Esse supremo luxo


fiodeprumo,

Hoje tive saudades. De quê, perguntarão. De um tempo lá muito para trás, em que eu era pequenina.

Não sou saudosista, tenho-o dito imensas vezes. O passado, bom ou mau, ficou arrumado e só muito raramente volta à superfície.

Mas esta tarde, o cheiro da alfazema lembrou-me a casa dos meus avôs maternos e a imensa ternura que sempre recebi deles. Era uma casa sem luxos, mas cheia de amor e de alegria.
No começo do verão as roupas eram postas a arejar e arrumadas de novo entre saquinhos de alfazema que as perfumavam até serem usadas. E quando as camas eram feitas de lavado, aquele odor de campo enchia os nossos pulmões. Foi essa acalmia, essa bonomia de um tempo que apenas se desenrolava entre cheiros e risos despreocupados que, de repente, recordei. 

Tenho alguma pena que essa forma de vida já não exista e que, ao contrário, a crispação e a agressão verbal sejam o nosso quotidiano. Agora a voracidade da vida é tal que já nem sequer sabemos o que é esse supremo luxo de perder tempo…

9 comentários em “Esse supremo luxo”

  1. a nossa memória tem recantos que nem suspeitamos. por vezes basta isso mesmo, Helena: um simples odor que nos traz lembranças em cascata. há muitas memórias suscitadas pelo olfacto, como bem referes nesta tua bonita crónica.

  2. Parabéns por este texto. Ele fez-me recuar à infância e à casa de meus avós paternos. Sim, esse cheiro que as senhoras usavam para proteger as roupas, que eu nem sabia que era de alfazema (afinal homem não entende nada disto). Mas o cheiro que nunca saiu destas narinas é o daquele café coado todas as manhãs, lá longe onde o sol castiga mais. Nas minhas férias, ainda na cama (por volta das 6H00 da manhã), era sempre o primeiro a cumprimentar-me, refiro-me ao cheiro do café. E que cheiro, aquela mistura de arábicas com chicória e cevada! Um miúdo, ou uma miúda, nunca se esquece destes pormenores. Ainda que não me permitissem beber o café sem o leitinho vindo directamente da tetinha da vaquita e pasteurizado em casa. Ao fim de tanto tempo, há coisa de um ano, lá consegui encontrar um lote de arábicas de São Tomé (Monte) que permite fazer a combinação que mais se aproxima do meu imaginário. E bebo black, isto é, sem leite. Agora ninguém me impede, pois já sou crescidito. E se não fosse, e me impedissem, ligava para a linha da criança e instaurava um processo à família, por maus tratos! Estas modernices não existiam naquele tempo.
    Mas hoje ainda rio, e quero rir até morrer, e mais ainda neste momento de aflição que vivemos. Viva o café e a alfazema, e os meu avós, em particular a avó que tanto nos amou!

  3. A memória é selectiva, essa frase “Foi essa acalmia, essa bonomia de um tempo que apenas se desenrolava entre cheiros e risos despreocupados que, de repente, recordei.” evoca um paraíso perdido que provavelmente não seria tão paradisíaco assim, embora contivesse aspectos positivos que merecem ser recordados. E quanto ao supremo luxo de “perder tempo” eu diria que se trata de uma questão de valores e de prioridades. O tempo é nosso, é a nossa vida e temos o direito e o dever de o gastar como considerarmos mais adequado. A sociedade poderá condicionar parte mas nunca o todo. Gastar tempo como nos aprouver é um direito inalienável, a negação disto é a escravatura.

  4. Os cheiros são das coisas que mais perduram no tempo. Quantas vezes sinto o aroma de qualquer coisa, que nem sei bem o que é e que me remete para esse tempo já longínquo. O cheiro do pão acabadinho de sair do forno é algo que jamais esquecerei!
    E tenho saudades! Muitas saudades…
    Mas ainda bem que as tenho…
    Bem-haja por me fazer recordar!

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