
Leio outro livro daqueles a que chamo “literatura da côdea”. Páginas e páginas em que as personagens vagueiam à mercê das inclemências do destino, com a abstinência a roer-lhes o estômago sem nada mais conseguirem encontrar para comer do que pedaços de pão por vezes acompanhados de um toucinho já rançoso.
Não é a fome metafísica, daquelas que se apossam de seres envoltos em angústia traumática, como a figura central desse assombroso romance existencialista avant la lettre que é Fome, de Knut Hamsun. Nem a duríssima fome física que corrói um homem até às entranhas em campos de extermínio modelados por sistemas totalitários, como os nazis em A Centelha da Vida, de Erich Maria Remarque, ou os soviéticos em Um Dia na Vida de Ivan Denitsovitch, de Aleksandr Soljenítsine.
Este é o jejum abstracto, à portuguesa, que durante décadas invadiu a nossa literatura burguesa para lhe incutir suposto cunho popular e lhe deu uma toada ideológica dominante – a tal ponto que ainda encontramos ecos disso no que hoje se vai publicando. Dezenas e dezenas de livros em que apenas se mastigam restos de pão duro migados numa tigela de caldo aguado e triste. Dezenas e dezenas de autores que parecem monges recolhidos em celas, renegando o pecado da gula, sem jamais dedicarem um parágrafo ao prazer da comida ou ao culto do convívio à mesa. Depois dos clássicos, como Camilo e Eça, existe um extenso e penoso período em que ninguém come nem bebe na literatura portuguesa.
É tema a que dediquei algum espaço aqui.
Aquilino Ribeiro e Agustina Bessa-Luís figuram entre as raras excepções a esta frugalidade militante. Do primeiro, gosto de realçar aquela frase do magnífico romance Quando os Lobos Uivam, já citada aqui: «Filomena tinha-lhes um bom caldo de grão-de-bico adubado com pespé de cerdo e uma arrozada de coelho bravo. Comeram-lhe bem, beberam-lhe melhor.»
Epicurismo militante num estilo inconfundível. Inimitável.
Pois acabo de ler um desses expoentes da “literatura da côdea”. A tristeza habitual. Nem umas iscas na frigideira, nem uns carapaus alimados, nem uma açorda de tomate, nem uns ovos mexidos com presunto. Fuma-se muito, vão-se emborcando uns copos de carrascão, mas a comida fica fora do cardápio literário – resquício desse tempo em que a literatura lusa fazia voto de pobreza.
Em compensação, abundam erros de ortografia. Alguns tão primários, tão clamorosos, tão inadmissíveis que espanta como escaparam a quem reviu e editou a obra, na primeira metade dos anos 50, e a quem a foi reeditando até ser impressa esta versão do mesmo romance, publicada em meados do século 70, numa colecção que ficou famosa: Livros Unibolso.
Cheguei a supor que eram simples gralhas. Mas a cadência e a quantidade dos erros levaram-me a concluir que constavam do manuscrito original. Algo inaceitável, tratando-se de autor que ostentou certa fama e até recebeu salamaleques da chamada “crítica”.
Registo alguns: «farçante» (p. 33); «ripansos» (p. 39); «trazeiros» (p. 84); «espectativa» (p. 85); «farças» (p. 85); «cordealidade» (p. 100); «escárneo» (p. 108); «nazalada» (p. 113); «mangedoura» (p. 124). Já para não falar em ridículas redundâncias, como «os olhos saídos fora das órbitas» (p. 54).
Raio de prosa, tão mal parida por um autor “consagrado”.
Lendo isto, tal como isto, admira cada vez menos que a iliteracia galope à desfilada nas redes ditas sociais. Se os “vultos da literatura” escrevem com os pés, sem o menor reparo das sisudas sumidades que lhes prestam vénia, não terá também o escriba anónimo o pleno direito de chafurdar na asneira?
Leitura complementar:
A literatura que vai à cozinha (18 de Maio de 2017)
Diário do coronavírus (10) (15 de Maio de 2020)
A hilariedade do pagem na mangedoura (21 de Abril de 2021)

Pior que o acordo burrográfico são os abortos burrográficos.
Nem no corrector (com “c”, não confundir com Pedro Caldeira) confiam.
Com gente assim até parece que o senhor Costa fala em latim (rimei sem “crer”)
Bom fim de semana Pedro Correia.
Segunda feira logo se vê.
Já deu para roer uma côdea hoje. Amanhã logo se vê.
… e Eles com tanta falta de professores…!
Hoje ninguém quer ser professor.
Todos sabemos porquê.
Bom dia, Pedro Correia.
Provavelmente não ouvimos a mesma canção, mas lemos os mesmos livros. Isto foi um exagero meu. Não tenho a veleidade de pensar que li uma ínfima parte, sequer, do que o Rui leu ou lê. Mas refere, com alguma frequência, livros e autores que “conheço” e estão na minha lista de preferências. Nunca vi mencionado Sven Hassel. Possivelmente porque nunca veio ao caso, conhecerá certamente. Poderá satisfazer esta minha curiosidade?
Abraço Leonino
Não conheço, Romi. Só falo (e escrevo) mesmo do que conheço.
Sem nunca me iludir: é sempre muito mais aquilo que ignoramos do que aquilo que sabemos.
Saudações leoninas.
Ena! Não o fazia um socrático.
Sócrates, o grego, que era casado com a Xantipa.
Não confundir com o outro.
Não tem nada que ver com o postal.
Na capa do Expresso aparece notícia da viagem do PR à Costa Leste dos EUA, e indica as cidades que serão visitadas. Coitado do jornalista percebe pouco de geografia e não acertou na Costa certa.
Não vi nem li. Não posso comentar o comentário.
As capas dos vários jornais aparecem nos Jornais do Dia na internet
Pois, já sei. Confundiu a costa oeste com a costa leste.
Quem é o autor e qual é a obra?
Engraçado.
Um anónimo, que entra aqui de cara tapada e identidade oculta, vem perguntar-me quem é o escritor cujo nome decidi omitir.
Estas ironias ainda me divertem ao fim de todos estes anos a escrever em blogues, única “rede social” isenta de censura.
Olá, Pedro.
Estou “longe”, nas Berlengas, mas lá venho picar o ponto: admira-me o jovem Balio não ter comentado…
Abraço, do Fernando Antolin
Ena, que inveja saudável me provocou agora, caro Fernando. Aí nessa ilha onde nunca estive – eu, que adoro ilhas e até já vivi numa.
Pedro, não seja tão implacável. O autor será da corrente neo-realista, pelo que retrata a pobreza da linguagem e imita os erros.
Tenha fé.
É da subcorrente da “côdea”. Parente mais remendada e miserabilista do neo-realejo militante.
Pedro, também gostava de saber a nome da obra mas percebi que a omitiu propositadamente.
Esses autores de que fala são altamente deprimentes. No pós 25 de Abril impigiram-nos uma série deles nas aulas de Português do chamado 2.° ciclo – Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Branquinho da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes… Dos que então tive que ler só se safou a novela do Régio “Davam grandes passeios ao Domingo”, com uma intensidade dramática e psicológica ao nível de “24 horas da vida de uma mulher” de Stefen Zweig, o que é tanto mais relevante quanto ambas as novelas foram escritas por homens.
Outro autor que o tempo se encarregou de colocar no devido lugar da quase irrelevancia foi Fernando Namora.
Já agora, fala-se muito do Urbano Tavares Rodrigues e quase nada da Maria Judite de Carvalho, uma belíssima escritora que, parece-me está agora a ser (re)descoberta. Mistérios da igualdade de tratamento de género da (lá está) Soeiro Pereira Gomes.
Confesso que omiti o nome sobretudo para testar a perspicácia dos leitores. Talvez algum me saiba dizer de que livro se trata.
Mas ando a pensar fazer uma série regular sobre erros de palmatória que tenho encontrado em livros vários. Nessa altura voltarei a este, forçosamente. Desvendando título e autor.
já não há livros de cheques
nem de mortalhas para as onças de tabaco
Mas amigos da onça não vão faltando.
A orthographia parece-me reminiscencia oitocentista. Camillo e Eça escreveram farça, farçante. Gonçalves Vianna com a mania de «simplificar» a orthographia quiz tanto reformal-a que a I.ª Republica lhe deu a oportunidade, por mera ideologia anti-monarchica. A coisa simplificada vingou, mal, e de vagar. Ainda hoje andamos nisto, bem mal ou, pior, V. bem sabe, tanto que até escreveu um livrinho sôbre elle. O que aponta como êrro são marcas d’ uma tradição que não esquecêra. O realismo serôdio ao jeito de Raul Brandão nos annos 20 acha-se bem requentado no neo-realismo de Namora, p. ex. no «Trigo e o Joio», em que uns camponezes com uma courella muito pobre, muito pobre, com uma burra para lavrar a courella muito pobre, muito pobre, que não dava sustento e que, ou vendiam a burra e se sustentavam da sua venda antes de morrerem sem sustento porque ficavam sem a burra para lavrar a courella ou, lavravam a courella com a burra sem na vender e morriam de fome porque a courella era muito pobre, muito pobre, que não dava sustento.
Tal é.
Ortographia à parte, aqui a questão de fundo é mesmo a evidente incompatibilidade do escritor com certas palavras, baixando imenso as “espectativas” de quem – como eu – teve curiosidade de ler esta obra da década de 50 numa edição já posterior a 1974 (o texto da contracapa deixa isso evidente).
“Esses cachos estão de se lhe tirar o chapéu, sim senhor! Um mimo, de fartos e maduros…Abençoado seja o sol que os cria! Era certo e sabido que o outro não lhe retorquia, mas ele tornava com cordialidade, simpatia e um certo e…”
“Pedro”
Manuel Mendes – 1963
Pessoas com ligações ao poder geralmente dão muitos erros. É normal.
O livro é de 1954. Duas décadas depois, os erros ortográficos são tantos, numa colecção que teve grande êxito comercial, que menorizam mais ainda um romance que está muito longe de atingir o nível de outras obras de autores portugueses surgidas nesse ano – incluindo ‘A Sibila’, de Agustina, ‘O Trigo e o Joio’, de Namora, e ‘Manhã Submersa’, de Vergílio Ferreira.
Post tão estranho: critica uma obra, ou edição, sem dizer de que obra ou edição se trata.
Já de si nada é de estranhar. Mesmo às 9.07 de um domingo.