Devia já ter abordado este tema. Mas no que respeita a fogos, tenho um traumatismo que me bloqueia se me não impuser a mim própria. Explico-me.
Deveria ter uns dez anos, quando a casa paterna, em plena Baixa lisboeta, foi repasto de um curto circuito, na ausência de todos nós. A imagem do retorno a uma habitação negra de fumo e muito destruída acompanhou-me durante anos e condicionou, em muito, o meu desejo de viajar.
Já mulher e acabada de divorciar – felizmente os meus filhos estavam no Alentejo -, uma empregada minha resolveu reforçar o aquecedor, aceso, do seu quarto, com petróleo. Não vos descrevo o sangue frio que tive, para isolar a dispensa, onde se guardavam duas bilhas de gaz. Perdi todo o meu enxoval, toda a roupa pessoal e parte significativa do mobiliário.
No dia seguinte tinha o exame médico de admissão no Banco de Portugal, onde apareci de kilt e meias de lã, que era a roupa que trazia no corpo. Valeu-me a compreensão imensa do médico que estranhou a minha tensão arterial elevada e me perguntou se, na véspera, tivera alguma emoção ou comera algo salgado. Abençoado seja pela qualidade humana então manifestada.
Parti do zero. Em tudo. Na vida afectiva perdera o marido, na vida doméstica perdera o recheio da casa, na vida profissional começava uma rota inteiramente nova. E os filhos, pequenos, choravam os brinquedos desfeitos. Sobrevivi, mas o temor das chamas permaneceu para toda a vida. Muito mais forte.
Chego ao que, agora, interessa. O abnegado trabalho dos bombeiros e a indesculpável incúria, pública e privada, na limpeza dos matagais. Este ano já perdemos três seres humanos, um deles uma mulher. Acredito que a maioria dos pirómanos seja doente. Mas sei que há os que trabalham por conta de outrem, a quem muito convém o solo ardido. Para estes, a justiça deveria ser exemplar. E para os que não limpam as suas matas, também.
Saiba, ao menos, o governo ser justo a recompensar aqueles que ficaram sem os seus entes queridos!


Uma visão um pouco mais proactiva nesta matéria:
http://www.publico.pt/ecosfera/noticia/t u-e-eu-e-que-gerimos-os-fogos-1603998
Cara Isabel
Será uma visão mais proactiva, como diz, mas confesso que tive alguma dificuldade em acompanhar o raciocínio do colunista, sobretudo a frase:
“…do que precisamos é escolher o que arde, quando arde e como arde, porque teremos sempre de conviver com o fogo…”.
Mas é capaz de ser defeito meu.
O Fogo é natural. O matagal é onde existe fauna e flora necessária.
Essa ideia de limpar mato não sobrevive a uma temporada no campo. Você acha possível limpar Portugal pelo menos 2 vezes por ano? Sabe que uns meros rebentos de planta/arbusto em 6 meses ficam da altura da cintura de uma pessoa?
Sei sim, porque já vivi no campo.
Mas se não prevenirmos – e há formas de o fazer, segundo os entendidos – haverá sempre madeireiros para quem o fogo é uma benesse. Ou teremos que encarar os fogos como naturais?!
Sim, parece que sim, nas nossas condições geográficas dizem os entendidos que sim (daí a importância de gerir o combustível, o que arde, como e quando). E dizem também que só 18% se devem a fogo posto (e deste só uma minoria por interesse económico, com quantias ridículas envolvidas, ou pelo menos é o que diz a PJ). Se calhar só quando deixarmos de ver um incendiário em cada incêndio é que vamos conseguir encontrar soluções aplicáveis…
Totalmente de acordo .
Como já escrevi noutro local , vejo isso pelo que me custa a mim ter sempre limpa uma área quase que diría ridículamente pequena .
Passado um mês está tudo outra vez quase a chegar aos nossos joelhos .
O problema é que o uso que existia ao mato e o incentivo à limpeza da floresta deixou de existir. Deixaram de existir juntas de bois e a ideia peregrina de centrais de biomassa (a giestas…) não passou disso, uma ideia peregrina e não exequível, como tantas outras que saem do Terreiro do Paço quando deveriam sair da Serra de Montemuro.
As floresta e a sua protecção deveria ser encarada como de facto é: bens privados mas com consequências públicas. Já existe (salvo erro) legislação no sentido da obrigatoriedade de zonas de corta-fogo junto das populações, mas quem é responsável e quem paga a sua manutenção? E vai-se obrigar os proprietários (dos que se conhece) a limpar as suas matas? Com que benefício e a que prejuízo para os mesmos?
Com florestação e urbanismo bem planeado não há necessidade de limpar todos os metrinhozinhos quadrados do País. Basta áreas tampão, espécies adequadas, caminhos e passagens limpos, as coisas bem organizadas. Mas isto é um povo que gosta de barracas, muros e chapas de zinco e portanto é tudo mais difícil. Os próprios bigodes…, perdão, Presidentes de/das Câmaras tratam tudo à pedrada quando lhes chega a ordem para organizar o território. O fogo não é natural (a não ser lá nas savanas), viu alguma trovoada no sítio dos fogos? O fogo é resultado do desuso em que caíram as florestas e se haviam muito menos antigamente é porque não havia um galhinho que não fosse aproveitado. Neste momento a única solução é áreas tampão (x em x metros há uma barreira de árvores mais resistentes e não monocultura). Além disso, pôr um cuzudos a correr serra acima e serra a baixo é uma luta inglória e por vezes acaba mal, como testemunhámos este ano.
“O fogo não é natural (a não ser lá nas savanas), viu alguma trovoada no sítio dos fogos? “
Tente pegar se conseguir mantê~la na mão numa pinha que está ao sol com 35ºC de temperatura da atmosfera.
Quanto ao resto não tem a noção do que é o campo.
Antes de Portugal começar a arder… Portugal não ardia !
Nasci em 1922, e depois, durante muitos anos, falava-se às vezes de “época balnear”, alusiva ao período estival, mas não se falava de “época dos incêndios florestais”, como agora se diz.
Em Portugal não havia incêndios florestas – ou, havendo-os, eram tão raros e de tão pequena extensão que não mereciam notícia.
Entretanto a Amazónia vai ardendo, há muitos anos, e outras regiões do Mundo ardem, aqui e acolá, suavemente ou com grande violência.
Portugal não dirá não à sua “época dos incêndios florestais” anual.
Fernando Marques Pinheiro.
Concordo consigo plenamente. Num país onde os incêndios são o pão nosso de cada dia no Verão, temos de fazer algo para preveni-los. Bastava pôr o exército a limpar matas e provavelmente teríamos um estio bem mais calmo e menos dispendioso e poupar-se-iam vidas.
Cara Helena (se me permite),
O problema do fogo nem sempre é o que se perde, mas o que fica. Ver as cinzas de uma vida e os suores calejados evaporados numa labareda dói mais do que nada sobrar e nada ter. Acabam, de ser forma, por ser uma memória da nossa condição passageira e da nossa impotência perante o divino (seja com “D” para crentes, como com “d” para descrentes). Como exclamou Cinq-Mars no cadafalso, “qu’est-ce que ce monde?”
Permito, sim senhor!
E digo-lhe que tem toda a razão. Aperta o coração ouvir e olhar aquelas gentes de tudo desapossadas.
Já agora… 2013N70639
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=P
Toca a assinar!
Dantes, Portugal ardia menos porque o interior rural estava povoado, as populações iam buscar lenha, canhotos, caruma, pinhas, tojo, paras as suas casas e o seu gado…
Hoje as populações, além de raras, são constituídas por idosos a quem faltam as forças para proceder a grandes limpezas e têm outras maneiras de cozinhar ou de se aquecer.
Depois, há muitas propriedades rurais que nem se sabe a quem pertencem: os herdeiros não vivem delas nem por ali, nem estiveram para se dar ao trabalho de regularizar as partilhas, fazer as escrituras…
Depois ainda, o Estado não trata das suas florestas, porque não é obra que possa mostrar com inaugurações pomposas, nem hoje em dia arranja com facilidade quem a queira fazer.
Enfim, melhoras melhoras só quando não houver mais nada para arder…
Nem mais!
O custo da Prevenção é incomensurável menor do que o do combate…
Tanto desempregado… tantos voluntários… tantos militares tomando banhos de sol na parada… tantos helicópteros da Força Área…. APROVEITEM-NOS na PREVENÇÃO!
Pois deviam, deviam. Mas parece que só nós é que somos inteligentes…
Inteiramente de acordo!
PERGUNTAS DA ZULMIRA
Passados anos de púdico recato, começou a falar-se de “madeireiros” com frequência, e a coisa chegou aos ouvidos de Zulmira, que me perguntou hoje “o que é isso de madeireiros”.
Respondi-lhe que a palavra é usada para designar os praticantes do negócio de compra e venda de arvoredo ardido. São intermediários.
“Compram a quem ?”, perguntou-me a Zulmira.
“Aos que possuíam esse arvoredo – respondi eu – e o viram arder em fogos que quase sempre são pavorosos, espetaculares e perigosíssimos.
Nova pergunta de Zulmira :
“Se arde tudo, o que é que os madeireiros compram para depois vender ?”
“Nunca arde tudo” – respondi eu. “Nessas zonas arborizadas ardem os arbustos e arde a folhagem do arvoredo de porte elevado, mas os troncos principais das grandes árvores, dos quais partem as ramagens, esses não são consumidos, resistem às labaredas, convertem-se em madeira utilizável.”
“Está-se mesmo a ver que quando uma mata arde os madeireiros acorrem à procura dos proprietários e oferecem-lhes dinheiro pelo que ficou e que aparentemente vale pouco” – a Zulmira começou assim a raciocinar em voz alta e depois perguntou-me:
“Quem é que compra aos madeireiros a madeira que eles compram aos antigos proprietários ?
“Não sei”, respondi eu.
Última pergunta de Zulmira:
“Os compradores finais, que compram a madeira aos madeireiros, compram-na para quê, o que é que fazem com ela ?”
“Não sei”, voltei eu a responder.
Fernando Maques Pinheiro
Boas questões, as da Zulmira. Gosto dela e do seu raciocínio.
Diga à Zulmira que há sempre gente interessada em comprar um produto vendido a baixíssimo preço. Uns toros vão para a construção que logo ali realiza lucro, outros vão lá para fora, outros para a indústria do papel, outros para as embalagens. Ela que não tenha preocupações, porque ao preço ardido há sempre gente a comprar e a lucrar…
A Zulmira leu este comentário, ficou a pensar com um ar feliz, e depois disse : “Aquiescência”. E continuou: “Aquiescência é uma palavra rara que remete para atitudes que em geral são pouco frequentes – como esta atitude de Helena Sacadura Cabral”.
Ó Fernando, já agora, diga à Zulmira que à aquiescência vai ter de juntar, também, muita paciência!
Mas é com Zulmiras que, aos poucos, o mundo se vai refazendo.
As coisas não são assim tão fáceis para os madeireiros…
Falo com conhecimento de causa, pois o meu pai, para além da sua “profissão semanal”, é também madeireiro ao fim de semana. Somos do concelho de Góis, de uma das aldeias afectadas pelo incêndio de Agosto. Posso dizer que o meu pai perdeu bastante, pois já tinha comprado alguns pinhais/eucaliptais… e a madeira queimada não tem o mesmo valor…
Já para não falar das horas terríveis que passamos com as chamas bem perto de nossas casas. E assim, em poucas horas, se foi a paisagem deslumbrante e ar puro que aqui se respirava.
Com isto, e com outras situações bem mais graves, como a morte de bombeiros a combater as chamas, tenho dificuldade em pensar que há alguém a beneficiar com incêndios florestais…
Não sei se ainda vou a tempo….
Vi nos telejornais de hoje:
Alguém diga ao senhor comandante dos Bombeiros de Amarante que, é de todo impróprio ir combater um incêndio fardado à militar: de camuflado!!!!
A guerra é outra!Nosso comandante!
Também vi. É evidente que, como o Solnado, se enganou na guerra…
Cara Helena,
o problema da propagação dos incêndios não tem a ver apenas com matas mal limpas ou sem aceiros. O lixo que as pessoas vão despejando criminosamente nessas terras são outrossim fontes de combustão rápida.
Sei do que falo… Porque também tenho alguns pinheiros… Imagina quanto gastei para limpar o pinhal? Mais de doze mil euros… E depois vendi alguns pinheiros para ajudar na despesa… Deram-me dez mil. O resto saiu directamente do meu bolso.
Concordo que não cabe ao Estado subsidiar tudo. Mas a prevenção começa em casa dos que nada têm e não se preocupam sequer onde vazar o lixo.
Já retirei do meu pinhal um pouco de tudo: máquinas de lavar, frigoríficos, televisões e todo o tipo de lixo inorgânico todavia poluente e combustível. E basta uma garrafa partida para dar início a um incêndio.
Desculpe-me a franqueza destas palavras.