Poucas sociedades sabem o que querem. Pelo contrário, sabem muito melhor o que não querem. As emoções toldam a razão e quem aspira a liderar uma sociedade, mais do que mostrar razoabilidade, bom sendo e visão de futuro, o que necessita mesmo é de um discurso que gere emoções. Quanto mais emocional for a sociedade, e por exclusão de partes menos racional, mais esta regra se aplica.
O medo é a emoção que melhor explica a recente maioria absoluta do PS. Os portugueses tiveram medo que o PSD ficasse refém do Chega, tiveram medo que as reformas que Rio pretendia fazer exigissem cortes como no tempo da Troika e tiveram medo das mudanças que sabem que com PS nunca ocorrerão. É certo que também não queriam uma maioria absoluta, fosse de que partido fosse, mas foi exactamente a soma de todos os medos que a explica. Sabendo que este seria o resultado, estou certo que muitos dos que votaram PS não o fariam.
Há muitos anos que os portugueses não votam movidos por emoções positivas. Lembro-me do tempo do cavaquismo e do entusiasmo de sentir na algibeira o real crescimento económico. O ânimo nacional pelo trajecto conseguido desde a instauração da democracia deixava-nos orgulhosos. Esse tempo teve o seu momento mais alto na Expo98 e depois disso tudo começou a arrefecer. No optimismo nacional, o euro2004 já não foi mais que um Verão de São Martinho.
Depois desses tempos, os portugueses passaram a decidir movidos por sentimentos negativos. Quiseram castigar os excessos do cavaquismo, quiseram castigar Guterres por ter desistido, Durão Barroso por ter emigrado, Manuela Ferreira Leite por ser cavaquista e austera, e Sócrates por nos ter levado à falência. Estranhamente votaram mais tarde maioritariamente na coligação PAF, mas apenas porque ainda não se tinham esquecido da bancarrota. Depois disso os portugueses votaram contra a austeridade e desta vez votaram com medo do Chega e das reformas.
E assim vamos andando. Faltos de esperança e de ambição.
Olhando para qualquer um dos candidatos que possam a breve prazo vir a liderar o PSD, o ainda maior partido da chamada direita portuguesa, não antevejo em nenhum deles a capacidade de dar voz e corpo a uma mensagem positiva, a uma emoção mobilizadora que não seja contra algo. Daqui a quatro anos, quase cinco, talvez possa ser apelativo querer acabar com os excessos da maioria absoluta do PS, mas apesar do tempo se mover com demasiada rapidez, ainda falta muito para chegar a esse dia e o próximo líder antes disso terá de lutar para sobreviver a uma longa travessia do deserto. No PSD o sangue novo é escasso. O carreirismo jotista só fica atrás do do PS e apenas pela incapacidade de chegar ao poder.
Carlos Moedas será actualmente o único possível líder dos sociais-democratas capaz de criar uma mensagem positiva, mas estou certo que cumprirá o seu mandato à frente da Câmara Municipal, sendo que pela natureza da política autárquica um mandato é sempre insuficiente para deixar um legado.
Tal como vimos no passado dia 30, sem uma alternativa pela positiva, o PS e a sua máquina de comunicação com tentáculos em quase todos os órgãos de informação, é capaz de resistir às mais dolorosas tragédias como as dos incêndios florestais, a assaltos a instalações militares, a um governo quase siamês do de Sócrates, ao nepotismo, aos clãs familiares de poder, ao caso Raríssimas, ao assassinato de um cidadão às mãos do SEF, às infindáveis trapalhadas e literais atropelos de Eduardo Cabrita, ao colapso do SNS durante a pandemia, à emigração continua da geração com a melhor formação académica de sempre, à domesticação das instituições que deveriam servir de contra-peso ao poder e que pouco a pouco estão todas nas mãos dos boys e girls socialistas. A eles tudo lhe é perdoado, tudo é relativizado.
Ainda antes da vergonhosa trapalhada com os votos dos emigrantes, sobre o que a Cristina e o jpt já aqui postaram, a saúde da nossa democracia já tinha descido vários pontos nos rankings internacionais. Não será esta maioria absoluta que irá inverter a tendência. Antes pelo contrário.
As ondas de choque desta incompetência chegaram agora ao Tribunal Constitucional, que ordenou a repetição do acto eleitoral no círculo da Europa. O mais previsível é que venha a verificar-se uma enorme abstenção. Os nomes de quem está por detrás deste triste episódio não estão certamente guardados nos paióis de Tancos, pelo que seria importante que fossem tornados públicos. Não que o envolvimento nesta vergonha os impeça de virem a assumir relevantes cargos públicos, mas pelo menos para quando isso acontecer entendermos que são nestes detalhes que se alimentam os partidos de protesto. Já aqui escrevi também sobre o benefício que o PS retira do vigor do Chega, e de como a relação entre estes dois partidos pode ser descrita, recorrendo ao conceito de externalidade positiva usada em microeconomia. Ambos ganham com a existência do outro, tal como no exemplo académico do pomar que tem uma colónia de abelhas na vizinhança.
Não preciso de dizer o quanto desprezo a agremiação de André Ventura, mas para encerrar este capítulo só faltava agora era que fosse o terceiro partido mais votado a conseguir um dos dois mandatos ainda por apurar. Isso seria um hino aos sentimentos negativos que nos trouxeram até aqui.

O medo que tolhe não sendo assassino comete suicídio.
No longo prazo será apenas um adiamento. Tal como acontece como muito dos actuais descendentes dos governantes do regime anterior, no futuro os descendentes dos actuais governantes terão vergonha de o revelarem.
o assassinato de um cidadão às mãos do SEF
Um cidadão… da Ucrânia. Para nós não é um cidadão, é um estrangeiro.
Essa é boa.
Então tem que reler a Constituição porque usa o termo “cidadãos portugueses”, sugerindo que há cidadãos não-portugueses.
só faltava agora era que fosse o terceiro partido mais votado a conseguir um dos dois mandatos ainda por apurar
Dificilmente será. Eu estive na contagem dos votos internacionais, e posso dizer que, pelo que vi, o Chega tinha muito poucos votos lá.
Nem lhe pergunto se assistiu ao acordo ilegal.
Não assisti.
Eu fui delegado do meu partido na contagem de votos. Não fui o coordenador da atuação do partido nessa contagem. Esse coordenador é que terá (presumo eu) assistido ao (e participado no) acordo.
Os votos de cá chegaram para ser a terceira força politica no quadro parlamentar, mesmo assim foi excluída pelo nosso pose e mando do contraditório democrático.
E isto pasme-se, nas barbas do Presidente da Republica, figura maior ou fictícia que deve garantir o regular funcionamento das instituições, tanto mais se elas resultam da vontade do povo livremente expressa nas urnas..
É um pouco presunçoso afirmar que se sabe o que pensavam mais de 2 300 000 pessoas.
Não vai aparecer nenhum líder do PSD a impor a ideologia do PSD porque não existe nem nunca existiu nenhuma, nem no PS aliás. “Deixem-me ir ao pote agora” não conta – daí estes partidos se apresentarem sempre pela negativa.
Para azar do PSD a lógica da alternância já deixou de funcionar. A actual ideologia do PS baseia-se em tentar garantir que nada irá mudar.
Olhando para a subida das taxas de juro vamos ver como é que vai correr. Talvez seja desta vez que a realidade vai ser derrotada.
E você já se perguntou porque é que foram invalidados os votos do círculo da Europa e validados os votos de fora da Europa se a aldrabice foi a mesma? Ou isso já não convém tornar público?
Se nos puder elucidar…
Eu gostaria de elucidar, se soubesse, assim como também não sei porque é que se entoam loas ao Tribunal Constitucional, quando a unica coisa que fez foi acrescentar trapalhada e adiar a tomada de posse do novo governo. Porque a repetição dos votos além de não adiantar nada também não vai garantir a seriedade da votação, principalmente porque quem for votar já sabe o resultado das eleições.
Mas como o PSD tem prazer em empatar, seja feito à sua vontade.
a repetição dos votos além de não adiantar nada também não vai garantir a seriedade da votação, principalmente porque quem for votar já sabe o resultado das eleições
Mas sempre se fizeram repetições de votos nestas mesmas condições (isto é, sem adiantar nada e já se sabendo o resultado das eleições). Sempre que uma freguesia boicota a votação, repete-se a votação nestas mesmas condições.
Ou seja, o facto de estas condições se verificarem nunca foi razão para que se deixasse de repetir a votação.
Neste caso há ainda mais razão para repetir a votação, dado que não se sabe, em princípio, como ficará a distribuição de deputados pelo círculo.
porque é que foram invalidados os votos do círculo da Europa e validados os votos de fora da Europa se a aldrabice foi a mesma?
Porque no círculo de Fora da Europa a aldrabice ocorreu em pequena escala e foram poucos os votos anulados. Qualquer que fosse o resultado dos votos anulados (se a votação fosse repetida), a distribuição de deputados ficaria a mesma (1 para o PSD, 1 para o PS).
No círculo da Europa, conforme constatou o Tribumal Constitucional, a aldrabice ocorreu em tal escala que não se sabe se os votos anulados não poderiam (em princípio) alterar a distribuição de deputados. Ou seja, a aldrabice foi tanta que o resultado da eleição ficou em causa. Pelo que, nesse círculo a eleição tem mesmo que ser repetida.
foi a ignorância dos saloios citadinos que confundem socialismo com justiça social
autêntica disfunção pública
Não são apenas os citadinos que temem mudanças.
o mundo rural que conheci bem, faleceu há muitos anos
no meu concelho devem ter nascido umas10 crianças nos últimos 50 anos
Nicola di Bari cantava esse fim em 71
que tinha começado 20 anos antes
“Sabendo que este seria o resultado, estou certo que muitos dos que votaram PS não o fariam.” Não estou, temo, tão seguro de que a coisa seja (fosse) assim. De que a opção eleitoral tenha sido defensiva: de que tenha sido uma forma – levada involuntariamente longe demais – de evitar a possibilidade de algo, um terror difuso ainda que sabiamente fomentado, se concretizar, mais do que a meditada consolidação de algo que de facto se deseja manter ou mesmo aprofundar. Seja ou não a alternativa um possível terror.
A distribuição etária da população e, independentemente desta, a sua tremenda dependência do estado, sem mais ambição do que assegurar a cada vez mais valorizada mediocridade em que se vegeta, são como são: a revolta, se houver, só acontece no dia em que mesmo essa miséria acarinhada se perder. Ou quando for evidente, absolutamente evidente, que se está a dias de assim ser.
Foi assim ainda há não muitos anos. Mas ainda não é, de novo. E a memória é curta. Tão mais curta quanto enredada e conformada com a mera sobrevivência.
Não teremos forma de o saber, mas se as sondagem apontassem para uma maioria absoluta do PS, os resultados seriam bem diferentes.
O desprezo pelo semelhante é um sentimento negativo. Open your heart and mind.
Há uma anedota que tem a ver com cepticismo e que compara a idade de quem a conta, com o traseiro dos babuínos, mas não a vou contar aqui.
“As ondas de choque desta incompetência chegaram agora ao Tribunal Constitucional, que ordenou a repetição do acto eleitoral no círculo da Europa.”
Incompetência?! Foi uma conspiração para violar a lei.
E note-se como nenhum jornalista quer saber como aconteceu, quem aprovou. Como foi possível.
Aventuras da República Portuguesa.
Soube há dias que que para conseguir o documento único automóvel de um motociclo antigo, há uns bons anos fora de circulação, foi pedido por um serviço do estado o exacto documento de identificação do proprietário que estava válido há 15 anos atrás. Há coisas que até acabam por ter graça.
Existindo inequivocamente uma violação da lei por quem mais lá do alto tinha a obrigação de a fazer observar e cumprir, acabando por descarregar em torrente no mais alto magistrado da nação que até é mestre em direito, pareceria apropriado que o TC ordenasse a repetição do ato eleitoral em todos os círculos sem qualquer exceção.
Até porque fica também ferida de morte a condição exigível de não se poder votar parcialmente quando já são conhecidos resultados independentemente da sua abrangência territorial, para já não falar no artificial dia de reflexão perdido.
Dado o exposto não ficaria mal aos mais altos responsáveis assumindo culpas, terem a iniciativa de dada a natureza da asneira, mandar fazer tudo de novo.
A meu ver as pessoas tiveram medo da liberalização total das rendas. Uma pequenina notícia de rodapé foi o suficiente para interromper a dinâmica crescente do PSD e da IL. De repente as pessoas lembraram-se dos cortes das reformas (que nunca deviam ter acontecido) e da arrogância imbecil de criaturas como o Relvas.
Ao contrário dos desejos mais ardentes do colega balio/lavoura, que quer correr com os últimos lisboetas de Lisboa para trás do sol posto, ninguém de facto quer ter um atestado de pobreza e ter de ir viver para sítios onde há “autarcas”.
A marca distintiva dos sucessivos governos desta República medíocre nos últimos anos é a expansão do limiar da pobreza a 75% da população portuguesa — como nos tempos da Aldeia da Roupa Branca.
Sim tem muita razão. Não fosse a hegemonia liberal dos últimos anos e o centro de Lisboa continuaria cheio de lisboetas. Está como está devido a estes patifes dos neoliberais. Bem apanhado.
Não é isso que eu estou a dizer. A liberalização total das rendas implicaria que quem tem mais de 50 anos de aluguer estaria sujeito a ser corrido imediatamente sem ter capacidade de se adaptar. Eu sou pelas liberalizações mas nao se pode liberar tudo sem criar condiçoes para uma adaptaçao das pessoas a um novo regime. Há uma serie de condições que tem de ser criadas primeiro antes da passagem de um regime protegido para o salve-se quem puder dos senhorioso que querem tirar um ordenado chorudo de cada aluguer sem haver capacidade para esse nivel de rendas na sociedade portuguesa. (Isso acontece agora porque os senhorios enchem os predios com 10 brasileiros por apartamento, nao e porque haja capacidade para uma familia normal –que nao seja uma familia de funcionarios publicos– pagar uma renda)
Saberá que a aquisição é sempre realizada com o que sobra de impostos já cobrados sobre rendimentos passados, além de que a sua posse é fortemente onerada. Imagine o aumento da receita de IMI se existissem o dobro dos proprietários e de imóveis para adquirir. O desprezo e desdém pela criação de riqueza coloca a sociedade a disputar migalhas, e isso é também parte da nossa fotografia. O seu comentário comprova isso mesmo.
Não comprova nada. Só acho que não se pode abandonar as pessoas à sua sorte e mudar de regime do dia para a noite sem nunca se ter dotado a comunidade de ferramentas para isso. Querem fazer isso tudo bem, aprovo totalmente, mas primeiro ponham os ordenados a um mínimo de 1500 euros. Não produzimos o suficiente? Então também não podemos ter uma “riqueza” assente na especulação e na predação miserável do próximo.
A parte mesma má da nossa fotografia, como diz, é a ganância e falta de ética.
Com a ética que defende, o centro de Lisboa está vazio de lisboetas, um quinto dos portugueses vive na pobreza e os jovens com formação zarpam todos daqui para fora. Chegamos aqui com medo e também cheios de boas intenções.
Tem razão V. , o corte de pensões nunca deveria ter acontecido, foi mais uma mancha das muitas da Paf que mesmo assim ganhou as eleições, o problema foi o habilidoso ter perdido por poucocinho.
Com 730 mil funcionários publicos directos mais os funcionários indirectos ( que trabalham em empresas que vivem de transferências directas do OE) mais a catrefada de promessas que fizeram a todos seria difícil não vencerem mas a maioria absoluta foi mesmo um ai, muitas MOET devem ter ficado vazias.
Empurrrar os probemas com a barriga é o que se tem feito neste país, nem nos tempos da troika o SNS esteve tão mal e quem mais dele se queixa é quem mais dele precisa ( e votou PS) e afins para outros sectores do estado, continuam a sair milhares para fora todos os anos (os que têm condições), divida e brevemente serviço da divida em valores astronómicos, até a porcaria dos vouchers são discriminatórios…
O que eu não entendo é como alguém hoje em dia, na era digital e em que qualquer pessoa pode perder 5 min a ler um programa eleitoral pode ter votado Chega ou IL, não me arrogo de superioridade intelectual por dizer isto, apenas e só perdi os tais 5 min.
O PSD foi a votos sozinho, Rio foi coerente em querer demarcar-se de uns certos indivíduos do CDS que agora estão caladinhos e no PSD é ainda pior (nem títulos de imprensa aparecem), ninguém se assume porque já não vai haver pote nos próximos CINCO ANOS.
Além de estarmos a braços com uma maioria absoluta PS, temos o líder da oposição demissionário e a 3ª força politica é um partido que não sabe ou faz que não sabe que não há muitos anos Portugal era um país pluricontinental … e ainda por cima temos um PR que não protege a constituição (já não digo defender).
Vivemos de mão estendida e tutelados pelos credores e pela UE, fomos ultrapassados por países muito mais pobres que nós quando aderiram á UE, o mérito é muito mal visto, o esforço confundido com graxa e a ética uma atitude proscrita e pensar que muitos dos nossos melhores emigraram para a Venezuela para terem alguma “fortuna” na vida.
P.S. Não sou velho mas nunca senti a minha liberdade individual e privacidade tão ameaçada.
WW