Por ocasião do PEC2, o PSD aceitou a recolha de receitas agravadas se o montante fosse igual ao das despesas cortadas pelo Governo até ao fim deste ano. Agora com o Orçamento, o Governo aceita um corte nas despesas para o próximo ano se o PSD apresentar receitas que respeitem um saldo igual ao previsto. Portanto, ambas as partes concordam sempre desde que tudo seja igual. Só as armas são desiguais: apenas uma das partes toma conta das receitas e das despesas. Precisamente aquela que nunca cumpre, sonega informação e pinta a realidade.
Quanto a mim, já vi este filme. Quanto ao PSD, não sei.

Na mouche!
Ora bem.
Tudo tem o seu lado positivo. Por exemplo, no meu caso, a crise orçamental despertou o meu lado altruísta. Até agora, eu era um contribuinte. Sim, confesso que pagava impostos sempre com a secreta esperança de um dia, em caso de necessidade, vir a receber do Estado uma pequena contrapartida. Eu sei, eu sei que foi um comportamento tonto e egoísta. Arrependo-me, pronto! Espero que não sejam muito duros comigo agora que vi a luz… É verdade. Evoluí de contribuinte para doador. Entrego dinheiro ao Estado com a certeza de não receber nada em troca. E sinto-me muito bem assim neste estado de entrega total ao próximo (e também ao longínquo). Nas minhas preces diárias (costumo fazê-las ali para os lados da A28), agradeço a José Sócrates e a Teixeira dos Santos (e a todos os que os precederam ou auxiliam) o facto de me terem ajudado a tornar-me um ser humano melhor. Todavia, às vezes chateio-me a sério. Quando os ouço a dizer que todas estas medidas se destinam a proteger o Estado Social e a abrigar as famílias de não sei bem o quê, fico com a ideia de que insistem em dar-me uns mimos, uns agradecimentos, umas palmadinhas nas costas, em troca das minhas doações. E passo-me! Nisto de caridade, que a mão esquerda não saiba o que faz a direita. Entendido?!?! Nada de promessas de contrapartidas e vantagens, que diabo… Depois lá me acalmo. No fundo, no fundo, eu sei que a dupla em causa não vai colocar obstáculos neste meu caminho até me me tornar um sem abrigo social. Dura viagem, dirão alguns. Nada disso, quem corre por gosto, não cansa. E depois, nunca me falta companhia. Este mesmo caminho está a ser feito alegremente por milhões de portugueses. Bem hajam, embora já não haja muito para haver.
Eis uma reflexão e tanto, Rui. Tiro-lhe o chapéu pela coragem de conservar o humor da ironia de bom tom, que está em vias de extinção.
Um abraço.
Nem mais. Todos já vimos este filme, e mais do que uma vez. Se ao menos mudassem o fim, para um bocadinho mais de emoção…
Pois, pois. Vai esperando por isso.