Fora da caixa (21)


Pedro Correia,

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«Quero levar os portugueses a viver habitualmente.»

Salazar (1938) 

 

Não sei se mais alguém pensou como eu. Mas achei refrescante a intervenção da candidata do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-la defender abertamente o «modo de produção comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou um partido reformista, longe de qualquer ideal revolucionário. Há quanto tempo não ouvimos Jerónimo de Sousa advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um partido verdadeiramente comunista votar quatro orçamentos de Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público de que há memória na democracia portuguesa?

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as “classes dominantes”: tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta “esquerda radical” que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o um movimento “eco-socialista”, quase pós-ideológico, new age. Por muito que isso incomode o professor Fernando Rosas, a “renegociação da dívida” e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, agora mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d’ A Internacional.

Música para os ouvidos de António Costa, que nestes quatro anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto se encarregava de seduzir largas parcelas da classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

Esquerda radical neutralizada e direita sociológica despojada das principais bandeiras: eis o balanço político de quatro anos de “geringonça”, eis o contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. E quem ainda sonhar com a revolução comunista pode sempre votar no MRPP.

 

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38 comentários em “Fora da caixa (21)”

  1. A duvida que me assola em relação ao MRPP prende-se com os 70 anos da revolução chinesa, terão gostado mais das comemorações em Pequim ou em Hong Kong?

  2. Professor Fernando Rosas que por acaso foi um dos fundadores do MRPP, parece aquela rúbrica da TVI “isto anda tudo ligado”

      1. Calma. Não convem falar muito de quem militou na esquerda radical, pois muitos deles estão agora no PS, no PSD, ou ainda mais à direita. Não convem atirar pedras aos telhados dos outros quando se tem telhados de vidro…

  3. Concordo com o Pedro, é refrescante ouvir a propaganda do MRPP. Aquilo é marxismo puro e duro, a anunciar o colapso do sistema capitalista, e leninismo puro e duro, a anunciar que esse colapso conduzirá a uma guerra universal.
    Assim é que é, aqueles tipos do MRPP são coerentes, não se vendem ao capital, não transigem com os fundamentos da doutrina!

    1. Diz-me Luís Lavoura, os MRPP’s não compram de livre vontade produtos ás malvadas multinacionais “grandes grupos económicos” promovendo assim o lucro e exploração dos “trabalhadores” em vez de formarem uma comuna ?

      lucklucky

  4. Bem observado. A sinceridade da candidata do MRPP, curiosamente, é uma lufada de ar frsco no meio de tanto “double talk”. Só por causa disso houvera de merecer uns votitos.
    E sim, os actuais, perenes, donos da esquerda PCP, BE e PS, já não são o que eram.
    PS. Nos sistema eleitorais uninominais os mentirosos e os camaleões têm vida curta. Folhagem caduca. Mudam de cor, caiem no chão, transformam-se em lixo.
    Por cá os partidos -lá dentro cheios dos mesmos de sempre- são folhagem perene seja qual for a Estação do ano.

  5. Por alturas do PREC a minha casa era perto de uma sede do MRPP, por ironia o antigo posto da GNR. Todos os dias eram dias de “festa”, tiros para o ar, o COPCON a carregar e os “proletários” a ripostar.

  6. É um engano pensar que o PCP e o BE estão mais fofinhos. Talvez mais pragmáticos, debaixo da pele new-age continuam a ser o que sempre foram.

    1. Olhe que não, olhe que não. Tornaram-se tigres de papel. Costa aplicou-lhes a anestesia burguesa. Amansando-os.
      Você imagina Jerónimo a ameaçar “partir os dentes à reacção”, como fazia Cunhal?

  7. O “desvio de direita” do PCP é óbvio e custou-lhe grandes perdas autárquicas. Vamos a ver nestas eleições, mas parece-me que o afastamento da hipótese da maioria absoluta do PS reduzirá a pressão do voto útil e a derrota não será tão grande como pareceu até há pouco. Mas gostaria de saber se ainda usam a velha palavra de ordem “assim se vê a força do PC …”

    Quanto à congregação de grupelhos sigo a análise de Cunhal, “o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”. Ou, no chilrear actual, “@ radicalism@ pequen@-burguês de fachada socialista”

    1. Cada vez me convenço mais que Cunhal, hoje, acusaria este PCP de perigoso “desvio de direita”.
      Não por acaso, alguns dos seus mais fiéis discípulos no partido foram desde o primeiro dia ferozes opositores da geringonça. Se o PCP merecesse o mesmo tratamento informativo dos outros partidos, este tema já teria sido diversas vezes abordado em jornais e televisão.
      Quanto aos bloquistas, Cunhal diria deles isso mesmo: radicais pequeno-burgueses de fachada socialista, aliados úteis da reacção, etc. Recorrendo a todo o arsenal retórico do leninismo.

  8. O que estes últimos 8 anos anos demonstram é que ao consenso do Estado de Direito liberal e social democrático que vinha praticamente dos fins, juntou-se-lhe o PCP, não por convicção mas por reconhecimento da utilidade da linguagem (o bloco já era versado no discurso legitimador liberal e na justificação do Estado social de direito. Cultua-o com um rigor subversivo assinalável e expondo as suas contradições e a falha de salvaguardas). A este consenso acresce um outro, a que chegou o PS, o consenso da aparência de boas contas!! Táctico, precário e naturalmente artificial, como tudo no PS!
    E emergiu um novo e último consenso, talvez o mais pernicioso e destruidor, ao qual chegaram por cobardia, tibieza ou mera sucumbencia o PSD e CDS, o consenso do experimentalismo social e cultural (em breve ecológico, também)!! No espaço de 45 anos passámos da feliz melancolia ao hedonismo histriónico!
    E o PS é, e sempre foi, a sínteses de todos os consensos, um consenso embriagado!!
    E tudo isto em ambiente de festa;

    1. A “síntese de todos os consensos”, precisamente, faz do PS uma espécie de reedição do velho PRI mexicano. O partido do sistema, por excelência. E, por extensão, o partido do Governo – com excepções que servem apenas para validar a regra.
      Não por acaso, o PS governou em 17 dos últimos 25 anos – com Guterres, Sócrates e Costa. Tem estado no poder durante 68% do tempo neste último quarto de século.

  9. Em jeito de anedota. A minha mãe fez parte das campanhas de alfabetização pós 25 de Abril. Durante uma reunião, o Arnaldo Matos, que eram um dos “comandantes” daquilo, disse para a minha mãe baixar o tom. Com orgulho, da minha santa mãe, ela mandou – o bugiar.

    Sim, penso que a geringonça deu cabo dos partidos da esquerda. Revelaram que no Poder não se distinguem do PS, vá lá, da sua ala mais à esquerda. É penoso ver o pessoal do Bloco /PC tentar justificar as sucessivas aprovações dos orçamentos socialistas, como penoso é assistir à traição, do PS, dos partidos que permitiram formar governo. Falta abrir espaço à Direita. À esquerda, os únicos partidos com futuro serão sociais democratas, mais nada. O marxismo está enterrado. À Direita falta Manuel Monteiro (não me venham com a ND).

  10. Quer dizer, nos tempos da cassete o problema é que porque nao evoluiam, agora o problema é que já não são o que eram. Que não se esteja de acordo com o PC de antes nem com o PC de agora, tudo bem. Agora, que o problema do PC de agora seja que não é o PC de antes, tem a sua graça.

    1. Ah, bons tempos em que o PCP defendia a ditadura do proletariado. Hoje há até comentadores residentes do partido nos canais de televisão privada, que o PCP sempre combateu em nome da estatização da sociedade.
      Quem os viu e quem os vê…

      O comunismo em Portugal (excepto o do MRPP) já não é o que era. Amoleceu, aburguesou-se, socialdemocratizou-se. Agora o PCP até apoia um governo que recorre por sistema à requisição civil para invalidar o direito à greve e deixa em patamares mínimos o investimento público. E vota ordeiramente os orçamentos desse governo, obcecado com o equilíbrio das contas públicas, ao ponto de se gabar de ter atingido o défice mais baixo da democracia.

      1. Fala-se pouco disto. Desde logo porque os “comentadores” funcionam em cartel, plagiando-se mutuamente.
        Com raras e honrosas excepções.

        Devia-se falar muito mais. Destes e de outros assuntos.

  11. Noutro dia, reparei foi noutra coisa: nos tempos do PREC, o MRPP eram os “Meninos Rabinos Pinta Paredes”. E era verdade, eram maioritariamente estudantes (liceais, universitários), miúdos muito jovens. Agora, são, essencialmente, “camaradas” de meia-idade avançada, quando não mesmo bastante entradotes. Alguém devia gastar umas horas a reflectir sobre este “case study”.

  12. A questão é que não se trata dos “meninos rabinos” que, naturalmente, envelheceram. A militância actual do MRPP é que foi pescar na 3ª idade ou só lá consegue recrutar. Da primeira geração. restam poucos ou nenhuns.

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