Há poucos filmes realizados por mulheres, menos ainda se são sobre guerra. Confesso que nem me lembro de nenhum outro para além deste surpreendente Estado de Guerra (no original, The Hurt Locker), vencedor dos Bafta e sério candidato aos principais oscares. Sobre Kathryn Bigelow, que o assina, já houve quem escrevesse: …nasceu mulher, mas filma como um homem, a quem a natureza dotou com dois pares de testículos. Não fosse sobre guerra, aposto que jamais o trabalho de Bigelow suscitaria uma avaliação feita nestes termos.
Sim, a guerra já é pr’ó menino e pr’á menina, mas há uma dimensão, onde se jogam códigos ancestrais, que só a eles pertence. Quem sabe se é por não conceberem a vida que os homens se apropriam tanto dessa coisa que apesar de todos os horrores os faz sentir dramaticamente machos e vivos.
Hemingway sustentava que a experiência da guerra era importante para um homem e fez dela uma das suas bandeiras. Dizem as más línguas que essa tão propalada vivência não passava de basófia, o que só vem confirmar que apesar de temida e odiada a guerra é mitificada pela metade da humanidade que usa uma semi-automática entre as pernas.
O nosso Lobo Antunes fez de parte significativa da sua obra uma catarse sobre a sua passagem por Angola. Assume o trauma, mas quando lá esteve não deixou de escrever à mulher, passe a ironia, o óbvio: …arriscar o pêlo dá às pessoas um certo panache, uma coqueterie da virilidade e da solidão.
Discordo do tal crítico quando diz que até parece que Bigelow tem tomates. Se ela os tivesse provavelmente não seria tão eficiente a expor as personagens do seu filme, militares especializados no desarmamento de bombas, simultaneamente jogadores e joguetes, no cenário glabro do Iraque.
Em The Hurt Locker ela de facto não filma a guerra – essa coisa que tanto fascina os homens – mas os homens na guerra, que é o que nos fascina a nós, porque os revela em estado puro, a contas com a sua capacidade de vencer o medo que é o que os move a partir do momento em que aprendem a andar à latada com os putos da vizinhança e a medir pilinhas.
Não se pense que por privilegiar esta abordagem psicológica o filme é redutor. Considero Estado de Guerra um dos filmes do género mais realistas a que alguma vez assisti. Com uma narrativa bem próxima do registo do documentário, quase totalmente despojado dos efeitos visuais do costume – vê-se muito pouco sangue. A violência aqui não se mostra, respira-se, e é este o grande requinte desta obra de baixo orçamento. Uma obra que deixa os avatares de Avatar a milhas de distância.
Na noite dos oscares vou torcer por este.


Começo por discordar de si quando diz que a guerra é mais “p’ró menino”. A guerra é uma imbecilidade e é própria dos imbecis, independentemente do sexo.
Os tomates da Katrin foi ela buscá-los ao seu ex-marido James Cameroun de quem se divorciou há dez anos. Pessoalmente e como já viu eu não gosto de filmes de guerra, provavelmente nao vou ver o filme da Katrin Bigelow, mesmo que ganhe óscares. A “nossa” Katrin é uma artista, pintora de raro talento. Continuarei a imaginá-la assim, de paleta na mão.
Quanto a filmes de guerra, recomendar-lhe ia os filmes de Clint Eastwood: A Bandeira dos Nossos Pais, e as Cartas de Iwo Jimo.
Para quem não gosta de filmes de guerra, intrigou-me essa sua recomendação aos filmes de Clint Eastwood, sem dúvida excelentes.
“Conheço” o Clint desde o tempo de “Por Um Punhado de Dólares” de Sérgio Leone.
A Bandeira dos Nosso Pais e as “Cartas de IWO Jima” são de facto filmes excepcionais, que nos fazem meditar sobre os horrores da guerra.
Filmes de guerra não fazem nada o meu género. Mas quando são excepcionais como este e os dois que citou, ultrapassam as particularidades do género que me afugentam.
Estou totalmente de acordo, porque a qualidade excepcional há-de ser sempre uma atracção que gostamos de aproveitar.
Pelo que li aqui com grande gosto, percebi que é mais uma tentação que não deve perder-se.
E daí, talvez eu vá ver o filme da Katrin Bigelow . Nunca digas desta água não beberei.
É assim mesmo, Julio Reis 🙂
Também eu, Teresa. Gostei imenso deste filme. Cinco estrelas, sem qualquer dúvida.
Teresa,
O seu texto já espevitou a minha curiosidade!
A ideia era essa, cr 🙂
CR, se acabar por não gostar e der o seu tempo e dinheiro por perdidos, vai apresentar queixa a quem?
Hehe…
Ai João você não perdoa uma….
estamos perante uma situação bem diferente…repare, eu fui ver um filme seduzida por um texto bem feito da nossa (desculpe o abuso) amiga Teresa, por isso não posso queixar-me a ninguém, uma vez que fui de livre vontade.
Eh eh eh
(Se este ano existisse, o meu dia de aniversário, completaria meio século, acha que me enrola???ah ah ah)
Foi uma década cheia de anos de boas colheitas. E os bissextos melhores ainda.
Bravo, Teresa! Parabéns. Não só teu texto é excelente como toca no ponto exacto da diferença entre homens e mulheres, no que toca à guerra: a eles interessa a guerra propriamente dita, a nós interessa o que ela revela da condição humana.
O filme já estava na minha mira (apesar do tema, que não é dos meus favoritos) mas depois de ler-te acho que vou vê-lo mesmo.
Vai ver, Ana. E vais gostar.
Obrigada, Ana. Não percas, não. Se gostas de acompanhar os oscares então não podes mesmo perder. É um filme que deslumbra pela inteligência e economia de meios com que nos revela algo de essencial sobre a verdade da guerra. Aliás, simplicidade e inteligência andam frequentemente a par em obras deste calibre.
Excepcional critica Teresa, identifico-me totalmente com ela. Nem há mais nada a acrescentar a não ser que aconselho vivamente a todos os que gostam de cinema a que não deixem de ir ver, vão ver que não se arrependerão.
Obrigada, Ariel. Em vésperas de oscares quem gosta de cinema não se deve arriscar a perder o que já é um dos filmes do ano.
A Teresa sempre insinuou… insinuou? acusou-me descaradamente de misogenia e agora vem com esta dos rapazes andarem à latada e medirem as pilinhas… Ora bolas, amuei! E não vou ver o filme!
…
…
Que raiva! para além de ter achado o texto fantástico, ainda fiquei com vontade de ir ver o filme. Raios!
Mike, isto cá para nós, que ninguém nos ouve, às vezes as mulheres também são misóginas 🙂
Conhecia a realizadora do filme “Estranhos Prazeres” que gostei muito. O seu post incentivou-me a procura do filme, vi-o hoje, e fiquei espantado com a Obra, que é prima, sim sr .
Assim até sinto que fiz serviço público ao escrever este post 🙂 Ainda bem que gostou. Só podia.
Teresa, e é que fez mesmo serviço público com este post! Acredite que sim!
Quem aqui chegar pode mais que não seja, deixar um pouco de parte os Avateres desta vida, e saber que há vida para além disso. Os filmes de guerra não são o meu genero preferido, mas se me puser a pensar, há uma boa mão cheia deles que me “encheram as medidas”. Este The Hurt locker, não é um filme fácil, mas é certamente uma experiência densa, atrevo-me a dizer quase poética. Gostei dele, inquietou-me, e estou consigo, a torcer por ele e pela Kathryn Bigelow na noite dos Óscares.
Este post está em destaque na Homepage do SAPO tab “Cinema”.
Obrigado, mais uma vez.
Obrigada, Jonas.
Apocalypse Now
Full Metal Jacket
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