Legislativas (1)


Pedro Correia,

 

 

VIRAGEM À ESQUERDA

 

Dos 18% de votos que o PS perdeu nestas europeias, relativamente ao escrutínio de 2004, mais de metade transferiram-se para os dois partidos à sua esquerda – BE e PCP. Isto condiciona, mais do que qualquer outro factor, a margem de manobra do primeiro-ministro nas legislativas: José Sócrates tem necessidade imperiosa de travar este desvio de votos. Boas notícias em perspectiva para o PSD, que defrontará na próxima campanha um PS mais acantonado à esquerda. O líder socialista já deixou antever isto na entrevista de ontem à SIC. Ao prometer mais "investimento público" (citando Keynes). Ao justificar a "nacionalização" do BPN. Ao proclamar o mérito das "funções sociais do Estado". Ao lembrar que o alargamento dos prazos para a despenalização do aborto decorreu neste seu mandato. E sobretudo ao estabelecer uma nítida fronteira com Manuela Ferreira Leite em questões ‘fracturantes’, insinuando que a líder do PSD roçou a xenofobia quando aludiu aos ucranianos e cabo-verdianos que trabalham na construção civil e é uma empedernida conservadora que revogaria as mais recentes alterações à lei do divórcio se chegasse a ser primeira-ministra. Está dado o mote para os próximos meses.

Eis, pois, um Sócrates já mais à esquerda. Que, recorrendo a argumentos caros à esquerda, disputará no Outono cada voto perdido para o Bloco, a CDU e a abstenção. Foi isso que fez Zapatero, com êxito, nas legislativas espanholas de 2004 e 2008 – e, como há muito refiro, o primeiro-ministro espanhol constitui um modelo para o seu colega português. Facilmente se compreende este objectivo estratégico do PS: é hoje impossível governar um país em crise com os socialistas a valerem eleitoralmente apenas mais cinco pontos percentuais do que a soma BE+PCP. Ao procurar estreitar os 21% de apoio eleitoral agora obtidos à esquerda do PS, Sócrates não se limita a cuidar da sua sobrevivência política: acaba por prestar também um serviço ao próprio PSD.

25 comentários em “Legislativas (1)”

  1. Porque o PSD irá buscar votos ao centro? Hmm… Tese interessante, mas esta pressupõe então que o PS, se for buscar votos à esquerda, vai perdê-los ao centro, perder nos 26% ou coisa e tal que obteve nas europeias. Será?

    1. Nestes quatros anos e meio, Sócrates nada mais fez do que pescar votos ao centro e até à direita. Ou muito me engano ou não consegue pescar mais nenhum: esgotou-se o seu potencial de voto nesta área. Resta-lhe a esquerda: de 2005 para cá viu fugir-lhe muitos milhares de eleitores de esquerda. Terá de recuperar boa parte desses eleitores que optaram pelo voto de protesto nas europeias (BE, CDU, branco, nulo ou mesmo abstenção) para vencer as legislativas. Beneficiando de dois factores: a) em tempo de crise, os eleitores tendem a votar no partido que já no poder obedecendo a uma espécie de reflexo condicionado; b) o ‘papão’ da direita, que não tardará a ser invocado em todas as proclamações de todos os dirigentes socialistas.

  2. Ontem na entrevista de José Sócrates à SIC pudemos ver a diferença do tom e da forma como falou, entre esta entrevista e a que deu à RTP em Abril (http://mudaportugal.blogspot.com/2009/04/ironia-unica-forma-de-comentar.html).

    A diferença de tratamento que o PM teve para com Ana Lourenço, em comparação com Judite de Sousa foi abissal. Tratou a jornalista com delicadeza, simpatia e compreensão. Em Abril tinha chamado ignorante (entre outras coisas) a Judite de Sousa.

    Como se esperava Sócrates tentou mudar de personalidade “parte-se-me o coração ao saber que o BPP mentiu aos clientes que lá tinham as poupanças de uma vida”. Só que o disfarce de homem humilde, suave e modesto caiu quando Sócrates falou do défice das contas públicas: “se perguntar qual foi o primeiro-ministro… ou melhor, esta pergunta seria muito imodesta, qual foi o período em que o défice foi menor…”

    A propósito da crise económica e financeira, Sócrates volta a falar dos EUA, da Rússia e… da Irlanda (coitada da Irlanda que está sempre a ser massacrada por este Governo). Sócrates é o melhor líder da oposição na Irlanda. Mais uma vez lhe digo, com o mal dos outros posso eu bem.

    Falando de assuntos que me é caro, o PM disse que melhoramos os resultados escolares. Pudera !! Nestas semanas de exames nacionais, ouve-se os alunos dizer que os exames são fáceis. Nunca, em tempo algum, se viu alunos dizer que as provas específicas, de aferição, etc. fossem fáceis. Porque de facto não o eram, não poderiam ser porque tinham de ser exigentes.

    Para finalizar, Sócrates disse que “o problema do país é termos partidos e políticos que fazem uma coisa no governo e o contrário na oposição”. Pois é, tem toda a razão, mas será que lhe terei de relembrar o que disse aqui (http://mudaportugal.blogspot.com/2009/02/coerencia.html)? pois… olhem para o que eu digo, não para o que eu faço.

    1. “Resista à tentação do controlo da comunicação social”, recomendava o então líder da oposição Sócrates ao PM Santana. Um conselho que bem poderia aplicar a si próprio enquanto PM. Isso e tudo o resto, nomeadamente quando se escandalizava com o aparecimento de mais 16 mil desempregados por mês. O Sócrates chefe do Governo poderia ser criticado ponto por ponto pelo Sócrates que liderava a oposição.
      (parabéns por essa excelente tirada, Luís: ‘Sócrates é o melhor líder da oposição na Irlanda’)

      1. Pedro, uma das coisas de que nao podemos acusar Socrates é de ter aumentado o desemprego, ja que em finais de 2007, antes da chegada da crise, tinham sido criados cerca de 133 mil empregos (liquidos) desde 2005, o que mostra que ate foi criado emprego. Depois la veio a crise.
        O Pedro dirá, como costume, “mas vivia-se melhor em 2005”. Claro, so um milagre poderia fazer com que vivessemos melhor hoje. Talvez na China, com o crescimento aconomico que se sabe, apesar de ter abrando ligeiramente…
        Quanto aos media, recordo-me que houve o que se passou com o Prof. Marcelo nos tempos de Morais Sarmento. Com Socrates, vejo o que se passa com a TVI ou com o Público…
        Abraço.

        1. Caro Ricardo, não tenha dúvida: no momento de votar, no próximo Outono, muitos eleitores farão a inevitável pergunta – Vivemos melhor ou pior do que em 2005?
          A minha resposta você já sabe…

          Abraço

          1. Também vão fazer a seguinte pergunta: com a direita no poder iremos viver melhor? Já sabe a minha resposta.

          2. Deixe lá as abstracções – ‘direita’, ‘esquerda’… Não se iluda. O eleitor, fundamentalmente, vai consultar a sua carteira. Tenho mais ou menos poder de compra do que tinha em 2005? A carteira responderá.
            Não duvido minimamente qual será a resposta…

          3. Boa noite Pedro. Estive ausente dois dias, mas estou de volta…
            Considero excessivamente simplista reduzir a questão a estes termos, se vivemos melhor ou pior. Aliás, considero que, com todo o respeito, o Pedro está praticamente a passar um atestado de incapacidade à maioria dos portugueses. Apesar de continuarmos demasiado imaturos em matéria política e legislativa, penso que evoluímos bastante nos últimos anos e não considero que a maioria veja as coisas a preto e branco. E a Clara adiciona um novo elemento, que, esse sim, também pesa no momento de colocar a cruz no boletim: as alternativas. Veja-se, ainda, as recentes europeias, onde toda a gente subiu à conta do PS (BE, CDU, CDS, MEP, Brancos, Nulos) menos um partido. Qual? O PSD. Como já defendi no Pátio, as pessoas percebem que este governo é mau e merecia um cartão amarelo (tipo, se não corriges os erros, para a proxima vais para a rua) mas nao votou PSD, mostrando que havendo alternativa, não é ali que reside.
            Abraço e boa continuação de fds.

            PS: a resposta é obvia. Claro que vivemos pior. Todo o Mundo vive pior, como expliquei no meu primeiro comentário. É uma pergunta retórica. E as pessoas percebem isso, que a culpa não é do Socrates, apesar da muita asneirada que tem feito.

  3. Pedro:

    Como diria alguém sem tirar nem pôr tocaste nos aspectos essenciais, directo e preciso como se quer e deseja.
    A partir de 7 de Junho, depois do veredicto das urnas, em 2004 serviu para pôr a legitimidade do então governo em causa, agora foram eleições Europeias, tem piada as outras de que falo também, só acredita neste PM quem realmente não tenha memória ou seja distraido(a), é que nem as maquilhagens o safam, passar de animal feroz a cordeiro tem o que se lhe diga.
    ESTAMOS FARTOS.

  4. Pois é, Pedro. Também acho que a viragem à esquerda do PS será favorável ao PSD. É que se o PS perdeu metade dos votos para o PCP e BE, não é menos verdade que perdeu a restante metade para o PSD/CDS. A dificuldade para os estrategas socialistas é elaborar uma estratégia que vise recuperar os eleitores de ambos os lados. Situação que, basta pensar no congresso nacional em que Vital Moreira foi anunciado, o PS nunca pensou ter de enfrentar. Na altura, o PS fez por ignorar o PSD e tornar o BE no seu principal adversário. No fim, nem conseguiu impedir a subida do BE, nem a direita se mostrou tão irrelevante como na altura quiseram crer.

    1. Pois, Jorge. Mas a perda de votos para a direita não foi tão elevada como para a esquerda. Cerca de metade dos votos PS fugiram para BE e CDU, a restante metade para PSD, brancos e nulos (estes últimos tiveram mais de 6%, o que é significativo). Quem votou PSD e CDU nas europeias não votará PS nas legislativas. Sócrates só pode pensar em recuperar votos fugidos para o BE, brancos e nulos (além de mobilizar abstencionistas).

  5. Concordo com tudo o que aqui foi dito/escrito.
    Permitam-me dizer que o PS, nas legislativas, também vai buscar votos do PSD e do CDS-PP.
    Estão a esquecer os votos daqueles que estão reféns do PS e não têm outra escolha.
    Por favor não me crucifiquem mas, infelizmente, é verdade.

    1. Não creio que o PS consiga ir buscar votos ao PSD e ao CDS, Virgínia. Já foi, e muito, nas legislativas de 2005. Esse tempo passou. Agora ou se expande para a esquerda, eleitoralmente, ou esbarra na parede. Por isso Sócrates já ensaiou ontem claramente um discurso mais de esquerda.

      1. Pedro, sem entrar em detalhes, tenho a certeza do que aqui escrevo.
        Talvez, um dia, antes das eleições, a MMGuedes fale disso no Jornal da Sexta.
        O PSD e o CDS têm até às eleições para reverter esta situação.

  6. Se tiveres razão ( e até admito que sim) MFL poderá começar já a pensar , com Paulo Portas, na formação do novo governo. Como já escrevi aqui no Delito, no rescaldo das europeias, essa tentação de virar agora à esquerda, será o fim de Sócrates.
    Correndo o risco de me repetir, direi que a maioria dos votos perdidos para o BE e, eventualmente, para o PCP serão recuperados por natureza. Esses eleitores quiseram mostrar o seu descontentamento a Sócrates numa s eleiçoes que encararam como “um jogo a feijões”, mas perante a eminência de uam vitória de MFL, optam pelo mal menor e votam PS. Se Sócrates ainda não entendeu isso, anda muito mal aconselhado. O que não me admira, aliás…

    1. Admito que parte dos votos ganhos pelo BE nestas europeias sejam transferíveis para o PS no Outono, Carlos. Mais difícil é a deslocação de voto do PCP para o PS. Sócrates transformou o Partido Comunista em adversário principal durante os quatro anos e meio de governo. Criou demasiados anticorpos nesta área política. O ‘papão’ da direita já não cola como antigamente. Se o Governo PS aprovou um código de trabalho mais draconiano, na perspectiva do PCP, do que o do governo PSD/CDS…

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