

Leio um romance de uma escritora noutros tempos muito celebrada, ao ponto de ter recebido prémios literários, ser enaltecida em páginas culturais da imprensa e merecer destaque em antologias.
À medida que desfilam os capítulos, vou pasmando com a sucessão de erros ortográficos – alguns bem graves. Não são gralhas: são mesmo erros, aliás reiterados. E que foram passando incólumes de edição em edição: esta que tenho entre mãos é já do ano 2000. O que me leva a questionar em que estado viria aquele original quando pela primeira vez foi remetido a um editor, na segunda metade da década de 60.
Eis alguns exemplos: pagem (em vez de pajem), grangear (em vez de granjear), hilariedade (em vez de hilaridade), eminente (em vez de iminente), emerso (em vez de imerso), mangedoura (em vez de manjedoura). Erros a mais para passarem sem um reparo crítico. Enquanto reforço a minha convicção de que há muito escritor a necessitar com urgência de regressar aos bancos da escola. Básica.
Não pensem que são casos isolados. Tenho assinalado vários tão graves como estes em diversas obras literárias, por vezes até de autores que cometeram best sellers (bestas céleres, como dizia Alexandre O’Neill). Daria para uma secção regular no DELITO, garanto. Ou na revista Ler, onde vou escrevendo uma vez por outra.
Se os “consagrados” escrevem assim, em sisudas obras até recomendadas no douto Plano Nacional de Leitura, como haveremos de admirar-nos de ver tanta calinada à solta na bagunça das redes sociais?

O naufrágio pode ser eminente. Se o Papa for a bordo.
(provocou-me “hilariedade”…)
Há anónimos hilariosos (podiam ser Hilários)
Eu tenho saudades de ver jogar o Hilário, inesquecível jogador do Sporting e titular da selecção nacional que subiu ao pódio num campeonato do mundo.
Eu tenho saudades do Hilário, primo do meu pai que esteve longos anos emigrado na Venezuela e que, creio, lá faleceu.
Há até um fado com o nome dele. O célebre Fado Hilário.
Infelizmente ultimamente tenho notado que escrevo Português com maior dificuldade. O facto de trabalhar em inglês e também ter passado um período longo a ler literatura em inglês contribuiu fortemente para essa situação. O acordo ortográfico (que tento não seguir) também. Agora estou a atacar novamente literatura em Português. A ver se isto melhora… 🙂
Isso é compreensível, Susana. Mas erros destes – em escritores “consagrados” e avalizados por chancelas editoriais que merecem respeito – são inaceitáveis.
Os erros são sempre inaceitáveis, Pedro. E a leitura é a melhor arma contra o erro.
Mas estou a ver que tem de se ter cuidado na selecção dos autores.
A Torre de Barbela vem a caminho. Escolhi a edição mais antiga que havia na biblioteca.
😉
Gostei muito, como se terá notado.
Há cada vez mais pessoas que fazem erros de português (ortográficos ou, pior, de significado) devido a terem na cabeça palavras inglesas. Pessoas que escrevem “contracto” em vez de “contrato”, “adição” em vez de “vício”, “eventualmente” em vez de “finalmente”, ou “evidência” em vez de “indicações”.
Há uns decénios encontrava-se o mesmo com o francês, em particular os “portanto” que queriam dizer “no entanto”.
Sim.
“Daria para uma secção regular no DELITO”
Por que espera? (com os nomes dos bois e tudo)
Tenho vários livros cheios de anotações semelhantes, João. Um dia destes dou início à série. Com nomes, claro. De escritores e de livros.
Fico à espera, se bem que, nesta altura, compreenda perfeitamente a Susana que comentou mais acima. Está a acontecer-me o mesmo, embora que por outras razões. Por motivos de saúde, ou melhor, de falta dela, estive mais de 2 anos sem pegar num livro, e agora tenho dúvidas que nunca tive, e já cá cantam 67 anos. E li sempre muito ao longo da vida. Estou agora a tentar recuperar o tempo perdido para não fazer concorrência aos escritores de que nos vai falar. Obrigada pela sua escrita, que acompanho mas julgo que nunca comentei.
Muito obrigado pelas suas palavras de incentivo, Maria Manuela. Os meus sinceros votos de boa saúde, esperando que esteja recuperada.
É possível que a denúncia de erros de palmatória em autores editados (e consagrados), ao contrário pôr ao léu e envergonhar gente com grande lábia, possa vir a ser um incentivo e consolo para todos quantos se atrevem a escrever, por mais ineptos que sejam.
Ao contrário de pintar ou compor música, escrever é barato. É acessível a todos, e tudo dependerá do grau de consciência e juízo crítico sobre si próprio de cada um.
Sim, mas neste caso trata-se de obra que até foi contemplada com um relevante prémio
literário.
Não se trata de peixe miúdo mas graúdo.
Não é o caso que você apresenta mas algumas palavras têm significado no dicionário informal brasileiro.
Pagem – Assistente de professora de educação infantil.
Emerso – Voltar à superfície.
Eminente – Cientista que foi homenageado pelo presidente.
Como o Acordo ortográfico é o mesmo será que poderemos considerar estas palavras um erro?
“Dicionário informal”. Só a expressão já diz quase tudo. Deve ser uma treta semelhante às “medidas inclusivas” de algumas universidades inglesas que decretaram o fim da distinção entre norma e erro.
A norma é “fascista”, o erro é “revolucionário”. Pum!
Já vi que você hoje acordou mal disposto.
Nada disso. Quando dialogo com leitores nas caixas de comentários é sinal inequívoco de que estou bem disposto. O que acontece quase sempre.
Eu fui ver no dicionário priberam online (que, dou de barato, não é grande coisa) e as palavras emerso (= que está à superfície) e eminente (= prestigiado) de facto existem, tal como existem imerso (= que está abaixo da superfície) e iminente (= prestes a acontecer).
Pagem e mangedoura não existem.
Obrigado Balio.
Mangedoura deve ser uma francesa que come muito.
Emergir é o oposto de imergir, o que para mim só acrescenta gravidade à calinada.
Não há manjar na “mangedoura”.
Será canibalismo uma gaulesa a comer francesinhas?
Jovens francesinhas?
Aquilo por lá é muito liberal, desde os tempos da Emanuela.
Emanuela? Conheci-a, em tempos idos. Na Tailândia, terra de imenso calor.
A questão não é se as palavras existem. Claro que existem (eminente, emerso). A questão é que o seu uso no contexto da prosa está incorrecto. Algo que está para acontecer não é eminente, é iminente.
Os erros são, sem dúvida, da responsabilidade de quem faz a revisão do texto, a última barreira contra a impressão de erros em livros. Presumir que são os autores é arriscado.
Só podem ser erros de quem escreveu por serem reiterados, nomeadamente neste livro. Os exemplos que aqui trago são meramente indicativos: garanto que são muito longe de ser exaustivos.
O que não iliba, claro, revisores e editores. Eu, como editor, sentir-me-ia muito mal se trouxesse a público várias edições de um livro que ainda contém estes erros de palmatória (e nem quero imaginar como estaria à partida, quando o original foi entregue).
E também não iliba os “jornalistas culturais” que enalteceram esta obra sem fazerem o menor reparo a tais erros. Indiciando assim que ou a leram em diagonal, saltando páginas, ou não a leram de todo.
Os jornalistas culturais leram a sinopse talvez. Editores e revisores, declaradamente, têm responsabilidade. Os autores terão ou não. Até se pode dar o caso de os revisores terem feito a “correcção” ao original. Isto há de tudo.
Grave, no caso de jornalistas culturais. Até porque aquilo que escrevem costuma ser citado em cinta ou badana ou contracapa inseridas nas futuras edições ou reimpressões ou mesmo em publicidade alusiva à obra, ficando assim como avalistas perpétuos deste título.
Eu seria incapaz de escrever sobre um livro que não tivesse lido.
A modalidade de comentar livros que não se lêem foi muito cultivado por um certo comentador domingueiro da tvi.
Eu conheço outro antigo comentador (da SIC e da RTP) que dizia ter escrito livros que afinal haviam sido escritos por um assalariado. E mandava o melhor amigo e os amigos e conhecidos desse amigo comprarem milhares de exemplares desse tal livro para armar em “besta célere”.
O livro tinha erros de ortografia?
De hortografia.
Francamente, Pedro Correia.
Esperava de todos, menos de si. Então e a “escrita criativa”?
Se até Oxford, não só a permite mas até a incita.
Oxford adopta a escrita “inclusiva”.
Semelhante à sopa de pedra em Almeirim: vai tudo para dentro da panela.
Pois mas os tempos mudam, passam e os novos formatos vao aparecendo, tal como as novas formas de escrever, falar e por ai adiante, caso contrario ainda estavamos tods a conversar “a moda das cantigas de amigo”…
A evolucao e cultural, tal como o hip hop e o rap, a escrita diferente, ou nao fosse para mim quase imcompreensivel (uiiii & sera assim que se escreve?…) ver o texto de um adolescente escrito num “tweet” (& uiii outra vez, nao sei como escrever isto em matriz Camoniana…) ou, mais de pasmar que tudo isso, perceber que um dos grandes trunfos de comunicacao do Trump, era expressar-se “como se fosse um miudo de 15 anos”, e por consequencia, ser percebido por todos…
E a questao e:
Queremos “elitizar” (ooopsss & acho que agora e que nao tenho desculpa…) a escrita e a leitura ou torna-la acessivel ao comum dos mortais sem ter que ir aos dicionarios de 2 em 2 minutos?
(PS – As minhas desculpas, mas nao tenho acentos marcados no teclado e da um trabalhao danado ir a procura…)
Se bem percebi, nessa escrita algo convulsa, elege Trump como modelo de eficácia comunicacional.
Lamento mas entre Trump e as Cantigas d’ Amigo, prefiro estas. Desde logo porque, de algum modo, fundaram uma literatura. Trump fundou uma impostura. E afundou-se com ela.
Nope, nao percebeu e nao elegi o Trump para coisa nenhuma, limitei-me a dizer que a linguagem tipica de um miudo de 15 anos, usada por Trump (note que esta assumpcao e feita por jornalista profissionais da CNN) e “mais percebida” do que textos gramaticalmente correctos & impecaveis, que o Rap e o Hiphop, a despeito dos erros gramaticais, sao mais ouvidos do que qualquer opera de Puccini, e portanto, talvez seja altura de “aligeirar” um bocado essa intolerancia gramatical.
Simplificar…Tal como o “Chines simplificado” ao inves do outro mais complexo e que so uma pequena percentagem e que consegue perceber.
Nao tem a ver com o Trump, tem a ver com o formato de mundo que existe hoje, bom ou mau, com as pessoas que nele habitam, que lem as suas cronicas (aqui ou em Macau) e se alguma coisa nao esta correcta, nao se esqueca, foi a sua geracao que criou a actual…
Pedro, já reparou nos rótulos das garrafas/garrafões de água do Luso?…é que fica a dúvida se se trata de um erro…escreve-se Buçaco ou Bussaco?
Para mim é Buçaco, mas posso estar errada.
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consul torio/perguntas/novamente-a-grafia-de-bu caco/33903
Todos os dias se aprende…sendo assim, os rótulos estão correctos;
(…)
“a forma correta atual é Buçaco, mas, para fins comerciais, turísticos ou no âmbito da cultura local, é possível usar a forma usada do século XVII em diante, Bussaco.”
Muito obrigada, Marina.
P. S. – Ainda fiquei a saber que inicialmente sapato era “çapato”.
Cada cabeça, sua sentença.
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consul torio/perguntas/serra-do-bucaco/12216
Escrevia-e Bussaco “antigamente…Há colecção de loiça de Sacavém com esse nome e essa grafia. …Também temos muito frequentemente o “o embater contra” e o “repetir outra vez”
Sim. Como Sintra, que já se escreveu Cintra.
é caso para dizer que colocou a autora em cheque, como li ontem umas 3 vezes num livro cujo autor não faço a mínima ideia se é celebrado ou famoso ou premiado.
Alguns não fazem a menor ideia de que existem diferenças entre uma coisa e outra.
Mas não faltam cheques colocados em xeque.
check v (isto era um visto, à professor de escola primária)
Pois, Pedro, a questão é mesmo essa – ao nível do mais primário. Ou do básico, para usar outra expressão.
Há quem se imagine capaz de “escrever livros” sem ter noção de como se faz ou para que serve. E – muito pior – há quem premeie coisas assim.
Libertemo-nos dos grilhões do Gramática, esse símbolo do patriarcado opressor.
A gramática é fascista.
Convém não absolutizar as coisas.
O eminente Morais atestou a grafia de pagem, grangear e mangedoura.
Os arcaísmos já foram modernos…
Num livro de 1969, sem qualquer alusão a arcaísmos em texto ou subtexto?
Tenha paciência, mas não compro esse relativismo.
O que pretendo simplesmente dizer é que já houve tempo em que o erro não o era.
Estamos a falar de convenções, não de verdades matemáticas.
Sim. Mas convém que gente laureada até com prémios literários tenha um pouco mais de atenção a estas convenções – chamemos-lhes assim.
E o mesmo se diga das editoras, que vão convivendo sem sobressaltos de consciência com estes erros, que se perpetuam de reimpressão em reimpressão.
Não admira que tantos escritores façam imenso cuidado em agradecer os préstimos de seus revisores…
Mas tenho de dar a mão à palmatória, porque já pude constatar que na obra tanto é usado “emerso(a)” como “imerso(a)”, aparentemente sempre com o mesmo significado. E o mesmo acontece com “eminente” e “iminente”. Aliás, a calinada do “eminente” já vem do anterior romance. Ai, ai…
De quem escreveu, já nem surpreende. Mas espanta-me que editoras respeitáveis caucionem isto. Não lerão os livros que editam?
Quando há reimpressões, não é suposto haver alterações, senão lá se vai a economia de escala e mais umas chapa de impressão para o galheiro.
Sim, mas neste caso nem se trata de reimpressão. Já houve mais de uma editora envolvida até porque a mais recente nem existia à época em que este romance foi publicado pela primeira vez.
No caso de reimpressão, haveria também a possibilidade de recurso a uma solução económica: anexar à obra uma errata.
(Que no caso em apreço arriscar-se-ia a revelar-se bem extensa…)
Lá está: pensar que há árvores que morrem para isto. Sim, dava para um secção regular no Delito, mas seria demasiado deprimente.
Tenho reflectido muito nessa frase, Zélia: pensar que muitas árvores morrem para isto. Já não é só militar pela gramática: é também militar pela ecologia.
https://www.yahoo.com/entertainment/ange lina-jolie-reveals-why-not-161846510.htm l?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLm NvbS8&guce_referrer_sig=AQAAAHztRcKdi0FnYgc4wv v0tHen4ndeEQKjiTMjU-6ZdWd8jbSDEhfK-J0xCf b0RcF6-Xl9rnyyflZyjKZJ4f86GtonfY2aq-zW1-w mHOtflXrZmdTZrIPDkHQTlaXNxuwFmmlfkITOX2G 2MDBdY6ioeICowIXMMT0492v03XY1QVMW
e depois a “tradução livre”
https://www.noticiasaominuto.com/fama/17 36828/angelina-jolie-diz-que-divorcio-to rnou-sonho-impossivel-de-realizar
Grato por ter trazido isso aqui. Vale a pena comparar, de facto.
A dúvida estará em saber se foi o autor que cometeu a calinada ou se foi na impressão da obra.
Em escritores “antigos”, no tempo em que não se escrevia em computador, certamente que o erro foi cometido na impressão e não foi detectado na revisão de provas.
De qualquer modo, parece-me que, em princípio, o erro é de atribuir à editora, pois que a edição é da sua responsabilidade.
Mas é um facto que cada vez me deparo com edições menos cuidadas, com erros de toda a ordem.
Neste caso, para mim, não há dúvida nenhuma.
O erro vem da origem.
Nem quero imaginar como estaria aquele texto original no momento de chegar à editora.
Um retrato triste do trabalho de edição em Portugal.
Há uns anos, detectei um erro histórico num dos mais prestigiados livros de Saramago: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. O nosso Nobel reporta-se a uma peça de Shakespeare, mas troca o nome do rei, que até dá o título a essa peça: “Ricardo III”. Saramago diz que é o rei Henrique que oferece, em plena batalha, o seu rei por um cavalo. E o erro vai passando e ninguém dá conta, desde a primeira edição do livro, em 1984, até pelo menos 2013, data da edição que li. Como será na tradução inglesa?
Enfim, para detectar este erro é necessário conhecer a peça de Shakespeare. Para detectar erros ortográficos é “só” preciso conhecer bem a nossa língua. Pelos vistos, também é pedir demais.
Esse passou-me, Cristina. Esse é típico erro de edição.
Dos outros, os de palmatória, Lobo Antunes vence Saramago por goleada.
Muito me conta. Confesso que nunca li Lobo Antunes.
(no meu comentário anterior, queria naturalmente dizer: “oferece o seu reino por um cavalo”)
pois…é como eu disse aqui numa vez anterior felizes os que leem o con~-
teudo, nao se distaindo com minudencias.
Mas o Pedro, que é dado ao rigor, alem do carro novo, faz questao que tambem os pneus sejam ainda mais novos.
PS : mas é evidente e exigencia que os livros nao contenham, repetidos, erros primarios.
É uma indignação justa. Desde logo porque os livros não são baratos.
E se nos divertíssemos um destes dias a discutir a maluqueira da língua portuguesa com os “g” e os “j”?…
Tenho alguns cromos para a troca.
Pedro, uma nota. Creio que pagem terá sido em tempos a grafia correcta (confesso que também eu tenderia a escrevê-la com g ; ou possivelmente a oscilar entre as duas até ao momento de publicar um texto com essa palavra pois, lá está, a publicação pressupõe a pesquisa e elucidação destes pequenos soluços). Encontrei a palavra assim escrita com o « g » na edição fac-similé da « História de Portugal contada às crianças » escrita nos anos 40 pelo Rómulo de Carvalho. Não vejo razão para a censurar mesmo hoje. Pecadilho ou irreverência no máximo. Não se incorre, ao empregá-la, em nenhum contra-senso como é o caso das outras – emerso e eminente só se fosse para emergir enfim de um desgosto ou para assistir ao naufrágio de sua eminência.