poderia faltar a célebre expressão “espingarda de carne”, popularizada por uma notável romancista portuguesa.
E, naturalmente, a cena da sopa de peixe.
Pergunto-me se haveria material suficiente. Enfim, com o Brasil talvez — mas o Brasil tem exemplos de bom sexo, como se bem me lembro “A Casa dos Budas Ditosos”. que já li há anos demais para poder avaliar com alguma qualidade.
Pedro, a “espingarda de carne” não é do Ary? Seja lá quem for é uma expressão horrorosa, caramba.
E há também aquele trecho imortal das letras pátrias assinado por um vulto literário que vende livros como quem vende pastéis de Belém.
Deixo aqui o referido trecho, a que o João já tinha feito uma alusão, com a devida e despudorada vénia ao notável romancista que o concebeu:
«Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas.»
Tomás quase se engasgou com a sopa.
«Como?»
«Quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas», repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo. Colocou a mão no seio esquerdo e espremeu-o de modo tal que o mamilo espreitou pela borda do decote. «Gostava de provar?»
Tomás sentiu uma erecção gigantesca a formar-se-lhe nas calças. Incapaz de proferir uma palavra e com a garganta subitamente seca, fez que sim com a cabeça. Lena tirou todo o seio esquerdo para fora do decote de seda azul (…). A sueca ergueu-se e aproximou-se do professor; em pé, ao lado dele, encostou-lhe o seio à boca. Tomás não resistiu. Abraçou-a pela cintura e começou a chupar-lhe o mamilo saliente.
Por essas e por outras é que o Colombo fugiu daqui e foi oferecer-se aos reis católicos…
E segue mais este, de outro romancista pátrio. Com menos talento para vender papel impresso mas maior aplauso crítico.
Também com a devida vénia e sem mais comentários. A prosa fala por si…
«Vista de trás, Marta era tão fêmea quanto outrora as cadelas nas ruas proibidas dos Açores, com seu ânus cinzento, o búzio puberino fendido ao meio e de cheiro muito ácido, as pétalas magníficas daquela mesma corola que os bois da infância lambiam e cheiravam antes de nela se perderem. Então era irresístivel a tentação de ser o cão e o boi daquela fêmea terrivelmente seduzida, que apesar de tudo esperava e se mantinha submissa escutando os longínquos segredos do seu homem. O ceptro dele sondava-lhe o ânus devagar, numa discreta e sensível fricção, e Marta fechava os olhos, suspirava, enchia-se dos humores suplicantes de todas as fêmeas quando prontas e abertas à penetração do macho.»
Cruzes! Acho que nunca li isso.
Quem é quem é quem é?
Eh lá!!! Zoofolia?
Estes recursos descritivos lembram-me aquelas pessoas que na ausência de outros dotes de escrita lavram 3 asneiredos grossos por cada 10 palavras… E a noção que têm de escrita forte.
Esta aqui também não deve ter outra maneira de captar a essência do erótico. Os brutos fazem sempre imenso barulho 🙂
Disseram-me que era da Lídia Jorge.
é a autora da “espingarda de carne” (salvo seja)
Sim, eu sei que ela a usou. Mas acho que já vem do Ary, e nele tinha outro “peso”. Em todo o caso, é medonha.
Esta tua reflexão é que é boa, Luís. Sabes bem que qualquer bom sexo pode resultar mau em literatura. É necessário um difícil equilíbrio entre o léxico e a técnica narrativa. E na escolha do léxico e na escolha da técnica. (Narrativa, claro) João Ubaldo Ribeiro é um bom exemplo de como é possível.
Pierre, João: já agora, não esquecer alguns devaneios aquáticos 🙂
Devaneios aquáticos? Caramba, ninguém me conta nada.
Agora, essa história da escolha do léxico e da técnica faz-me lembrar alguns momentos hã, perturbadores, da minha estouvada juventude.
Ó Luís, tu costumas ser mais directo! (ora eis uma técnica que também dá umas cruentas passagens, ao melhor estilo Henry Miller…)
Mas eu falava era do post: porque é não disseste logo que o mau sexo era o do Miguel Sousa Tavares?
Literário, claro.
LOL! Acreditas que nunca li o homem?
Ainda estou a rir…
LOOOL. Laura, sabes que pensei logo no Equador quando li o post? Acho que leva a taça!
É muito difícil escrever bem sobre sexo (ia dizer “com elegância”, mas não é condição necessária – e muito menos suficiente – neste tema). Ou sobra crueza, ou falta naturalidade. Ou a escrita escorrega para a pornografia pura e simples, ou se perde em floreados púdicos mais do que dispensáveis. Como vocês já disseram, o João Ubaldo é a prova de que é possível. Mas acho que não há uma fórmula. Seria muito simplista dizer que que só pode escreve bem sobre sexo quem o souber fazer bem. Não me parece que seja assim, a fantasia é um motor fortíssimo na literatura. E há um género literário que consegue dar bem conta do recado: a poesia.
Fazer bem sexo talvez nem ajude, porque é preciso tempo para ler e escrever. Essas coisas exigem muita prática. É um pouco como o dilema da mulher que quer ser boa no quarto e na cozinha, digo eu desinspirando-me (outro neologismo, Pedro) num clássico da literatura doméstica.
Ora, tretas. Nada disso é incompatível, há tempo para tudo. E quem foi que disse que a cozinha não é um bom cenário para várias actividades criativas?
Há que fazer esse dicionário. Proponho que se chame Delituário.
Tenho a impressão de que a receita da boa escrita sobre sexo é “simples”… Basta convocar tudo o que o precede e depois também tudo o que o envolve, e que é não sexual. Se tudo isso for bem descrito, será tal e qual como na vida: e dará em bom ou mau sexo 🙂
E achas isso “simples”? 🙂
Não, claro 🙂 Acho é que a boa cena sexual (escrita) tem de ser oferecida ao leitor com todos os matadores, tão reais como na vida. Será quase como se ele- leitor – sofresse na pele tudo o que concorre para o climax. Porque nada disso é descartável, tal como a descrição da consumação, em si, não tem ponta de interesse se for isolada do resto. Digo eu.
Luís: podes crer que a literatura portuguesa é um filão quase inesgostável nessa matéria. Desde logo em poesia – do Bocage ao E. M. de Melo e Castro.
Sem esquecer muitos versos de Maria Teresa Horta. Como estes: «Os anjos descobrem
/ a vulva / no mesmo instante // em que sabem
do pénis.»
Verifico agora que escrevi ‘inesgostável’. Vou registar patente deste neologismo, tão apropriado ao contexto. É assim que a língua portuguesa levanta voo.
LOL. Podíamos fazer um dicionário, provavelmente esgostável, com coisas assim.
Ah… mas a Maria Teresa Horta é bem outra coisa. Tem poemas lindos.