Livros que deixei a meio (5)


Pedro Correia,

 

A MONTANHA MÁGICA

de Thomas Mann

 

Há cerca de cem anos, parecia indestrutível a relação entre a tuberculose e a literatura. Muitos livros eram passados ou inspirados em termas e sanatórios, mas nenhum deles tão célebre como A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Concebido nos tempos imediatamente precedentes da I Guerra Mundial, quando todos os sonhos de progresso e optimismo pareciam condenados ao malogro, este é um dos primeiros romances assumidamente de tese, precursor da receita a que décadas mais tarde Sartre daria corpo em livros que usavam a ficção como pretexto para a especulação filosófica (a propósito, A Náusea passará por cá um destes dias).

Thomas Mann, mais tarde galardoado com o Nobel da Literatura, foi pioneiro na fixação da temática da doença como poderosa metáfora de um mundo em decomposição, o que viria a tornar-se ainda mais patente em 1947, quando surgiu A Peste, de Albert Camus, e em 1995, ano em que José Saramago lançou o seu Ensaio sobre a Cegueira.

Fórmula inovadora e sugestiva posta em prática nesta saga de Hans Castorp, internado em Davos por estar apenas levemente contagiado com o bacilo da tuberculose. Mas o sanatório acaba afinal por ser um símbolo de um universo concentracionário onde toda a esperança se revelava uma miragem destituída de sentido.

 

Li com gosto as primeiras 300 páginas deste extenso romance que sempre me foi apresentado como uma das obras-primas da literatura. Mas há livros assim, que são tremendamente egoístas: exigem dedicação exclusiva, impõem uma relação de tudo-ou-nada.

Falhei. Interpuseram-se outros afazeres, intervalaram-se outras leituras, a minha relação com esta obra tão exigente quebrou-se. Mandei-a repousar na estante.

Era um fim de Verão, só voltámos a ter contacto no Verão seguinte. Para tudo recomeçar da página um e tudo terminar mais ou menos no mesmo ponto da obra, com Hans Castorp já confinado às paredes do sanatório.

 

 

Não me conformei. E no Verão seguinte lá retornei à Montanha Mágica, relendo as páginas iniciais passadas na buliçosa cidade de Hamburgo naqueles anos em que nenhuma guerra mundial havia ainda manchado a face da terra.

A vontade de chegar ao fim era tanta que nessas férias, ao contrário do que é meu hábito, não incluí mais nenhum livro na bagagem.

Deu resultado: foram dias a fio ao sol de Tavira em convívio íntimo com as neves perpétuas dos Alpes suíços. Muitas páginas, muitos parágrafos, muitas palavras. Isso mesmo: muitas palavras. Mann não poupou palavras neste ensaio travestido de romance. Desconhecia por completo a técnica de Hemingway: um texto de ficção, para ser eficaz, deve sugerir muito mais do que relata. Aqui é ao contrário: relata-se tudo, sugere-se pouco.

 

Seiscentas e tal páginas. E, de súbito, fartei-me. Fechei o livro e parei de vez.

Estava há mais de cem páginas no mesmo capítulo, estava há mais de 30 páginas a seguir o mesmo diálogo entre Hans Castorp (sempre mencionado desta forma, com nome e apelido) e o sr. Settembrini, sempre a mesma dialéctica entre o agir e o não-agir, sempre a mesma torrente de palavras.

Cansei-me irremediavelmente, quando faltavam cerca de cem páginas para chegar ao fim, nesta minha terceira tentativa falhada de ler A Montanha Mágica (numa tradução nada brilhante encomendada pela editora Livros do Brasil).

Costumo dizer para mim próprio – e garanto-vos que é verdade – que não deixo livro por ler quando me faltam apenas cem páginas. Mas toda a regra tem excepção. E a excepção, até hoje, chamou-se Montanha Mágica.

 

Isto sucedeu há cinco anos. Desde então, tenho feito progressos: li mais 40 páginas. Sempre com a sensação de nunca passar do mesmo sítio.

Falta tão pouco que é seguro dizer que um dia acabarei por chegar ao fim do romance de Mann. Mas isso jamais poderia suceder antes de figurar nesta série. Por demérito próprio. Não me lembro de nenhum outro livro que me tenha dado tanta luta e provocado tanto tédio.

30 comentários em “Livros que deixei a meio (5)”

  1. Vale a pena insistir. Prometo que daqui a pouco, quando Hans se perder na neve, terá valido a pena ter lido com esforço todos os longos debates entre Settembrini e Naphta.

    (eu era muito nova quando o li, pelo que espero ansiosamente o Verão da segunda leitura)

  2. Essa é uma montanha difícil de subir. 🙂

    Para mim há livros que são de Inverno e outros que são de Verão, pela natureza desse livro, que fala do sofrimento, talvez, seja melhor lê-lo durante as noites invernosas, com um bom chá e bolachas com doce (neste momento tenho ao lume o doce de abóbora, que vai ser para a sobremesa do jantar, com requeijão :)).

    Boa semana

    1. É verdade, Alice. Há mesmo autores de Inverno e autores de Verão. Faulkner, por exemplo, é autor de Verão – a sua obra transborda de calor atmosférico e a temperatura ambiente justifica até algumas acções dos protagonistas. Já uma obra-prima do romance do século XX como ‘Um Dia na Vida de Ivan Denisovich’ deve ser lida no Inverno. Só assim conseguimos sentir bem aquilo que estamos a ler.

  3. Aconteceu-me o mesmo com a Condição Humana, de Malraux. Tentei ler aquela estucha duas ou três vezes e não consegui. Nem um comuna dos quatro costados deve ter pachorra para aquilo. É um livro muito, muito, muito chato: gostava de o atirar a alguém. A um defensor do AO, por exemplo. Quando vir o Lavoura na rua, atiro-lhe com a Condição Humana.

    1. Não são armas de arremesso comparáveis, Vasco. ‘A Montanha Mágica’, com as suas 749 páginas, é um instrumento muito mais letal do que ‘A Condição Humana’, com apenas 254 páginas.

  4. Há livros e escritores que me marcaram, Mann e a Montanha Mágica estão neste campo e gostei da tradução da Dom Quixote.
    Aquele mundo deitado que se degrada e se amesquinha, tal como os dentes dos Buddenbrooks, fazem parte dos universos literários que mais gostei e aos quais mais me entreguei e que nunca me esquecerei… (abro a exceção com a possibilidade de degenerescência do meu cérebro).
    Uma coisa concordo, Hemingway não necessitava de dizer tudo, para o percebermos e Mann não se furtava a repetir o que já tínhamos percebido.
    Já agora, Náusea, sem dúvida outro pequeno grande livro que gostei…
    Mas também o mundo teria perdido grandes escritores se os gostos dos leitores não formassem um universo vastíssimo.

    1. Sempre achei que os gostos se discutem, Carlos. Foi também por isso que iniciei esta série: para comparar os meus gostos com os dos leitores. A verdade é que o mundo seria uma imensa maçada se todos gostássemos do mesmo.

  5. As páginas de quando Hans se perde na neve são memoráveis. Depois aquela repetição exaustiva de como embrulhar bem o cobertor para se deitar na varanda, é genial.
    Não é um livro fácil e por vezes é entediante. Mas merece o esforço.
    Tenho para mim que há momentos certos para se ler isto ou aquilo. Não sei explicar. Lembro-me que era incapaz de ler o livro de Job (da Bíblia), e é uma linha comparado com a Montanha Mágica, até que um dia consegui e fascinou-me. Depois, nem sempre entendo esse fascínio. Vá-se lá perceber porquê.

    1. O Livro de Job (que já li duas vezes e tenciono reler não sei quantas mais) é muito mais sucinto, caro Xico. E julgo que se extrai mais sabedoria dele do que da ‘Montanha Mágica’.

  6. Sinto-me profundamente compreendida neste texto. É uma presunção, sei-o bem.
    Mas “A montanha mágica” partilha com “O jogo das contas de vidro” o condão de ser entediante demais. E o defeito até pode ser meu. Ou talvez não.
    Consegui acabar este. Mas não me acrescentou nada, não senti nada quando terminei o livro, não me deu saudades ou transportou para imaginário nenhum. Terminei-o por exercício de vergonha. Sempre é Thomas Mann. Quanto a “O jogo das contas de vidro”, sempre será Hermann Hesse, mas ainda não chegou o momento.

    1. Também acabarei por chegar ao fim deste, sabe-se lá quando, por “exercício de vergonha”, para usar a sua expressão, que peço emprestada. Mas cada vez mais a leitura, para mim, não pode dissociar-se do prazer de ler. De qualquer modo, quando não consigo retirar qualquer prazer da leitura, parto sempre do princípio que o defeito será meu até prova em contrário. Não foi o caso, porque dei três oportunidades ao livro – e em todas elas cheguei sempre à mesma (e fatal) conclusão.

  7. Curiosamente, aconteceu-me coisa muito parecida. Era um dos “grandes” livros que ainda não tinha lido em 2006/7 e alguém me deu um exemplar muito usado (nem foi exactamente dado, troquei-o por um exemplar repetido da nova tradução da Eneida por diversos Professores da Faculdade de Letras da UCL). Ficou com o marcador na página 330. Fui dando várias desculpas para não continuar a leitura e só agora, ao ler o Pedro, cheguei a perceber por que razão terei de facto parado a leitura. Obrigado por partilhar. 🙂

    1. Eu ainda consegui, à terceira tentativa, ler o dobro disso. Mas as últimas 200 páginas já foram de leitura muito penosa. Penso que faltou a Thomas Mann, nesta obra, um editor com forte costela ditatorial que lhe reduzisse para metade a dimensão do livro. Esses editores contribuíram para a génese de muita obra-prima de escritores incapazes de cortar texto.

  8. A Montanha Mágica é um dos meus livros favoritos. Sempre me entusiasmou a dimensão cultural do autor que foi capaz de plasmar nesta obra projeções metafisicas de interesse assinalável. Ademais, a construção das personagens é um trabalho perfeito e nem tudo está escrito, há muito que encontrar nas entrelinhas. O mesmo se diga de um outro livro referido nos comentários, O Jogo das Contas de Vidro, também ele verdadeiramente excepcional.

    1. Como já referi anteriormente, foi também para confrontarmos estas experiências tão diferentes perante uma determinada obra que decidi lançar esta série. Porque a obra nunca é indiferente ao nosso olhar. E o nosso olhar nunca é indiferente a mil circunstâncias – de idade, de lugar, de momento, de disponibilidade, de atenção, de persistência, de preconceito, de motivação.

      1. Caro Pedro,

        Estou de acordo consigo. Escrever publicamente – sobre qualquer coisa, o que inclui os livros – é a aceitar a diferença de opinião. E que coisa melhor existe do que a diferença?

        1. Sim, Filipe. Mas sem abdicar da oportunidade de persuadir os outros, o que constitui o complemento natural e ainda mais estimulante das desejáveis e saudáveis diferenças.

  9. Pergunto-me porque insistes. Não te conhecia essa vocação de Sísifo… 🙂

    Nos livros o “exercício da vergonha” não me assiste, como diria o outro. Se não me apaixona, não leio. E cada vez isso me acontece mais. Garanto-te que não tenho o mais pequeno remorso, com tanta leitura que ainda me falta.

    1. É um pouco sobre isso também que falo nesta série, Ana. Tenho estado a recapitular e lembro-me de muitos mais livros que deixei a meio do que tinha pensado à partida. Darei nota disso semana após semana.

  10. Amigo,
    Estou lendo seu artigo hoje, 24 de maio de 2018. Fiquei curioso.

    Passados cinco anos, após aqueles cinco primeiros, conseguiu terminar a leitura?

    A obra ainda lhe parece chata e cansativa?

    Cordiais saudações do amigo brasileiro,

    Paulo Marcos de Almeida

    1. É curioso que me faça essa pergunta, Paulo.
      Sim, já consegui terminar a leitura.
      Foi difícil, mas cheguei ao fim.

      É um livro que devia ter metade do tamanho. Não perderia nada, antes pelo contrário.

      Saudações retribuídas, com gosto.

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