No tempo em que o PS tinha uma ala esquerda haveria meia dúzia de vozes que se indignariam ou pelo menos revelariam alguma perplexidade perante um Orçamento de Estado "socialista" que conta com o benevolente aplauso do PSD e consagra mesmo o conceito de "bloco central alargado", abrangendo o CDS e a sua "abstenção construtiva", expressão que só poderia sair da mente inventiva de Paulo Portas.
No tempo em que o PS tinha uma ala esquerda haveria certamente alguém que se indignaria – ou, no mínimo, se interrogaria – sobre os motivos que levaram a "direita" a aprovar o mais importante instrumento governativo.
No tempo em que o PS tinha uma ala esquerda e havia sempre alguém a dizer não, soaria pelo menos uma voz a trovejar contra as negociações bem sucedidas com a ala direita do hemiciclo, o que indicia muito do que vem aí.
No tempo em que o PS tinha uma ala esquerda o primeiro-ministro seria questionado dentro do partido – e no próprio grupo parlamentar – sobre as cedências feitas ao seu programa para obter os votos necessários das bancadas da direita. Que o diga António Guterres, que passou legislatura e meia a ser fustigado por essa ala, entretanto dispersa por Bruxelas e outras capitais europeias ou hoje com assento em gabinetes governamentais.
Sócrates, que não é Guterres, neutralizou eficazmente os nostálgicos do "frentismo de esquerda" com honrarias simbólicas de todo o tipo. E a última fila da bancada parlamentar socialista, outrora um viveiro fervilhante de indignações, é hoje a montra de um "socialismo" ordeiro e cordato, que não ousa perturbar o sono do chefe. Se fosse preciso, transportaria hoje em ombros Daniel Campelo de Ponte de Lima a Lisboa enquanto se empaturrava com doses torrenciais de queijo limiano. A bem da Nação.


O Soares colocava o socialismo na gaveta, Sócrates manda-o dar uma curva para bem longe.
Com o aplauso da pseudo-esquerda do partido.
… É, sem dúvida, uma boa sugestão musical, oriunda da Islândia, para acompanhar este texto e, já agora, estas quadras (cuja temática, feliz ou infelizmente, sinto-me mais à vontade, por isso, alonguei-me):
As dívidas gigantescas
nestas contas orçamentais
atingem formas dantescas
de efeitos assaz brutais.
O regabofe astronómico
de políticas ensandecidas
é um reflexo económico
de éticas empalidecidas.
Com a actual orientação
para as finanças nacionais
é a cristalina constatação
de futuros efeitos infernais.
Não vale a pena enganar
quem se sente tão enganado,
pois não passa de um esganar
num discurso tão encenado.
Com o nosso país enrascado
por tantas loucuras desmedidas
o mexilhão fica atascado
e de esperanças aturdidas.
Muito bem, Amêijoa. A Bjork era capaz de não se importar de cantar isto.
«No tempo em que o PS tinha uma ala esquerda»
Não há alas esquerdas, nem direitas.
Antes, sob uma capa de ‘interesse colectivo/nacional’ os interesses de dada grupo e cada um.
Com as devidas excepções. Tenho sempre presente o caso de um general francês, De Gaulle. E mesmo assim…
“O código cósmico” (a física quântica como linguagem da natureza)
«Se é que existe uma tal consciência colectiva, não faço a menor ideia de como comprovar a sua existência. Aqueles que apelam para uma consciência colectiva como «a vontade do povo» fazem-no geralmente para servir os seus interesses ou as suas opiniões políticas ou sociais»
Heinz R. Pagels, Gradiva (Lisboa)
JB
Caríssimo, não acreditas em alas esquerdas e alas direitas? Se calhar também não acreditas em bruxas, certo? Mas que as há…
Abraços.
Que las hay, las hay.
Claro que acredito.
Acontece no entanto, que o pianista precisa de dois braços, o esquerdo e o direito.
E que depois de termos visto o que vimos, parece (parece), haver alturas em que é preciso usar o direito, alturas em que o esquerdo faz falta.
E que sob a capa de um ou de outro, já vimos cometer as maiores barbaridades.
Aqui está, porque fui eleitor de esqª a maior parte das vezes, agora pouco iludido.
Com esqª ou dirª.
Comecei a gostar mais de pessoas. Ou de carácter.
JB
Afinal, estamos de acordo.