Leituras


Pedro Correia,

 

«No dia 9 de Abril [de 1918], dois exércitos alemães lançaram-se ao ataque, de novo com os métodos de Março e de novo com um tempo muito favorável a seu favor. No lado sul, caíram sobre duas divisões portuguesesas. Tal como os italianos, os portugueses tinham sido obrigados a correr para aprenderem a andar ou mesmo a gatinhar. Os seus homens eram usados como carne para canhão em troca do apoio britânico à manutenção do império português em África. Não eram soldados entusiastas. Cederam.»

Norman Stone, Primeira Guerra Mundial

(D. Quixote, 2010)

5 comentários em “Leituras”

  1. Uma descrição negativa do valor das tropas portuguesas que só desacredita quem a escreve.

    Todas as ofensivas alemãs dessa primavera (foram cinco) conduziram ao mesmo resultado: as tropas aliadas cederam. Não foi defeito exclusivo das tropas portuguesas.

    Mas estas últimas tinham “desculpas” extra: estavam há meses na frente sem serem rendidas. Estavam cansadas e desmoralizadas.

    1. As tropas estavam cansadas e desmoralizadas: estavam há meses na frente, não eram rendidas. Você é que escreveu isto, não Norman Stone. Pela sua própria lógica, dir-lhe-ia que é “uma descrição negativa que só desacredita quem a escreve”…
      Desacreditado, aqui, só mesmo o poder político que lançou tropas impreparadas e mal equipadas para a mais impopular guerra em que participaram forças portuguesas. Uma guerra em que nenhum aliado nos pediu que entrasse e que apenas se destinava a fornecer uma legitimidade ‘nacional’ ao recém-constituido regime republicano. Curiosamente, lançou-se um profundo manto de silêncio sobre esta desastrada intervenção portuguesa na I Guerra Mundial, como se nunca tivesse ocorrido.

      1. Estou totalmente de acordo com a parte final do seu comentário.

        Em relação à parte inicial: Norman Stone dá (subrepticiamente) a entender que as tropas portuguesas se portaram especialmente mal e que elas eram especialmente incompetentes ou medrosas. E isso é que é falso e, mesmo, calunioso. As tropas portuguesas portaram-se tão mal como quaisquer outras na mesma situação (cansadas, desmotivadas) se teriam portado. E bateram em retirada perante a ofensiva alemã tal como as tropas de outros países também bateram perante ofensivas similares.

      2. Pedro, fiquei curiosa acerca do livro que referes, sobretudo porque (pela citação) parece perpetuar algumas ideias imprecisas (a título de exemplo: a comparação com os italianos é injusta, estes desconheciam, por exemplo, a metralhadora, coisa que os portugueses tinham e usavam ainda antes de entrarem no conflito…) sobre a preparação e evolução das condições de actuação do CEP.Digo isto porque por acaso acabei de ler a correspondência de guerra do Coronel Maia Magalhães (publicada há uns meses pela INCM e organizada pelo Vitorino Magalhães Godinho, seu parente, o qual legou já esse e outros espólios à BNP).
        Maia Magalhães era assumido afecto ao Partido Democrático e pagou cara essa relação durante o sidonismo, na frente e cá (foi ilegalmente preso durante um gozo de licença em Lisboa, ao cabo de dezassete meses em campanha).
        É um volume precioso para conhecer uma fatia do quotidiano da participação portuguesa no conflito, bem como da volatilidade e violência da vida política portuguesa nos anos de 1917-1918.

        Quando acabares de o ler fazemos bookcrossing para a troca? 🙂

  2. Aceito a recomendação!

    Há muito que gostaria de ler uma opinião estrangeira sobre a expedição do CEP a França e à Bélgica. O que é ensinado em História é a perspectiva Portuguesa – existe portanto, aquela vontade de saber se os Britânicos enfiaram-nos ou não na linha da frente como carne para canhão e se o fizeram porque é que nos fizeram a nós, o seu eterno aliado.

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