História Viva – 25 de Abril: Golpe Militar ou Revolução?, de Franco Charais
Memória histórica
(edição Âncora, 2013)
4 comentários em “Sugestão: um livro por dia”
Não conheço o livro, e o título bate numa ambiguidade de designações, querendo talvez focar outra questão.
Golpe militar não creio que fosse, seria uma “ferida militar” que, por virtude da “ferida social” levou a um movimento evolucionário, algo genuíno. A parte revolucionária ocorreu com o gonçalvismo terminando no 25 de Novembro.
Revolução, tal como a revolução terrestre, implica um regresso ao ponto anterior. Ou seja, depois de um Inverno, regressa uma Primavera – prima vera, com novas primeiras verdades, que promete um Verão… verão promessas, mas no Outono caem as folhas escritas, prelúdio de novo Inverno. São assim as revoluções, repetem processos, mas não deixam de trazer novidades.
Sendo criança à altura, apenas recentemente notei que a canção infantil “Giroflé, Giroflá” antecipava afinal um “Cravo, Crava” na tradução francófona, que remontava a uma ópera bufa do Séc. XIX e a uma canção anti-fascista dos anos 30.
Os capitães receberam ordens, e estavam longe de ser os únicos a saberem do que se iria passar… há sinos nas igrejas e sininhos nas secretárias, que seguem as sinas pelos sinais. A grande obediência e pragmatismo nacional permitiu que não houvesse combates. Houve uma simples aritmética de vontades, contada primeiro desfavoravelmente na saída das Caldas, e depois recontada favoravelmente na saída de Santarém. As vontades de não agir foram mais determinantes que as vontades de agir. Não houve um Paiva Couceiro, e Salgueiro Maia nem teve que combater, como fez Machado Santos. O relevo militar de Salgueiro Maia em 1974 e de Machado Santos em 1910, teve quase o mesmo desprezo de reconhecimento oficial.
O que terá sido eventual surpresa foi a reacção popular, indisponibilidade de ser governado e uma pouca vontade em governar. As estruturas montadas não estariam preparadas para agir em desorganização generalizada. Foi preciso invocar o monstro soviético para repor vontades. Os comunistas estavam mais que dispostos a aparecer e simularam o monstro, conforme previsto. A reacção foi natural, pelas vias clássicas, daqueles que não aparecem tanto. Teve que chegar mesmo aos que se escondem e até mais longe. Tudo muito subtil, teve toque de grande mestria. Coisas que não se viram nas praças árabes, com primaveras muito invernosas.
Depois dessa primavera, e desse verão, chegou logo o outono das folhas que caíram, e entrámos demasiado rápido numa nova invernia… Caídas todas as folhas, nem há rebentos de panfletos para nova sociedade, que era suposto redundar numa outra versão da mesma. Assim, com medo do dilúvio pelo aquecimento global, há quem prefira aconchegar-se, preparando uma nova idade do gelo.
É um livro que merece alguma atenção: o autor foi um dos protagonistas do processo revolucionário em 1974-75, tendo-se distinguido como comandante da Zona Militar Centro e membro do célebre Grupo dos Nove. Testemunho histórico em primeira mão, portanto.
Está ainda por escrever um grande livro de história com relatos dos 19 meses desse escaldante processo revolucionário. Lamento que vários protagonistas desse período tenham desaparecido sem deixar o seu testemunho impresso. Também por isso, gostei que tivesse aparecido este livro de Franco Charais, um militar que merece o meu respeito.
Não conheço o livro, e o título bate numa ambiguidade de designações, querendo talvez focar outra questão.
Golpe militar não creio que fosse, seria uma “ferida militar” que, por virtude da “ferida social” levou a um movimento evolucionário, algo genuíno. A parte revolucionária ocorreu com o gonçalvismo terminando no 25 de Novembro.
Revolução, tal como a revolução terrestre, implica um regresso ao ponto anterior.
Ou seja, depois de um Inverno, regressa uma Primavera – prima vera, com novas primeiras verdades, que promete um Verão… verão promessas, mas no Outono caem as folhas escritas, prelúdio de novo Inverno.
São assim as revoluções, repetem processos, mas não deixam de trazer novidades.
Sendo criança à altura, apenas recentemente notei que a canção infantil “Giroflé, Giroflá” antecipava afinal um “Cravo, Crava” na tradução francófona, que remontava a uma ópera bufa do Séc. XIX e a uma canção anti-fascista dos anos 30.
Os capitães receberam ordens, e estavam longe de ser os únicos a saberem do que se iria passar… há sinos nas igrejas e sininhos nas secretárias, que seguem as sinas pelos sinais.
A grande obediência e pragmatismo nacional permitiu que não houvesse combates. Houve uma simples aritmética de vontades, contada primeiro desfavoravelmente na saída das Caldas, e depois recontada favoravelmente na saída de Santarém.
As vontades de não agir foram mais determinantes que as vontades de agir.
Não houve um Paiva Couceiro, e Salgueiro Maia nem teve que combater, como fez Machado Santos.
O relevo militar de Salgueiro Maia em 1974 e de Machado Santos em 1910, teve quase o mesmo desprezo de reconhecimento oficial.
O que terá sido eventual surpresa foi a reacção popular, indisponibilidade de ser governado e uma pouca vontade em governar. As estruturas montadas não estariam preparadas para agir em desorganização generalizada. Foi preciso invocar o monstro soviético para repor vontades. Os comunistas estavam mais que dispostos a aparecer e simularam o monstro, conforme previsto. A reacção foi natural, pelas vias clássicas, daqueles que não aparecem tanto. Teve que chegar mesmo aos que se escondem e até mais longe. Tudo muito subtil, teve toque de grande mestria. Coisas que não se viram nas praças árabes, com primaveras muito invernosas.
Depois dessa primavera, e desse verão, chegou logo o outono das folhas que caíram, e entrámos demasiado rápido numa nova invernia…
Caídas todas as folhas, nem há rebentos de panfletos para nova sociedade, que era suposto redundar numa outra versão da mesma.
Assim, com medo do dilúvio pelo aquecimento global, há quem prefira aconchegar-se, preparando uma nova idade do gelo.
É um livro que merece alguma atenção: o autor foi um dos protagonistas do processo revolucionário em 1974-75, tendo-se distinguido como comandante da Zona Militar Centro e membro do célebre Grupo dos Nove. Testemunho histórico em primeira mão, portanto.
Tem razão Pedro, tão discreto, que me passou o nome dele nos nove.
Está ainda por escrever um grande livro de história com relatos dos 19 meses desse escaldante processo revolucionário. Lamento que vários protagonistas desse período tenham desaparecido sem deixar o seu testemunho impresso. Também por isso, gostei que tivesse aparecido este livro de Franco Charais, um militar que merece o meu respeito.