Este século será americano


Pedro Correia,

É inútil prever os grandes acontecimentos históricos recorrendo ao bom senso. Esta é a mensagem principal que o politólogo George Friedman transmite no seu livro Os Próximos 100 Anos, que representa uma aposta deliberada e arriscada: antever o que ocorrerá no resto do século XXI.
“As pessoas sensatas são incapazes de prever o futuro. O velho slogan da nova esquerda ‘Sê realista, exige o impossível’ precisa de mudar: ‘Sê realista, esquece o impossível.’ Esta ideia está no centro do meu método”, esclarece o fundador da Stratfor, uma das mais influentes empresas privadas de análise geopolítica do mundo, nesta obra recentemente lançada em Portugal.

O que ditava o senso comum em 1900? É uma questão de Friedman. Ele próprio responde: que a Europa lideraria o mundo no novo século e a guerra seria banida do horizonte. E em 1920? Que a Alemanha, destroçada pela I Guerra Mundial, seria incapaz de ressurgir das cinzas. E em 1940? Que o globo se manteria sob a alçada perpétua do III Reich. E em 1960? Que seria inevitável um holocausto nuclear. E em 1980? Que os americanos, expulsos do Irão e derrotados no Vietname, cederiam o passo ao pujante império soviético. Considerações emanadas do senso comum de cada época – e que apenas conduziram a previsões falhadas. “A análise política convencional sofre de uma profunda falta de imaginação”, alerta Friedman.

 

Em linhas gerais, o autor d’ Os Próximos 100 Anos prevê a emergência de países como o Japão, a Turquia, a Polónia e o México como potências não apenas no plano económico mas também demográfico e militar, perante uma Rússia e uma Alemanha em declínio acelerado e uma China confinada ao seu espaço continental, sem capacidade de acesso ao Atlântico Norte ou de expansão no Pacífico, que para este pensador norte-americano serão as duas zonas-chave do século.
Os Estados Unidos, capazes de controlar simultaneamente o Atlântico e o Pacífico, centros nevrálgicos do sistema mundial de comércio, consolidarão neste século a sua posição como potência dominante à escala planetária, antecipa Friedman, que tem no seu currículo obras como America’ s Secret War e The Intelligence Edge. Os arautos do bom senso garantem que o poderio norte-americano está hoje seriamente posto em causa pela ameaça global do terrorismo islâmico. Mas o autor d’ Os Próximos 100 Anos assegura-nos que o fundamentalismo é um tigre de papel: Washington conseguirá virar o mundo islâmico “contra si próprio”, impedindo-o de lançar as bases de um grande califado fora das fronteiras do seu tradicional espaço geográfico. A história do século XXI será, fundamentalmente, a que os EUA ditarem, vaticina. E a maior ameaça a Washington não virá de longe, mas do vizinho do sul, o México, com o seu imparável crescimento demográfico e a sua sede inconfessável de reaver o Texas e restantes estados que os norte-americanos anexaram na guerra de 1846-48.

 

Bola de cristal? Não há nenhuma. O segredo é apenas evitar confundir nuvens passageiras com a realidade permanente, que só ilude aqueles que, cegos pelo “senso comum” erigido em dogma, perderam toda a capacidade de olhar.

 

Os Próximos 100 Anos. De George Friedman (Livros d’ Hoje, 2010).

309 páginas

Classificação: ***

2 comentários em “Este século será americano”

    1. O livro deixa-nos pistas interessantes, Teresa. Sobretudo na forma como desmonta a chamada sabedoria do ‘senso comum’ na previsão dos grandes acontecimentos mundiais. Vale a pena ler.

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