Haiti: haverá um amanhã?


Pedro Correia,

  

 

"Estava sentado na minha cama, navegando na internet, quando me apercebi do silêncio, logo seguido de um estranho rugido. Julguei que fosse um camião-cisterna a passar. Mas, tem graça, pensei – parece mais o som de um tremor de terra."

Foi assim que Jonathan Katz, correspondente da Associated Press em Porto Príncipe, iniciou o seu impressionante relato, na primeira pessoa do singular, do sismo que no dia 12 de Janeiro levou a tragédia ao Haiti. Katz, de 29 anos, não é um jornalista qualquer: radicado há dois anos no país, aprendeu a falar crioulo, idioma dominante entre a população do Haiti, e tinha a particularidade de ser o único correspondente estrangeiro ali a viver com carácter permanente, fornecendo despachos para todos os grandes órgãos de informação mundiais. A Porto Príncipe têm desaguado por estes dias legiões de repórteres oriundos dos mais diversos países, vários dos quais nunca haviam sequer sonhado desembarcar ali. Mas só ele pode testemunhar com precisão tudo quanto aconteceu desde o início.

Este desinteresse dos media internacionais pelo Haiti revela bem como é fatal para a qualidade informativa o desinvestimento nas redes de correspondentes e no envio regular de equipas de reportagem para fora do estreito perímetro das cidades onde se editam jornais, rádios e televisões. É uma consequência paradoxal da globalização: quanto mais se diluem as fronteiras entre países e continentes, tanto mais viramos as costas a realidades a que nos julgamos alheios mas que nos tocam fundo em momentos de crise grave. Porque o que sucedeu lá, naquelas proporções dantescas, pode acontecer amanhã noutra latitude. Pode também acontecer aqui.

Katz estava lá. Pôde relatar-nos, em primeira mão e com conhecimento de causa, como o inferno se abateu em poucos segundos sobre este país que poderia ser um pequeno paraíso. "A delegação da AP, uma nota de rodapé na devastação, é uma ruína inabitável, à beira do colapso. Uma cidade inteira grita por socorro. Consegui finalmente deter-me na internet tempo suficiente para me aperceber que alguns destes apelos terão resposta, de uma forma ou de outra. Mas o que acontecerá após esta ajuda, como muito do que existia aqui, desaparecer? Haverá um amanhã?"

É a pergunta, dramática mas inevitável, que fica a repercutir na mente de qualquer leitor que percorra estes parágrafos transbordantes de emoção. Haverá um amanhã para o Haiti? Haverá um amanhã para países forçados a enfrentar catástrofes naturais somadas à criminosa negligência dos homens? Haverá um amanhã para um jornalismo cada vez mais distante das parcelas do globo que só conseguem ser notícia quando são varridas pela tragédia?

17 comentários em “Haiti: haverá um amanhã?”

  1. O futuro é como o passado: incerto. Mas vale sempre a pena acreditar que o tempo é de mudança. Um dia, as coisas mudarão. Os países, os povos, a solidariedade, a governação, o jornalismo e muito mais. Um dia.

    1. O facto de haver apenas um correspondente estrangeiro no Haiti no dia em que ocorreu o sismo diz tudo sobre o crescente desinteresse por aquele país que de repente passou a dominar as manchetes mundiais. Falta pouco para que volte a ser apenas uma nota de rodapé.

  2. Pois, João, “um dia”, como eu gostaria de ver chegar esse dia ou, pelo menos, ter a certeza que os meus filhos o veriam…
    Pedro, mais uma vez, obrigada…

    1. Os correspondentes que permanecem nas mais inóspitas capitais do planeta, fazendo um trabalho tantas vezes invisível, fazem o melhor dos jornalismos. Nada a ver com o “estrelato” das megavedetas da “informação” que poisam aqui e acolá, sempre no rasto dos holofotes, confundindo tantas vezes notícia com espectáculo.

  3. Está em nós, Pedro, a resposta a essa pergunta.
    Em nós, enquanto homens, seres dotados, com vontade de alterar o fluir destes tempos.
    Em nós e na capacidade de mudarmos o que achamos estar mal. Arregaçar as mangas e começar a alterar. Descruzar os braços, desenrugar o vinco da testa que transmite sempre mais dúvidas que certezas.

    Talvez um dia possamos dizer que fizemos um bom trabalho. Ou talvez alguém o diga do que fizemos e deixámos para trás.
    Mas a resposta que se pretende, sintética e objectiva está no nosso acreditar.
    Em mais lado nenhum. Digo eu ..

  4. A resposta só pode ter uma cor: verde. De esperança. Esperança enquanto reserva da possibilidade da humanidade que ainda não construímos mas que a condição humana reclama.

    :))

  5. A diferença entre o jornalismo «a sério» e aquilo que inunda as televisões de cada vez que acontece uma tragédia é, de facto, abissal.
    A este propósito, grande artigo, o do Arturo Pérez Reverte, no «El Mundo», que no outro dia linkaste aqui. Gostei de ler!

    1. Exactamente, Ana. Insisto muito nesta questão do direito/dever dos jornalistas. Sobretudo porque são cada vez mais raras as ocasiões em que reparo que esse direito/dever é cumprido como mandam as boas regras da profissão.

  6. Caros Amigos e Concidadãos,

    Foi lançada uma petição online, oriunda dos Açores, onde se apela ao Estado Português para que se empenhe junto das Organizações Internacionais, no sentido de Portugal integrar os países disponíveis para prestar acolhimento a desalojados do Haiti, cuja evacuação em massa acontecerá em breve.

    Em muitos pontos do nosso País, particularmente nas comunidades mais pequenas, em especial em certas Ilhas dos Açores, as populações querem ajudar, mas ou não encontram forma de encaminhar a sua ajuda material, ou não dispõem de recursos financeiros bastantes para depositar nas contas/donativos que foram abertas.

    Porém, esses cidadãos de Boa Vontade, estão dispostos a oferecer os seu melhor, individual e associativa/colectivamente, para, à escala dos meios, acolherem desalojados do Haiti, proporcionando-lhes condições de vida condignas e apoio humano, de modo a que os sinistrados possam encontrar o amparo que lhes falta, o conforto que merecem, e a fundada esperança num dia melhor.

    Bem sabem os signatários que o Estado Português, várias instituições de solidariedade social e outras, tudo estão a fazer para tentar minorar a dor do Haiti.

    Nesta fase, as ajudas possíveis estão a ser feitas.

    Todavia, se nesta fase todas as ajudas importam, se todos os contributos ajudam, por conseguinte, na fase que se segue, não há-de ser diferente. A missão humanitária em torno do Haiti não poderá ser dada por encerrada quando os sobreviventes estiverem resgatados dos escombros, os mortos enterrados, os doentes assistidos e os desalojados abrigados, em espaços provisórios, criados para o efeito no local.

    O que acontecerá depois, perguntamos…
    Quando a comunicação social já não abrir telejornais com as imagens mais horripilantes, quando as consciências já não estiverem tão sensíveis, quando as maiores potências tiverem decidido sobre os destinos daquele Povo?

    Quando começar o primeiro balanço, em fase de rescaldo e, afinal, quando chegarmos à conclusão que podíamos ter tido outra atitude, evitando, pelo menos, que uma parte daquelas vítimas/sobreviventes não ficasse à inteira mercê do acaso e dos apetites mais vorazes, geradores de novas fatalidades, mais tragédias sobre a tragédia?…

    Portugal tem obrigação de antever já esse horizonte, que é curto, ou não tivéssemos dados factuais, na nossa história recente, para tal noção estar bem viva; a descolonização, o abandono de Timor-Leste ou, mais recentemente, a complexa questão posta à União Europeia relativamente à imigração clandestina.

    A tudo isso, acresce, nos Açores, outra dimensão. A sujeição às catástrofes naturais e as consequências humanas dos desastres; a emigração para os EUA e Canadá, após a erupção do Vulcão dos Capelinhos, as ajudas recebidas após o sismo de 01 de Janeiro de 1980 ou, mais recentemente, as consequências do repatriamento de segundas gerações, muitas vezes sem critério social e humano adequado.

    Se estas razões não nos não bastassem, diga-se ainda que, à medida de cada comunidade, e na devida proporção, existem hoje nos Açores meios físicos e humanos para acolher grupos de desalojados nas Ilhas, sem que isso implique qualquer sobrecarga para a coesão social existente.

    E, mais importante, existem pessoas, vontades e comunidades, aptas a desempenhar, voluntária e graciosamente, o seu contributo humanitário, sendo que tal missão muito gratificante seria para quem acolhe, elevando também a matriz humanista de Portugal, por via do gesto. Uma pequena ajuda para uns poucos. Quem nada têm e tudo precisam.

    Cumprimentos muito cordiais,

    Link para Petição:
    http://www.ipetitions.com/petition/acolherhaiti/

      1. Em nome dos signatários da Petição, eu é que agradeço, Pedro, o espaço que este espaço galáctico me concedeu. Obrigado.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *