Um teste à liderança de Seguro


Pedro Correia,

Mário Soares governou duas vezes aliado com partidos à direita do PS. Enquanto foi primeiro-ministro, viu Portugal sob intervenção do Fundo Monetário Internacional nessas duas vezes: a primeira originou aliás um célebre disco de José Mário Branco, intitulado FMI. Em 2011, segundo ele próprio admitiu, teve uma intervenção decisiva junto de José Sócrates para que o Governo socialista solicitasse uma intervenção externa de emergência destinada a salvar as malogradas finanças nacionais. Lá veio o FMI pela terceira vez a Lisboa, desta vez partilhando a tutela do resgate com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.

Este extenso currículo, espantosamente, não inibe agora o fundador do PS de alertar António José Seguro contra o risco de “uma cisão” no partido caso o secretário-geral socialista estabeleça um acordo com o PSD e o CDS. Com uma sobranceria que nenhum notável do PS lhe transmitiu quando ele se entendeu em 1977 com o CDS de Diogo Freitas do Amaral e em 1983 com o PSD de Carlos Mota Pinto.

Soares nunca resistiu à tentação de condicionar as lideranças de todos os secretários-gerais que lhe sucederam no Largo do Rato – de Vítor Constâncio a Sócrates. A deselegante ameaça que hoje deixou no ar constitui um excelente teste para Seguro. Este só pode agradecer-lhe a oportunidade que o fundador do partido acaba de lhe proporcionar para demonstrar a sua efectiva capacidade de liderança.

4 comentários em “Um teste à liderança de Seguro”

  1. Também não entendi essa declaração sobre um cisma no PS. Penso que foi pouco elegante, e acima de tudo fez passar o actual líder por pau-mandado.
    Não acredito que Seguro estabeleça algum acordo sólido com este governo a prazo, e creio que todos no PS também não acreditam. E se não acreditavam, agora acreditam muito menos, até por causa das declarações da nova ministra das finanças que afirma que a política será de continuidade. Ela lá sabe o que diz, mas duvido que saiba o que faz. Quem fala assim não tem a mínima noção sobre economia e tampouco sobre finanças, para além daquela que decorre da aprendizagem obsoleta nos meios académicos, e da convivência com Schauble e Gaspar, que lá vai permitindo dizer que há swaps bons e outros mauzitos, mas que juntos nem são maus, sendo que a maldade é evidente naqueles feito por outros; entendido?. Também não é para entender.
    O PSD tenta a todo o custo driblar o inevitável. E o inevitável é um resgate com outro nome e a mudança da política suicida em que mergulhou o país para poder dizer ser melhor que Sócrates e Teixeira a fazer isto mesmo.
    A demissão de Gaspar, após a leitura da sua carta, nada teve que ver com questões ligadas à coesão da coligação, mas simplesmente ao facto de ter verificado a impossibilidade de inverter o rumo da depressão, e de outro resgate.
    Voltando ao tema, Soares disse o que disse sem pensar que o PS tem um líder saído das bases e eleito pelas bases. Mas também o disse porque a intervenção a que hoje nos vemos submetidos em tudo ultrapassa o que é razoável. No seu tempo não existia uma Alemanha desesperada em esconder os resultados dos seus bancos federais, assim como a exposição dos mesmos, que tudo faz para transportar a sua culpa para cima de outros também culpados.
    Senhora Merkel, deixe que o BCE tome rédeas nas contas dos bancos alemães, e diga a estes seus mordomos que a sua política não passa de uma manobra de diversão, juntamente com alguns franceses. Por isto mesmo Hollande pia baixinho, mas grosso no que diz respeito à França.

  2. E os apelos e movimentações e iniciativas (e etc) para a criação de um VERDADEIRO PARTIDO SOCIALISTA datam do tempo dele, e ele sabe-o muito bem e porquê, é apenas o político mais politicão (no sentido de sem-vergonha) dos últimos 40 anos, e com grande avanço.

  3. Caro Pedro Correia,

    Por versarem o mesmo tema, permito-me escrever praticamente a mesma coisa que escrevi num comentário no blogue Fio de Prumo.

    Como diria o outro, ‘o diabo está nos pormenores’.

    Convenhamos que a estatura política e a competência dos parceiros de coligação do tempo que refere eram bem diferentes das actuais.

    Convenhamos também que poderíamos ter tido apoio externo e tê-lo gerido com inteligência (como aconteceu nas vezes anteriores) e não com pacóvia subserviência (como acontece agora).

    Temos que saber escolher com quem nos comprometemos e temos que gerir com inteligência e responsabilidade os compromissos que assumimos.

    Na actual conjuntura, face aos agentes políticos que estão no terreno, vejo muito difícil que seja possível fazer um acordo sério.

    Falo agora por mim: se eu estivesse na política alguma vez eu era capaz de fazer um acordo com o Passos Coelho? Nem pensar. A criatura não tem uma linha de raciocínio com lógica, não tem sensibilidade social, não tem tino político, não sabe sequer fazer contas… e mesmo para falar mostra sérias dificuldades.

    Ou seja, se o Soares é um velho do Restelo que o seja, mas, a dormir, tem mais argúcia política, mais amor ao País e mais bom senso social do que mil Passos Coelhos acordados.

    A ver vamos no que isto dá mas, a menos que haja num milagre, não vejo como este romance possa acabar bem.

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