Legislativas (1)


Pedro Correia,

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DEBATE CATARINA MARTINS-JERÓNIMO DE SOUSA

 

Cheguei ao fim do debate desta noite na RTP informação (não valeria a pena a televisão pública tê-lo emitido em sinal aberto?) quase sem distinguir o Bloco de Esquerda do Partido Comunista. Excepto na questão do euro: o PCP faz um balanço “profundamente desastroso” da nossa integração na moeda única e o Bloco deixa claro que “a saída do euro não é a saída para a crise”.

Há também um pormenor semântico, que aliás está longe de constituir novidade: ao contrário do que sucede com Catarina, Jerónimo de Sousa faz questão de iniciar sempre as frases recorrendo à primeira pessoa do plural (“a nossa análise, o nosso projecto, as nossas propostas…”)

Em quase tudo o resto o secretário-geral do PCP e a porta-voz do Bloco de Esquerda não fizeram qualquer esforço em diferenciar-se neste frente-a-frente moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves. São ambos contra as “políticas de austeridade”, pretendem renegociar a dívida pública, estão prontos a rasgar o tratado orçamental e nem admitem ouvir falar de possíveis alianças pós-eleitorais com os socialistas, transformados em bombo da festa neste debate. 

“O PS sempre praticou políticas de direita”, sentenciou Jerónimo, sem introduzir um átomo de alteração à prédica habitual dos comunistas, campanha após campanha. “O PS, nas questões de fundo, não se distingue da direita”, sublinhou a porta-voz bloquista, de olho verde mas discurso bem vermelho.

De um lado venta, do outro chove: Bloco e PCP contentam-se em ser partidos de protesto. E como se somariam a um hipotético executivo socialista se não se dão sequer ao incómodo de juntar forças numa plataforma eleitoral comum?

Jerónimo pareceu fatigado, Catarina esteve mais fresca e exibiu palavra mais solta, chegando a conceder arguta e merecida vénia ao parceiro de debate: “O Bloco é muito devedor da luta e do combate do PCP.” A dado momento um plano televisivo fixou-a a mirar com ar carinhoso para o histórico comunista: parecia uma neta a contemplar o avô.

Estes pequenos apontamentos visuais proporcionados pela indiscrição das câmaras tornam-se quase sempre os aspectos mais interessantes dos debates em que os protagonistas fazem tudo para ocultar divergências, como foi o caso. No final, outra pequena diferença: Catarina, desfavorecida nas sondagens, apelou explicitamente ao voto dos abstencionistas militantes. Jerónimo nem se deu a esse incómodo: com saber de experiência feito, ele não ignora que a batalha à esquerda do PS está antecipadamente ganha pelo PCP.

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FRASES

Catarina – «O PS, para fazer um governo de direita, precisa de um partido de esquerda? Não. Pode fazê-lo com partidos de direita. Não é para isso que cá estamos, de certeza.»

Jerónimo – «Nós defendemos a ruptura com este caminho para o desastre a que a política de direita tem conduzido o País.»

Catarina – «O PS tem um alinhamento completo com o PSD e o CDS no que é essencial.»

Jerónimo – «Temos um valioso património de trabalho unitário.»

Catarina – «As pessoas estão cansadas de uma alternância que nunca lhes trouxe alternativa.»

Jerónimo – «Ninguém é dono dos votos dos portugueses.»

0 comentários em “Legislativas (1)”

  1. Concordo em substância com sua interpretação. Mas o bloco vai subir. Eu sempre disse que era importante que o PCP e o BE saíssem reforçados, o que ocorrerá.
    A próxima legislatura vai confirmar o quão eles são importantes para as mudanças que ocorrerão.

    1. A questão aqui não é se estes partidos sobem ou descem umas décimas mas a aversão que ambos sentem em tornar-se alternativas de governo. A questão – que deixa muita gente perplexa – é por que motivo, não apresentando qualquer diferença digna de registo, tardam ambos em formar um bloco eleitoral que, potenciando o método de Hondt, lhes permitiria converter mais votos em mandatos parlamentares. Assim disputam irracionalmente votos um ao outro, impedindo essa dispersão a eleição de vários deputados.
      Com isto condenam-se à irrelevância política. Sobretudo o Bloco, que hoje pouco mais é do que um decalque do PCP. Sem a implantação autárquica e sobretudo sindical dos comunistas.

        1. São importantes na gestão de equilíbrios do sistema político e no quadro parlamentar, sim. Mas é uma importância reduzida – por exclusiva culpa própria. Porque subtraem votos mutuamente em vez de os somarem. É isso que pouca gente entende. Eu não entendo de todo.

          1. Como é que a competição entre o Bloco e o PCP “acrescenta”? Só se acrescentar a outras forças políticas, que acabam por conquistar deputados graças à dispersão de votos entre estas duas forças políticas, sobretudo nos círculos eleitorais que elegem menos parlamentares.

          2. Meu caro, você vê as coisas em termos numéricos, mas eu vejo-as pelo lado qualitativo das propostas políticas e o público alvo. A uniformidade subtrai e a pluralidade ou diversidade não, esta última complementa.

            Não se esqueça que o BE situa-se como uma força política fora dos tradicionais cânones do operariado, ainda que defenda esta classe.

            Mas de hoje em diante procurarei ser mais explicito em nossos diálogos.

          3. Há uma diferença enorme entre pluralidade e duplicação. A pluralidade em duplicado, em vez de somar, subtrai.
            Mas a questão não é aritmética: é política. Revelando convergência de posições em 95% dos temas, BE e PCP tinham a estrita obrigação de ensaiar uma pré-coligação eleitoral com vista a potenciar o método de Hondt na conversão de votos em mandatos. Assim, e dado o sistema eleitoral português, acabarão por disputar votos um ao outro, propiciando que terceiras forças aproveitem para eleger deputados graças a essa dispersão de sufrágios.
            Julgo, pela minha parte, ter sido suficientemente claro.

          4. Não há duplicação, Pedro, em minha óptica. Repare que o PCP é um partido de tradições, isto é, assente numa ortodoxia bem vincada e que vai ao encontro de seus militantes.
            Em contraponto o BE é um partido mais cosmopolita e uma esquerda mais liberal.
            Neste cenário, e como nenhum deles quererá abdicar, pelas razões expostas, dos princípios que os rege seria de todo impossível uma unificação partidária ou até mesmo uma coligação eleitoral. Logo, os acordos intra e extra-parlamentares são o caminho que deve regê-los.

            Repare na questão PSD/CDS. Esta coligação só se tornou possível pela completa anulação do CDS. Mas neste caso o que estava em causa era o projecto que o CDS tem de estar no poder e não porque exista uma coerente política de valores políticos e de causas sociais.
            O CDS tenta colmatar tudo quanto não tem através de um discurso tecnocrata que não é capaz de implementar e que também não compreende.

            Trago este tema porque as comparações ajudam a entender o sentido do que aqui produzo.

            Poderei desenvolver esta temática num post mais oportuno. Espero que o post seja seu.

          5. Percebi. Cada qual entrincheirado na sua capelinha. E depois queixam-se de que o governo “é de direita” e que as políticas “são de direita”. Quando não dão um passo – um só – para construírem uma alternativa de esquerda.

          6. Bem, vamos a uma coisa de cada vez.

            Eu não sei se a coligação ou governo é de direita. Até agora eles mostraram-me não ser nada. E o que me surpreende é o facto de quem os apoia pensar que apoia alguma coisa.
            Nós não temos um governo, temos um grupo que é manobrado de fora para fazer para fora e nada cá dentro.

            No meu comentário pretendi precisamente mostrar-lhe a minha visão sobre a importância de ter princípios e valores em que acreditar e que, apesar das diferenças, pode haver unidade com acordos.

            Aliás, a sua resposta ao meu comentário prova exactamente a tal cartilha que lhe dava conta em outro post sobre pretender-se uma ditadura da lei que coaja todos a agir, pensar e viver contra si mesmos e a favor de uma não sei quê.

            É contra esta uniformidade que sempre me insurgi. Quando o colectivo se sobrepõe ao individual deixa de haver individuo e, consequentemente, progresso. Aceita-se tudo e transformam-se todos os indivíduos numa espécie de leitões a alimentar-se de dejectos. Mas um dia virá a revolta dos porcos; e ela já está à porta.

            https://www.youtube.com/watch?v=A5wavuhrqZ0

          7. “Quando o colectivo se sobrepõe ao individual deixa de haver individuo e, consequentemente, progresso.”
            Estas suas palavras parecem-me uma crítica demasiado severa ao PCP, um partido em que o colectivo se sobrepõe sempre ao individual.

          8. Pedro, o individual aqui são os partidos. E se o individuo opta por fazer parte deste círculo ele faz uso de sua liberdade. Quando está contra rebela-se, muda ou sai.
            Isto aconteceu em todos os partidos que conhecemos.
            Mais objectivamente, em nome do colectivo não se pode limitar o surgimento de partidos. Isto é próprio dos sistemas ditatoriais de esquerda e direita.
            Não posso aceitar que um colectivo de pessoas e/ou instituições pretendam através de um governo submeter os indivíduos.
            Aliás, ao Pedro é caro o que acontece com os gays e verificará que estes são vitimas exactamente de uma mentalidade colectiva que os tem subordinado e contrariado seu progresso.

            Mas serei ainda mais preciso, em qualquer organização entendo que deve ser “lei” a liberdade para se criar e não a de conduzir. Esta norma, a última, é lei em todas as instituições da nação. Por isto mesmo pagou-se e pagam-se avultados custos no progresso tão desejado mas pouco concretizado desta nação.

          9. Meu caro, ou não entendeu a minha perspectiva ou está convencido que eu sou parte do secretariado geral do PCP. Vai ter de fazer essas perguntas aos seus militantes.

          10. Pronto. Quer dizer que aquela gente por ali é toda masoquista. Gostam de sofrer.

  2. Obrigado pelo reporte.Desisti da TV,em especial a “pública”.Há muito tempo enviei-lhes uma crítica/sugestão e nem sequer me confirmaram a recepção.
    Sabe se poderei deixar de pagar a respectiva taxa?
    Quanto ao seu relato confirmo que nada perdi,são previsíveis desde Marx.Lendo
    este estão lidos os acólitos,é sempre a descer,é que nem sequer conseguem ombrear com o profeta.

    1. O Bloco funciona hoje como uma réplica do PCP. Aos poucos, as diferenças foram-se esbatendo e tornaram-se quase indistinguíveis. Também pela sábia decisão dos comunistas de procederem à renovação geracional do seu grupo parlamentar. Uma das poucas coisas em que se distinguiam era a visibilidade geracional: o PCP parecia um partido de “velhos” e o Bloco parecia um partido de “malta jovem”.
      O nível etário médio da bancada comunista baixou em relação à do BE. E as semelhanças entre ambos tornaram-se mais notórias. Coincidem no diagnóstico, coincidem na suposta terapia, coincidem na firme decisão de não darem um passo concreto para assumirem responsabilidades governamentais no quadro de uma hipotética e sempre adiada “maioria de esquerda”.

  3. Não sou apreciador do jornalista Vítor Gonçalves (fiquei marcado pelo seu trágico-cómico salto de janela no Haiti), mas ontem esteve brilhante ao começar o debate PCP/BE com a pergunta: “digam lá o que vos distingue?”. Foi um dos raros momentos em que um jornalista fez a pergunta que se impõe, o que estarreceu ambos os inquiridos. Superado esse trauma inicial (pela Catarina, que o Jerónimo não recuperou), o resto do debate fez lembrar aquele “topos” do Pedro Correia dos dois velhos dos Marretas, ambos com uma infinito stock de críticas, mas sem a menor ideia do que fariam se chegassem ao poder, ainda que a reboque do PS (e apavorados pela hipótese de isso alguma vez vir a acontecer).

    1. Eu aprecio o Vítor Gonçalves e considero-o um bom profissional. A pergunta que ele fez é fundamental: sem que essa questão ficasse esclarecida (e não ficou) a própria razão de ser daquele frente-a-frente esvaziava-se. Como podem ser forças concorrentes dois partidos que convergem em praticamente tudo?
      Quanto aos marretas/jarretas, agradeço-lhe a referência. E para os leitores que não a conheçam, aqui fica aberta a via de acesso a essa minha série:
      http://sporting.blogs.sapo.pt/tag/jarretas

      Saudações leoninas!

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