Há quase dois anos, António José Seguro inventou o conceito de «abstenção violenta». Hoje, ao abandonarem o hemiciclo logo após serem derrotados na votação da moção de censura apresentada pelo satélite artificial do PC e antes de Assunção Esteves ter dado por encerrada a sessão, os deputados socialistas socráticos revelaram um (inesperadíssimo) mau perder ou então o mais profundo desagrado por Seguro não ter ido mais longe do que o simples voto contra, optando, sei lá, por um «voto contra violento». Com berros e arremessamento de objectos, talvez, à imagem do cidadão que resolveu atirar uma sandália das galerias.
Numa época em que o Parlamento é alvo de críticas diárias (muitas das quais perigosamente demagógicas), convinha esta gente perceber que actos como o de hoje desrespeitam o próprio cargo que exercem e que quem não se dá ao respeito não merece ser respeitado.

Podia até ter dado tiros que isso não suscitaria metade da indignação provocada pela frase – infeliz – de Assunção Esteves sobre os “carrascos da democracia”.
Como o pessoal de esquerda, ao contrário do de direita, tem sempre boas intenções, os seus actos nunca provocam indignação, apenas – muito ocasionalmente – alguma estranheza.