Dois ou três anos antes da pandemia, comecei a ganhar gosto pela cozinha. Não enquanto apreciador de petiscos, pois sempre cultivei essa faceta, mas enquanto cozinheiro. Gosto aliás da palavra cozinheiro, agora tão em desuso porque os profissionais do ramo preferem intitular-se “chefes”, com a palavra escrita à francesa para parecer très bien. Alguns fazem-no só para esmifrarem os clientes com maior requinte.
Com os sucessivos confinamentos e as acrescidas dificuldades em abastecer-nos de comida já confeccionada fora de portas, intensifiquei o meu gosto pela culinária. Gosto de frequentar mercados, gosto de procurar receitas, gosto de planificar ementas, gosto de reunir os ingredientes, gosto de estar perto do fogão.
Como já tinha anotado aqui, passei a cozinhar quase todos os dias. E – sem falsas modéstias – prefiro comer aquilo que cozinho. Reduzi drasticamente as minhas idas a restaurantes e, quando os frequento, não têm sido raras as vezes em que dou por mim a pensar que sou capaz de fazer melhor.
Pelo que verifico nas minhas navegações internéticas, comer com critério e bom gosto é hábito em desuso. Falei aqui em tempos de umas dondocas que aterraram num restaurante lisboeta especializado em comida goesa para «ficarem a conhecer» enquanto rejeitavam tudo quanto fosse picante. Acabaram a comer bife com batatas fritas.
Lembro-me sempre delas quando tropeço nos imbecis que vão pavonear-se no Tripadvisor comentando os bitoques demasiado bem passados ou as alheiras com batatas fritas em óleo de duvidosa qualidade que acabaram de manducar numa baiuca qualquer, armados em gourmets de fancaria. Sem perceberem que apenas exibem ignorância: quem abanca num restaurante para mastigar bitoque ou alheira – aquilo a que costumo chamar “comida de taxista” – é porque nem isso sabe preparar em casa.
Chega outro sábado, é tempo de adquirir víveres e planificar os dias gastronómicos que vão seguir-se. Hoje irei experimentar frango no forno com canela e limão. Não há semana em que não experimente pelo menos uma receita nova: faz parte dos meus pequenos truques para colorir o quotidiano.
Nos próximos dias irei repetir algumas destas que agora partilho convosco. Com votos de boa semana pré-natalícia. Bom apetite!

Arroz de cabrito Raia alhada

Bife de atum com pimentos, tomate e batatas salteadas

Fettuccine all’arrabbiata Arroz de chouriço

Frango na púcara com cenouras e ervilhas Espetadas de salmão com grão-de-bico

Fusilli com tiras da vazia, cogumelos laminados, tomate seco e manjericão

Muito bom, Pedro. Comida sólida e enxutinha (como eu prefiro) sem mariquices. Haverá alguma comida tão variada e espectacular como a nossa comida caseira?
Não há. Chego cada vez mais a essa conclusão. É confrangedor ver tanta gente a abastecer-se de congelados pré-cozinhados nas grandes superfícies comerciais.
Confrangedor não é a palavra certa, é mesmo muito triste e sabe porquê ? Porque as famílias e pessoas não se podem dar ao luxo de confeccionar refeições em família ou sequer partilhar as mesmas em conjunto, são vitímas de horários de trabalho péssimos e muitos nem podem (conseguem) desligar do mesmo.
P.S. – Espero que não tenha tido azia durante o fim-de-semana.
WW
Cada vez mais gente não cozinha porque… não sabe cozinhar.
É fácil perceber isso numa fila para as caixas de supermercados. Cada vez maior percentagem de pessoas que se abastecem apenas de congelados, comida pré-confeccionada, sem passarem sequer pela secção dos frescos.
P. S. – Azia nenhuma. É mal de que não padeço.
Parabéns! A informação vem mesmo a horas. Vou encomendar. Não consigo decidir-me, tal o excelente visual de cada prato. Por aqui, pela “Cidade de Régio”, também temos dificuldade em abastecermo-nos de obter boa comida. Valha-nos o seu serviço. Obrigado, bom proveito e muita e Santa Saúde! Feliz Natal!
Já comi um excelente ensopado de borrrego aí na sua cidade. Num restaurante entretanto encerrado, o saudoso Rolo.
Ficou-me a boa memória dessa e de outras refeições que lá tive.
Boa saúde para si também, meu caro. Natal Feliz.
A minha Bíblia é a Maria de Lurdes Modesto em termos de pratos confeccionados em fogão normal, já experimentei uma boa parte do livro de receitas escolhidas, e nenhuma me saiu mal.
Mas gosto de dizer que a minha especialidade é o carvão, não só pelo sabor do grelhado mas também pelo prazer do convívio que só umas boas brasas podem dar.
Gosto do seu novo tema e fico a aguardar a avaliação do frango com canela e limão.
Carvão, sim. Mais no Verão e de preferência ao ar livre. Num apartamento citadino é sempre mais complicado.
Grelhar no ponto certo, é o segredo. Muitos portugueses presumem grelhar bem mas deixam quase sempre a carne ou o peixe excessivamente secos, já sem suco.
Há que respeitar a alheira. Dizem que é bom (não gosto).
Comida de taxista não sei o que é, mas nos tempos de EN1 dizia-se que o restaurante devia ser escolhido olhando para o número de camiões estacionados.
Há muito que deixei de frequentar restaurantes, ao almoço felizmente tinha condições de “marmitar”, pouco ou muito ao fim do mês era dinheiro, e sempre gostei de cozinhar. Havendo tempo, melhor. Volta e meia lá se comia fora, ou para estar com amigos, ou para comer coisas que não se sabe (bem) como fazer.
Mas perdeu-se o hábito de jantar em casa com amigos, trocando pelo restaurante. Não percebo a sanha de voltar a comer fora, sinto falta é de jantaradas em casa.
Há pratos em que sou conservador, atum só grelhado na chapa, temperado com sal e regado a azeite.
Ps: o grão é “natural” ou de lata?
Gosto muito de atum confeccionado assim: quanto mais simples melhor. É dos meus pratos de eleição. Com pouca grelha, relativamente mal passado.
Basta uma boa salada de acompanhamento.
Quanto aos jantares, esqueça: os tempos não estão para isso. Em casas uns dos outros, ainda menos. Já cultivei isso, noutro tempo e noutro espaço: serões de convívio em casas de malta amiga é um hábito cada vez mais em vias de extinção.
Já desisti até de promover jantares de convívio em restaurantes ou esplanadas, incluindo com colegas de blogue – saudável hábito que mantivemos durante anos.
As pessoas andam com medo, andam apavoradas, fogem desses jantares, não há hipótese. Mas são capazes de passar horas em centros comerciais atulhados de gente.
Pois, mas eu pobre incauto, esperava a descrição pormenorizada, o verdadeiro modus faciendi…
Também eu, ou então aqueles segredos mais pessoais, como acrescentar vinho do porto aos pasteis de bacalhau.
Pode ser que o Pedro Correia fique sensível e tenha pena destes aprendizes de culinária.
Vinho do Porto com pastéis de bacalhau?!
Cozinha Tradicional Portuguesa da Maria de Lurdes Modesto página 16.
É de comer e chorar por mais. Volta não volta estou a fazer pastéis. Experimente e depois diga.
Hum. Vou investigar.
De facto, assim de cabeça, não bate uma coisa com a outra
Bem, revelo aqui o que foi o meu almoço de ontem.
Como gosto de aproveitar restos, improvisei uma refeição com dois tomates picados, umas tiras de pimentos e dois dentes de alho esmagados. Fritaram num fio de azeite em chama média-alta, temperados com pimenta, salsa e uma colher de chá de cominhos em pó. Fui deitando água e deixei o molho engrossar durante um quarto de hora. Então parti dois ovos e instalei-os em covas abertas no molho – escalfaram durante cerca de 3 minutos.
Tudo servido em cima de duas fatias de pão. Simples e saboroso.
É caso para dizer que não se alimenta nada mal. Mas fotos há muitas. E as receitas…as dicas…isso é que era.
Fotos haverá muitas. Cada um tira as suas, se entender.
Estas são algumas das que vou tirando, quando tenho tempo e paciência.
Nem sempre ficam com bom aspecto, mas é o que se arranja…
Agora se anotasse também as receitas passava aqui o dia. E ficava sem tempo para cozinhar.
“Fusili com tiras da vazia, cogumelos laminados, tomate seco e manjericão” ou, como se diz em minha casa, “massa com carne”! É bem bom.
Rancho melhorado, neste caso.
Nas messes marcha carne guisada com macarrão – e ninguém se queixa.
Bravo! Mas que bom aspeto! Digno de um “Chef”.😂
Eheheh. Eles detestam que lhes chamem cozinheiros. Mas é isso mesmo que eles são. Pelo menos os que sabem realmente cozinhar.
Se como sportinguista já gostava de si e, como pessoa o admirava, agora… rebentou a escala!
Sim, senhor! Assim é que é! Bem-haja, de coração, por esta partilha. Excelente aspecto! Até cria água na boca! Os mais sinceros parabéns! De caminho permita que lhe deseje, um feliz Natal para si e todos os seus.
Viva, Maria. Obrigado por essas palavras tão simpáticas e generosas.
Feliz Natal também para si e os seus.
interessa-me a culinária ou arte de escolher e transformar os alimentos, por causa dos perigos de origem química que podem originar produtos potencialmente cancerígenos.
escrevi sobre o assunto, mas ninguém ligou ao artigo e não o publiquei. recusaram umas aulas na J de F.
deitei fora uns 3gb de artigos
devo ter conservado o meu texto num dos vários discos exteriores
É fundamental escolhermos os alimentos, os ingredientes e os temperos que consumimos.
“Comer fora”, em regra, não permite controlar nada disto.
Boa. Energia bem direccionada.
Many thanks.
Partilho o seu entusiasmo pela cozinha, se bem que não consiga partilhar o requinto dos pratos a avaliar pelas fotografias: Mas concordo: não há como comer em casa, feito por nós… Por vezes dou comigo a pensar: eu nem mereço isto!…
Aquele Arroz de Cabrito parece a F*** de Monção ao contrário, pois, lá, o cabrito fica “por cima”.
Este arroz pode fazer-se também com borrego. Há quem adore e quem deteste.
Eu gosto tanto de cabrito como de borrego. Só faço distinção geográfica: como borrego no Alentejo, cabrito nas Beiras e anho no Minho.
Quando aparece conversas de comidinhas lembro-me sempre do Luís Aparício não gostar de esparguete, e o Gomes embirrar com isso.
Um dia o Gomes virou-se para o Aparício e disse-lhe:
-Não és capaz de dizer com os dentes serrados eu não gosto de esparguete com frango.
E assim fez o Aparício com os dentes bem juntos ‘eu não gosto de esparguete com frango’, respondendo-lhe o Gomes ‘ então como merda, não há ninguém que não goste de esparguete guisado com frango’. E é verdade, é das comidas mais gostosas que se fazem em casa.
Ou então experimente esta, feita hás uns bons anos nos Olhos d’Água (Algarve).
Frigideira com azeite, cebolas às rodelas finas, com tomates às rodelas por cima e um pouco de sal. Deixar cozinhar um pouco e espalhar por cima atum de lata (o Tenório é o melhor) e deixar cozinhar um pouco para o tomate dar um corte ao sabor do atum, por fim bater uns ovos com um garfo, juntar e mexer com tudo o que está a cozinhar durante um minuto.
Acompanha com batatas fritas de pacote que servem de colher.
É o vulgar atum mexido com ovos no regresso da praia.
Experimente
Agradeço, mas já experimentei algo semelhante – sem batatas fritas de pacote e com alcaparras.
Como gosto de aproveitar restos, ontem improvisei um almoço com dois tomates picados, umas tiras de pimentos e dois dentes de alho. Fritaram num fio de azeite em chama média-alta, temperados com pimenta, salsa e uma colher de chá de cominhos em pó. Fui deitando água e deixei o molho engrossar durante um quarto de hora. Então parti dois ovos e instalei-nos em covas abertas no molho – escalfaram durante cerca de 3 minutos.
Pronto a comer. Um bom petisco servido em duas fatias de pão caseiro.
Experimente não fazer as covas no molho, mas sim nas fatias de pão, por em cima do molho abrir os ovos nas covas do pão e levar ao forno três minutos.
Cuidado que pode causar dependência de manhã, à tarde e à noite.
Agradeço a dica. Vou experimentar na próxima semana, em dia de novo aproveitamento de restos. Gostei tanto que é mesmo para repetir – agora seguindo a sua sugestão.
Eu nos últimos anos tenho aproveitado para ir aprendendo as receitas da minha Mãe de que mais gosto. Desde que vim para Lisboa que fui perguntando como fazia várias coisas, sobretudo as mais simples (foi uma alegria para mim a primeira vez que consegui fazer o feijão com massa que por tradição sempre almoçávamos ao Sábado), mas tenho-me aventurado nas mais complexas, e a coisa tem corrido bem. O coelho estufado fica um mimo, o arroz de pato não envergonha, e o frango de molho de alho já está muito satisfatório (após uma ou duas primeiras tentativas falhadas). Só falta mesmo atrever-me a tentar o bacalhau à brás dela… sempre que desço à aldeia, peço-lhe que o faça e ajudo, para ir aprendendo. E os doces, claro – ninguém na região conhece quem faça melhores suspiros.
(Ainda hoje cá em casa eu e a Ana fizemos uma carne de porco à Alentejana como dificilmente se arranjam cá em Lisboa 🙂 Mas esta receita é mesmo da Ana, reproduzida de memória dos tempos em que ela trabalhou num restaurante da Costa Vicentina, lá perto de casa)
Temos de ir aprendendo com quem sabe. Curiosamente, a minha Mãe agora anda a descobrir a Internet para aprender novas receitas 🙂
Não há como as mães (e as avós) para nos irem ensinando estas coisas, João. E (claro) nunca conseguiremos estar à altura delas nas artes do fogão…
Eu já me contento quando chego perto do sabor dos pratos da minha Mãe… claro, ela tem mais algumas décadas de muita prática..!
Ainda hoje voltei a fazer o feijão com massa à moda dela, acompanhado com linguiça picante caseira, umas tiras de costela, e servido sobre sopas de pão. Modéstia à parte, ficou divino.
Muito bem, João. Vai aproveitando bem as lições maternas: são preciosas.
Parabéns!
Ninguém precisa de dietas, se comer e cozinhar com critério e bom gosto. Praticamos a mesma política cá em casa. Mais saudável não pode ser. E aprendemos a avaliar muito melhor aquilo que comemos fora, sim.
É isso, Cristina. O nosso patamar de exigência sobe de imediato. Não apenas ao nível da confecção mas ao nível da qualidade dos ingredientes e dos condimentos.
Hoje só frequento restaurantes em casos excepcionais. E para comer algo que não faço jamais em casa.
Para comer caldeirada de peixe ou arroz de pato ou bacalhau à Brás, por exemplo, não vale a pena: isso faço eu e – passe a imodéstia – faço melhor do que na maioria dos restaurantes que conheço.
Outra vantagem de cozinhar é propiciar estas trocas de impressões. Porque raros temas são tão abrangentes. A gastronomia é um verdadeiro traço de união.
Fotos de fazer crescer aguz na boca, Pedro. Comungo do seu interesse culinário. Cozinhar faz melhor à alma do que à cintura, mas é óptimo. Tem que experimentar fazer massa fresca. Vai ver que nunca mais usa a de pacote .😋😋😋
Sim, Dulce. Hei-de experimentar. É um dos fascínios deste passatempo na cozinha: todos os dias irmos experimentando algo novo e misturando ingredientes e criando coisas à nossa maneira. Assim também evitamos comer muita porcaria.
Faz bem à saúde. E à carteira.
Delito de Degustação!
Tradição caseira, passa por alternar aos domingos: cordeiro assado, frango cuck assado, língua de vaca com ervilhas e puré.
Embora, puco cozinhe, adquiro víveres, em talho antigo e de qualidade, onde também vou, por carne arouquesa e barrosã. Em 2 “pomares”, fruta nacional e exótica, legumes, batatas, broa de milho ou centeio, queijos pequenos de ovelha (curado ou muito curado – lembrando os artesanais de Alvalade do Sado), queijo fresco ou requeijão (só de ovelha) piri piri (que também planto em vaso), Preparo molho, com ele, Em frascos diversos, com azeite (de lagares durienses ou transmontanos). Uns adubados com alho esmagado. Noutros, avivados com uísque ou brandy mais avivados, Piri piri, parte, posto inteiro, parte reduzido a massa, por moinho eléctrico. Quanto a vinhos, opto por durienses. Os da adega de vila real, são bons, na relação p/q. Da mesa região, monocastas, de touriga nacional ou tinta roriz. Paras assados, vai bem, espumante tinto, bruto. Ou Vinho do Porto novo, que se beberrica, degustando. PAra lavar bocas, água de carvalhelhos.
Muito bem. Temos aqui um menu quase completo. Nos comes e nos bebes.
Já em antecipação do Natal.
Pedro, estou inteiramente convencida dos seus dotes culinários!
E concordo consigo que não há nada como comer em nossa casa. Sabemos a qualidade dos ingredientes utilizados, a higiene com que tudo é preparado, aspetos que muitas vezes são descurados nos restaurantes.
Parabéns Pedro!
Muito obrigado, Ana.
Feliz Natal.
Bom gosto.
Sem mesmos talentos, também improviso.
Não aprecio repetições próximas – “varietas delectat”