Fora da caixa (25)


Pedro Correia,

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«Em seguida, o eleitor entra na câmara de voto situada na assembleia e aí, sozinho, marca uma cruz no quadrado respectivo da lista em que vota e dobra o boletim em quatro.»

Lei Eleitoral da Assembleia da República, art. 96.º, n.º 4

 

Há dez anos estava no auge a paranóia com a gripe A. Já ninguém se lembra: a memória das pessoas é curtíssima.

Apareciam por toda a parte aqueles desinfectantes de mãos que agora (vá lá saber-se porquê) quase só subsistem na Assembleia da República e as autoridades repetiam até à náusea que havia necessidade imperiosa de termos as mãos sempre desinfectadas. A mania – que sempre considerei absurda – do “passou bem” de mão estendida a qualquer um tornou-se obsoleta.

Furtar canetas era há dez anos actividade de risco. Não de risco policial mas de risco sanitário.

Eu – e nada tem a ver com a gripe, seja de que letra for – recorro à caneta que sempre me acompanha. Nada de confiar em esferográfica alheia: nem imagino que imprestáveis forças políticas aquilo já favoreceu antes de eu lá chegar.

72 comentários em “Fora da caixa (25)”

  1. Muito bom!

    O meu marido também anda sempre de caneta, não pega nas que se encontram à disposição na câmara de voto, nos correios, nos bancos, etc.

    Já eu sou mais distraída. Também ando sempre com uma caneta na carteira, mas, tendo de assinar ou preencher alguma coisa, nunca me lembro e pego espontaneamente na caneta à disposição do público. Depois, zango-me comigo mesma.

      1. Comer um bife em publico no dia de reflexão deveria dar multa, é um acto político, os restaurantes, pastelarias têm de fechar . É assim o Admirável Mundo Novo da cultura dominante Marxista de que o Vorph faz parte ergo: onde tudo é um acto político.

        O Vorph demonstrou bem os puritanos da “higiene” como se higiene não tivesse um propósito pratico=saúde mas fosse um acto estético. “Elitista” e “Progressista” , okay aqui fui redundante.

        lucklucky

    1. A questão não é em quem vou votar, é em quem votei.
      Se há tempo para comentar em blogs também há tempo para votar.
      Eu votei.
      Não em animais, em pessoas.
      Como não gosto de violência doméstica, nem de novos que batem em velhos, acabei por votar à Fausto
      Saudações democráticas, Vorph

      1. Também votei. E vi pessoas doentes (com muletas , com botijas de oxigénio, etc) a votar. Tenho “nojo” de todos os meus compatriotas que não exercem este Dever de Cidadania e preferem, neste dia, ir chupar gelados para uma pastelaria (escolhi pastelaria para rimar com cidadania).

        1. À minha frente, na escola do Bairro de São Miguel, em Alvalade, estava um senhor de 97 anos. Sem bengala.
          Vestido formalmente, de fato e gravata – como para uma cerimónia importante.
          E votar é, de facto, uma cerimónia importante.
          Basta pensar nas centenas de milhões de pessoas que vivem, ainda hoje, em países onde o voto é interdito.

        2. Caro Vorph,
          Repetindo o cenário de há quatro anos com quem governará o segundo partido mais votado?
          Pelas minhas contas PSD+BE+CDS+PAN terão deputados suficientes para uma solução mista.
          Será a solução?

      2. Também votei. E vi pessoas doentes (com muletas , com botijas de oxigénio, etc) a votar. Tenho “nojo” de todos os meus compatriotas que não exercem este Dever de Cidadania e preferem, neste dia, ir chupar gelados para uma pastelaria (escolhi pastelaria para rimar com cidadania).

        PS:nojo é um exagero, mas foi o que me ocorreu

        1. Consegui ir votar, e depois ir lamber um gelado numa gelataria (também rima).
          Pronto, usei o transporte individual poluente. Nem tudo foi bom.

  2. Declaro que hoje fiz duas cruzes em dois boletins de voto diferentes e ambos foram colocados na urna.

    Isabel

      1. O pior é que mesmo que escolhessemos 1 e 2, ganhariam sempre os empatas do X. Grande melão esta noite.

        (a explicação para duas cruzes em dois boletins é o facto do meu companheiro estar cego.)

        Isabel

    1. Eu também.

      Depois de votarmos na escola da mais velha, ao fim da tarde organizámos um referendo sobre o jantar, com boletins pictográficos, voto secreto e urna, para ensinar os petizes a importância do momento. Já é tradição.

      A diferença é que o boletim do jantar tem todos os pratos favoritos da pequenada, não há como perder. Ganhou pizza! 🍕

  3. Estou aqui a pensar. Será que a tinta das canetas colocadas à disposição do eleitor desaparece passadas umas horas, sendo os resultados aldrabado?

    Ou estarei a delirar.

    Hoje, em conversa, fiquei a saber que existe gente, mais velha, a pôr cruzinhas, simultaneamente, no BE, PS e PCP para haver nova geringonça.

    1. Espantei-me hoje por demorar quase um quarto de hora na fila, que não se movia.
      Perguntei depois a pessoa amiga que presta serviço cívico como membro de uma assembleia de voto e fiquei esclarecido: agora grande parte dos eleitores não se limita a votar: também fotografa o boletim de voto para depois divulgar nas redes sociais ou nas ligações telefónicas.
      Que tremenda estupidez.

      1. Pedro, eu fiz isso, porque tenho gente, na família, que me julga comunista. É uma forma de gozar com essa “malta”.

        Enviei por whatsapp, para provocar (pedi – lhes dinheiro, por ter votado em quem votei :)) .

        Por exemplo, tenho um familiar, que quando vem cá a casa, começa a destilar ódio sobre os comunistas, na tentativa de me insultar a mim. Há, infelizmente, um número crescente de pessoas que confunde a social democracia, com o comunismo. Exemplo, eu defendo a Habitação social, RSI, SNS, defendo que não se deve atribuir a uma etnia um conjunto de defeitos, a ela, intrínsecos (ex:ciganos, etc) .. bumba, sou logo comuna. Mas também defendo a redução, eliminação dos impostos sobre o trabalho/património adquirido (mas não o herdado) , a eliminação da ADSE, a possibilidade de escolher quanto se quer descontar para a SS e quanto para um PPR, por exemplo. Defendo intransigentemente a disciplina perdida nas Escolas Públicas – ex:faltas disciplinares acima de X – – chumbo automático – – aluno para casa – – avaliação psicológica dos pais e miúdos, pela Segurança Social – – negligência – – institucionalização do miúdo, com perda de subsídios sociais, caso os haja. Defendo , em termos judiciais, o agravamento da pena máxima para 30 anos de PENA EFECTIVA. Defendo a liberalização total das drogas leves…

        E depois, existem outros, que se baralham, porque já votei BE, CDS, PS, Paulo Morais . Foi a primeira vez, que me lembre, que votei PSD. Não voto clubisticamente. Penso livremente.

        Julgo que são as pessoas que fazem os Partidos e não os partidos as pessoas. A pós ideologia passa também por aqui. Rio é, neste momento, quem me inspira mais confiança.

        Se é estupidez, talvez seja. Mas também:
        “os manicómios estão cheios de gente com certezas e eu que não as tenho estou mais, ou menos certo, que elas?

  4. Liberdade de escolher a caneta.

    E estar amarrada à cabine eleitoral? Falta de confiança no cidadão, sinto-me ofendido, estão implicitamente a chamar-me ladrão!! Estou indignado.

    1. Quando fui votar nas últimas Europeias cheguei à cabine de voto e reparei que não havia caneta, apenas o cordel. Tinha uma caneta comigo, pelo que não me fez diferença; mas ao depositar o boletim de voto na urna disse a quem lá estava que a cabine não tinha caneta. Disseram-me que era a terceira vez que uma caneta desaparecia naquela cabine e já não tinham mais – e estamos a falar das Europeias, eleições para as quais, como se sabe, vota meia dúzia de eleitores. Mal por mal, nas Legislativas sempre aparece mais gente.

      Por isso, sim, há quem aproveite as eleições para arranjar canetas. Considerando o que as famílias já gastam em material escolar, se calhar não admira.

        1. Levar a caneta para casa é algo tão natural como ser F P.

          O cordel da minha era desproporcionalmente curto em relação à folha.

  5. Votar de forma imaculada
    E com indiscutível classe
    Só com a cruz desenhada
    Por Montblanc ou Caran D´Ache

    1. Isso era no tempo das vacas gordas, quando me fazia acompanhar de uma singela, mas elegante Cross.

      Agora, proletária, voto com uma esferográfica Staples, marca branca, levada de casa para não ser apanhada desprevenida e para que o voto não esteja maculado pelo abominável capital.

      Isabel

        1. A minha pequena e preta Cross ainda está guardada, à mão de momentos especiais. Mas conheço bem esse ‘desencaminhar’ no caso de livros e cd’s.

          Isabel

  6. Não uso de tanto prurido higiénico. Por norma, trago comigo caneta, mas, se a não encontre, qualquer me serve. E uso a da câmara de voto, sem me desinfectar a seguir:). É uma caneta democrata, serve a qualquer força política.
    E a mania do “passou bem” é-me agradável, ainda que saiba a sua origem algo beligerante e desconfiada. Acho mesmo um cumprimento de certa elegância entre pessoas que não se conhecem ou de pouco trato. Abraçar e beijar desconhecidos, ou conhecidos que não se destinam ao cultivo, parece-me excessivo

    1. Há dez anos, como referi aqui, ninguém tocava em nada nem em ninguém.
      Com pavor da gripe A.

      Foi só há dez anos. Mas a recordação disso é hoje já quase nula. A memória colectiva dissipa-se a um ritmo cada vez mais veloz.

      1. Ninguém tocava em nada nem em ninguém?! Ora esta, a preocupação com a gripe A não me tocou nem um pouco. E só me lembro de ver duas pessoas de máscara, às tantas por outros motivos. Também não dei por essa acerada lavagem de mãos de que fala. Capaz de ter existido em grandes centros, ora eu habito um galinheiro pequeno e as recomendações ficaram à porta:).
        Txaran: não apanhámos a tal de gripe A.

          1. Mal empregadas mãos, decerto se ressentiram de tanta lavagem e asseio com o tal líquido purificador. E da ausência dos pequenos toques quotidianos, ternuras comezinhas e domésticas. Enfim, já passou. Mas para que quereríamos nós que as pessoas lembrassem essa época de paredes e muros entre a malta?!

          2. A memória é muito curta. Há dez anos havia em Portugal uma autêntica histeria colectiva sobre a gripe A.
            Mas já ninguém se lembra.

          3. E antes foram as vacas loucas. E antes das vacas loucas foi a gripe das aves.
            Momentos de imensa histeria colectiva. Que depois desaparecem quase sem deixar rasto.

      1. Vorph, não injurie as BIC. Uso-as diariamente para trabalhar. BIC com quatro cargas de cores diferentes. Desejei-as em criança e fiquei sempre fã. Coisa rara à época, que só via em adultos.

        Isabel

          1. Vorph, há mais de 20 anos decidi que não veria filmes onde a violência fosse protagonista (de que espécie for). Só desprevenida entraria numa sala de cinema para sofrer. Pode parecer tonto e com certeza perdi e perderei bons filmes. Mas ganho em serenidade. A realidade pode ser suficientemente cruel, não preciso de vê-la ficcionada (a menos que seja escrita).

            Mas obrigada pelo conselho. 🙂

          2. A sua crítica é apelativa. Vou ponderar. Se decidir ir ver e sair de lá perturbada vou ajustar contas consigo.

            Isabel

  7. Eu tinha um longo discurso justificativo para chegar à conclusão seguinte: eu tenho vergonha de ter um primeiro-ministro como o António Costa e um presidente da assembleia da república como o “estou-me a cagar para o segredo de justiça”, mas, como o voto é secreto, não sei a quem pedir responsabilidades.
    Mas parece-me outra coisa, não tenho a certeza que o povo português, que é quem mais ordena, tenha autorizado esta solução governativa.
    Isto cheira-me a manigância de politicos sem escrúpulos. E isso não é bom.

  8. «Em seguida, o eleitor entra na câmara de voto situada na assembleia e aí, sozinho, marca uma cruz no quadrado respectivo da lista em que vota e dobra o boletim em quatro.»

    Gistava de cumprir tudo o que é indicado, mas aquele “lençol” dobrdo em quatro não cabe na ranhura da urna.

      1. E quem o vai substituir? O Miguel Pinto Luz.?

        Para além de um certo anacronismo de Rio em fazer política, contribuiu também, sobretudo, a campanha negra montada contra ele dentro do Partido e na Comunicação social. Já para não falar nas políticas revolucionárias de Passos, do ir para além da troika, na permanente ameaça do descalabro….

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