Há dias soube que já existe uma fobia associada ao uso de telemóveis. Parece, segundo li, que é insuportável para um número crescente de pessoas estar sem telemóvel. A sensação de isolamento e a ansiedade a ela associada atingem, em muitos casos, níveis patológicos. Naturalmente o meu primeiro reflexo foi auto examinar-me. Concluí que tenho comportamentos de risco, espero ainda não demasiado doentios. Quando fico sem telemóvel, de facto, sofro. Não há como negar. Em minha defesa posso alegar que é um objecto indispensável para a minha actividade profissional, mas tal argumento não explica porque tenho sempre de o trazer comigo mesmo quando é suposto estar off. Quem está off, mas de telemóvel no bolso – mesmo que desligado ou em silêncio – não está realmente off. E essa é, confesso, a distância a que normalmente me permito estar do telemóvel nos meus tempos livres.
Lembrei-me depois da sobre utilização que a generalidade das pessoas que vejo à minha volta dá a estes incontornáveis objectos. Nas esplanadas, nas paragens de autocarro, no metro, em todo o lado observo gente a falar ou a clicar no telemóvel. Numa época em que tanto se fala de solidão andamos conectados mais que nunca. É curiosa esta aparente contradição. Não fosse a tal fobia ficaria, talvez, um pouco confusa. Assim, pareceu-me lógico presumir que o medo de ficar sem telemóvel e a sua utilização massiva e compulsiva são a expressão do mesmo horror ao vazio.
Pior que não ter o telemóvel à mão é não ouvi-lo tocar. Talvez porque o pior da solidão é o silêncio.


Ainda por cima, eu não posso passar sem ele e odeio telefones…
.. eu confesso que não gosto nada de falar ao telefone Teresa. Mesmo.
Quanto ao telele tenho-o sempre comigo, dado ser a única forma de contacto que possuo. Muitas vezes sem bateria o que só percebo quando começo a receber no telemóvel da filha mensagens para mim!! 😉
Como conseguíamos passar sem eles, quando conseguíamos passar sem eles?
Devo ser irrecuperável. Detesto falar ao telefone, fui uma das últimas pessoas a ter telemóvel neste país onde há dois telemóveis e meio por cidadão, recusei telemóvel “de função” e tenho o meu aparelho quase sempre em silêncio. Gosto muito de conversar, mas prefiro quase sempre o diálogo natural ao virtual. Tenho mesmo a certeza: sou irrecuperável.
Pois, temos isso em comum. Também fui uma resistente, recusei telemóveis de serviço e essa minha atitude foi vista como uma excentricidade. Até ao dia em que descobri que já não me conseguia separar de um aparelho que afinal de contas detesto e a que durante muito tempo chamei “controlo remoto”. Também detesto falar ao telefone, desde que falar ao telefone passou a ser parte do meu trabalho.
Também fui um resistente, porque já odiava o telefone tradicional. Só aderi ao telemóvel quando fui obrigado. E já foi neste século.
Não sei se percebi bem o texto. Não estou segura de que falar muito ao telemóvel signifique estar ligado.
Eu uso o tlm só para o estritamente necessário. E não me sinto muito confortável junto de pessoas que estão sempre a espreitar o tlm, a enviar mensagens, enfim… a usá-lo como se não houvesse amanhã.
Às vezes também acho que o barulho pode acentuar a solidão. Parece-me que o silêncio exterior é mau quando o silêncio interior ainda é pior. Digo eu, Teresa. Sem certezas, sabendo que “cada um é como cada qual” e discorrendo ao sabor da pena (ops, das teclas).
:)))
Vagueava ali no meu bb e dei com isto:
Escuto um rumor: é só silêncio.
E. Andrade (último verso do poema ESCUTO O SILÊNCIO, antologia breve, 50/51)
Escuto o silêncio: em Abril :))
Aprendi a “ouvir” o silêncio quando,pelos idos de 1972,passi uma semana sózinho na Berlenga: fui no último barco da época,no fim de Setembro,regressei à boleia do barco da Capitania de Peniche.Uma tenda,alguma água e latitas de conserva e livros q.b. Na altura ainda lá estavam os faroleiros(hoje o farol está automatizado) que me achavam louco, o resto eram as gaivotas, os airos e restante passarada do género. O ocre e o azul por minha conta.E o vento. É bem verdade, o meu Pai tinha ideias que nunca lhe agradeci bastante e esta foi uma delas !!
Que experiência interessante, a sua
:)))
Eu também resisti até ao limite do possível, mas agora até tenho dois: o de serviço e o pessoal. Isto não significa que goste deles, e até sou gozada por toda a gente por me esquecer deles em todo o lado, ou de me esquecer de carregá-los… só dou por isso quando alguém arranja maneira de me perguntar, habitualmente já em stress, porque não atendo o telefone. De onde concluo que não sofro dessa fobia, e ainda bem!
Há uns anos eu também já usei ” esses dois “, o pessoal e o profissional. Abandonei a prática ao fim de 5 ou 6 terríveis meses, com prejuízo económico e tudo, mas não quero saber. Já não suportava a constante frustração de não conseguir gerir os 2 aparelhos em simultâneo. Mas o que mais me custava era mesmo o triste espectáculo que me via obrigada a dar, sempre com 2 telemóveis em riste, qual executiva alardeando ao mundo a sua condição de decisora indispensável … 🙂
A inabilidade era minha, claro. Agora tenho um dois em um e quando não quero atender, deixo-o tocar em silêncio. Vantagens da sofisticação electrónica.
Oh, Chloé, eu nunca tive stress por causa disso… aqui entre nós, na maior parte das vezes não atendo nenhum deles. Mas não diga isto a ninguém… 🙂
Ah. Já percebo porque não me atendeste no outro dia. Deixaste-me em stress.
Upppps! Touchée…
🙂
Faz-me muita confusão pessoas incapazes de estarem apenas consigo mesmas na rua.
Quando estão no autocarro, quando andam a pé, quando esperam alguém ou mesmo quando conduzem, poucos são os que o fazem sem a mão nas teclas ou o aparelho ao ouvido, como se fosse insuportável enfrentar o nosso próprio silêncio. Tenho reparado muito nisto ultimamente.
Se chego depois ao lugar marcado, quem me espera está sempre com o telefone na mão ou ao ouvido, por exemplo…
Nos adolescentes esta fobia é muito acentuada e muito visível também.
Aderi tardiamente mas o meu telemóvel está quase sempre no silêncio e muitas vezes desligado, sempre que estou a trabalhar. O que me incomoda verdadeiramente são as conversas expostas a toda a gente. É que não basta estar-se permanentemente ligado, há que ter toques muito alto e falar alto sobre qualquer assunto. E detesto que não sejam desligados em compromissos profissionais como reuniões. Odioso.
Não desgosto de algum silêncio e acho muitíssimo importante que duas pessoas saibam ficar em silêncio, usando-o como uma forma de comunicação. Dizia Canetti que ‘cada língua tem o seu próprio silêncio’. Gosto muito deste aforismo.
Teresa, eu não gosto mesmo nada desse aparelho. E olhe, dê-me mais silêncios desses e vai ver que não digo que não. Estou cansado do telemóvel. Cansado!
Felizmente não sou um “telelé-dependente” e não é raro passar um fim de semana inteiro sem que saiba deles (tenho 2). Esta obsessão pela ‘contactabilidade’ permanente é uma autêntica paranóia das nossas actuais sociedades a que até agora tenho conseguido saber resistir.