As eleições ganham-se ao centro. E as excepções só confirmam a regra, como a vitória de Pirro do Syriza na Grécia comprova oito meses depois. Ninguém ficou menos surpreendido do que eu: enquanto outros lhe entoavam hossanas, logo em Janeiro vaticinei aqui que a coligação liderada por Alexis Tsipras iria “desfazer-se em poucos meses” e o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, seria “o primeiro a abandonar o barco”.
António Costa foi criticado, e muito bem, por se ter esganiçado nessa altura em louvor do Syriza. Recentrou-se entretanto, por convicção ou tacticismo: o secretário-geral do PS sabe que só ganhará as legislativas se sacudir a poalha esquerdista que foi acumulando na gola do casaco.
Paulo Portas e Passos Coelho foram condescendentes nos debates televisivos que travaram com Catarina Martins. Percebe-se: não disputam eleitorado com ela e até lhes dá jeito que o Bloco de Esquerda cresça um pouco, à custa do PS, seguindo o princípio dos vasos comunicantes. Eram debates que qualquer deles se deu ao luxo de perder ou empatar sem custo de qualquer espécie: os votos tresmalhados no BE funcionam como uma espécie de seguro da coligação contra a intempérie socialista.
O Bloco – esgotada a sua agenda “fracturante”- ficou sem bandeiras. Órfão da liderança carismática de Francisco Louçã, está entalado estrategicamente entre o PS e a “verdadeira esquerda”, pura e dura, a do PCP. Catarina Martins mais não tem repetido nesta campanha do que as teses comunistas. Sobre a construção europeia, o euro, o Tratado Orçamental, a “reestruturação da dívida”, o PS como “aliado da direita”.
Para os eleitores que restam do BE só haverá voto útil se puder conduzir a uma solução governativa à esquerda: enquanto partido de protesto com visibilidade na cena política portuguesa, chega e sobra o PCP. No entanto nada disso tem reflexos na mensagem de Catarina Martins, que já se situa à esquerda do Syriza – antiga “esperança para toda a Europa”, rapidamente esmorecida. Cada vez mais longe da família dominante no socialismo europeu.
Neste contexto, o apelo lançado pela porta-voz bloquista no minuto que lhe restava do frente-a-frente com Costa, na noite de segunda-feira, foi quase patético: o Bloco de Esquerda admite agora “conversar” com o PS… se o PS abdicar das suas bandeiras eleitorais.
Desta forma, Catarina empurrou o líder socialista para o centro. Ele agradece-lhe a gentileza, certamente, porque isso contribui para cativar o eleitorado flutuante dessa área. Já agora: Jerónimo de Sousa também. Porque o PCP tem garantidos de antemão os votos da “verdadeira esquerda” mesmo que os amanhãs tenham há muito deixado de cantar.

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As esquizofrénicas esquerdas portuguesas, intelectuais e socializantes, ignorantes e ultrapassadas, foram arrumadas por um serralheiro cujo filósofo predilecto é apenas e só o PoetAleixo.
Mas não se mancam…A velha cassete de Jerónimo ainda continua a ter mais crédito que as pen e dvdês dos concorrentes directos.
Não subestime a sabedoria popular do poeta Aleixo. Cheia de quadras que se tornaram património cultural do País.
“As eleições ganham-se ao centro.” E os princípios? Ganham-se e perdem-se onde?
Os “princípios” perdem-se muito antes do fim. Veja o caso grego: toda a pseudo-retórica moral do Syriza – partido-irmão do BE – se eclipsou num par de meses.
O próprio Syriza foi-se eclipsando – primeiro a trote, agora a galope.
Os principios pagos com o dinheiro dos outros, acabam com o dinheiro dos outros.
Ficam os princípios que o caro Anónimo estiver disposto a pagar.
Tendo em conta a reacção generalizada dos “anónimos” à crise dos refugiados, parece-me que não estão dispostos a pagar grande coisa, mesmo quando o princípio é salvar da morte homens, mulheres e crianças que passaram os últimos 4 anos bem pior que nós.
a “verdadeira esquerda”, pura e dura, a do PCP
Não concordo que o PCP seja uma esquerda mais pura do que o BE. Tem apenas uma forma de atuação diferente, leninista, com o “centralismo democrático”, que lhe garante uma maior uniformidade na intervenção.
Logo aí, nessa componente leninista e nesse centralismo dito democrático, é de facto mais pura e dura. Por mais directamente herdeira da genuinidade – na falta de melhor palavra – da mitificada (ainda e sempre para, ao que parece, muitos que só a conheceram de ouvir contar e recusam dogmaticamente outra versão que não essa) União Soviética.
Costa
Mas a União Soviética não é a mais pura das esquerdas. De forma nenhuma.
Entretanto, para além da organização e da tática leninistas, que caraterizam o PCP mas não o BE, há de facto uma diferença ideológica entre os dois: o PCP é anti-Europa, o BE é pró-Europa. Nesse sentido, sim, pode dizer-se que o PCP é mais “duro” do que o BE.
Não será, talvez. E a discussão seria longa e muito provavelmente ociosa, fora de um fechado círculo académico e dentro desse estrito âmbito. E coisa irrelevante (ou talvez não, porque blasfema) para o eleitorado do PCP.
Que lá se vai renovando quanto necessário, com meticulosa precisão (parece eternizar-se a geração de “comunistas” dos tempos do PREC ) para manter uma já quase intemporal estabilidade. Pudesse isso dizer-se do BE …
Donde, da pureza, no contexto que interessa, dou a coisa por encerrada. Da dureza, escreveu você.
Costa
Ps.: isso de tática ” é o quê? É brasileiro, o Lavoura?
Passos Coelho e Portas não foram condescendentes com Catarina Martins.
Perderam o debate porque não tinham nada a dizer (a menos que gritar Grécia seja debater alguma coisa).
Eu também conheci um menino que quando perdia um jogo dizia “foi porque eu quis” (como quem diz: fui condescendente). Mas isso é uma fase que deveria passar aos 8 anos e é feia de ver em gente crescida.
Passos e Portas disputam eleitorados completamente diferentes do Bloco de Esquerda. Interessa a ambos que o BE progrida eleitoralmente para travar a ascensão do PS.
Isto explica o facto de Costa ter sido muito mais duro – incomparavelmente mais duro – com Catarina Martins do que Portas ou Passos.
Isto não é matéria de opinião: é matéria de facto.
Fazer figura de urso frente a outro candidato é um modo muito curioso de tentar ganhar votos.
Foi isso o que Passos e Portas fizeram.
Se esse raciocínio fizesse sentido então o debate era inútil. Nenhum votante o ia ver.
Para determinadas pessoas nem é preciso ver debate nenhum: antes de começar, já decretaram quem ganhou e quem perdeu.
É o seu caso.
Antes de tudo gostaria de dizer-lhe que em nada vejo o que tenha vaticinado nesses dois primeiros links, que se repetem, que anexa. Quem vaticina as metamorfoses sou eu e não o Pedro. Aqui, em meu comentário, afirmo isso:
“Traduzir uma sociedade em números, que é a coisa mais simples de fazer, e numa opção de vida só revela que é a imaginação que deve estar no poder. Com todas as transformações ou metamorfoses que se assistirá no tempo”.
E essas transformações e metamorfoses vieram de uma França empenhada na ajuda à Grécia, aqui: sta-a-ajudar-a-grecia-a-desenhar-as-nova s-propostas_223244.html
http://economico.sapo.pt/noticias/franca-e
Na mudança de atitude do FMI, aqui: e-prefere-reestruturacao-a-um-perdao-da-d ivida-grega_227466.html
http://economico.sapo.pt/noticias/lagard
e na corroboração de tudo isto por Sapin, aqui: e-prefere-reestruturacao-a-um-perdao-da-d ivida-grega_227466.html
http://economico.sapo.pt/noticias/lagard
confirmando posteriormente que estas negociações teriam efeito em OUTUBRO/2015.
Apesar do ardil que a Alemanha pretende colocar à reestruturação da dívida grega ela está condenada ao fracasso: 015/08/novo-ardil-alemao-para-evitar.htm l
http://brasilsoberanoelivre.blogspot.pt/2
O resto que vai vertido pretende somente desviar as atenções do facto de ter sido Passos e Portas a usarem a situação grega e o Syriza como manobra para encapotarem o modelo que eles mesmo adoptaram em Portugal dando um golpe de mão para fazer cair o PEC IV (acordo Sócrates/Merkel) e tomando o poder através desta artimanha adoptam mais tarde não só este último PEC como vão mais longe.
Mais ainda, usam o Syriza e a Grécia como modelo para demonstrar o que lhes faltou cumprir a eles em verdade, isto é, ou convocavam um referendo ou demitiam-se abrindo espaço a novas eleições para proporcionarem que o povo por eles traído pudesse novamente pronunciar-se.
É claro que a cartilha de seus apoiantes pretende correr uma cortina em torno de tudo isto.
Tsipras só vem demonstrar que em tudo, e em particular em honestidade, é diferente de seus críticos.
E o Syriza não se desmembrou. Novas vagas virão da Grécia e a Europa não é mais a dos meninos do coro.
Citação minha, a propósito do novo governo grego, empossado quatro dias antes: 8/21/us-eurozone-greece-resignation-idUS KCN0QP1Q820150821
«Esta coligação vai desfazer-se em poucos meses. Resta ver o que virá depois.»
(31 de Janeiro, 22.26)
Facto: Tsipras anunciou a demissão e a convocação de legislativas antecipadas a 21 de Agosto:
http://www.reuters.com/article/2015/0
Citação minha, a propósito do novo ministro grego das Finanças, Varoufakis: ul/06/greek-finance-minister-yanis-varou fakis-resigns-despite-referendum-no-vote
«Ou muito me engano ou o Sr. Varoufakis será o primeiro a abandonar o barco…»
(1 de Fevereiro, 1.06)
Facto: Varoufakis abandonou o Governo a 6 de Julho, em ruptura com Tsipras:
http://www.theguardian.com/world/2015/j
Meu caro, o que apresenta não é nenhum vaticínio. A coligação não se desfez. Foi Tsipras que sempre submeteu as decisões ao critério do povo grego.
Houve mudanças com a nova postura de França e os acordos estabelecidos entre Merkel, Tsipras, Hollande e Juncker, ao arrepio do Ecofin.
Tsipras só tinha mesmo de fazer o que fez dizendo porque o fez e revelando que tinha acabado de conquistar aquilo que antes lhe negavam, isto é, a possibilidade da reestruturação da dívida e com um acordo que foi estabelecido, que ainda que duro, não como a Alemanha pretendia.
Desde sempre afirmei, e mantenho, que foi muito útil para todos a postura inicial de Tsipras/Varoufakis.
Mas também mantenho que até ao lavar dos cestos é vindima e que a questão grega não está encerrada com o acordo firmado. Quem afirmar o contrário mente e é cego.
Faltou-me acrescentar na resposta anterior a este seu comentário que Varoufakis não sai em colisão com Tsipras. Foi um acordo estabelecido entre ambos – antes já se falava disso em círculos euripeus – na medida em que Varoufakis tinha entalado seus pares com seu vigor, em particular contra Schauble, e estes últimos não pretendiam continuar com ele nas negociações, pressionados pela Alemanha.
Varoufakis só se opõe mais tarde a Tsipras, na ratificação do acordo.
Varoufakis, o entalado, é que entalou?
Meu caro, até nas tentativas de reescrever a história há limites impostos por um mínimo de rigor factual que vejo cada vez mais ausente dos seus apontamentos.
O rigor factual é este: A coligação não se desfez, foi Tsipras que deu sempre os passos;
Varoufakis sai em acordo com Tsipras, para que as negociações pudessem prosseguir. Aliás, entendo que Varoufakis é mais útil, agora, fora do que dentro. Está mais livre para fazer o que tem vindo a fazer, e bem
Por favor, inclua-se o link abaixo para substituir o que anexei, que vai repetido, onde escrevo: cional/sapin-reestruturacao-da-divida-gr ega-a-discutir-no-ambito-do-resgate
e na corroboração de tudo isto por Sapin, aqui:
http://www.tvi24.iol.pt/economia/interna
Já agora: spx?content_id=4688426
http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.a
Gostei muito, Pedro, e subscrevo.
Obrigado, Cristina. Por vezes sinto a necessidade de sublinhar o óbvio. Muito mais vezes, aliás, do que imaginaria.