Esta noite sonhei com Gramática


Maria Dulce Fernandes,

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Gramática é um conceito em desuso.

Semântica, Morfologia e Sintaxe são palavras tão estranhas, que poderiam muito bem ser nomes de personagens misteriosas dum popular Video Game, ou de uma nova série de Tv, com gelo e fogo à mistura. A apoiar esta minha afirmação temos livros, jornais, revistas, mensagens de rodapé em todos os telenoticiários, a world wide web.

O  Facebook, então, devia ser clube de futebol, com todos os pontapés na gramática que tem. Eu pessoalmente considero-me uma saramaguista de 1.ª água, não por me considerar escritora (valha-me Deus!), nem porque partilhe as crenças religiosas e políticas do nosso Prémio Nobel, mas porque a minha pontuação é algo estranha e por vezes inexistente. A minha relação com os acentos está longe de ser pacífica, especialmente porque escrever com os acentos certos dá muito mais trabalho e obriga-me e estar no meu assento mais tempo. Uso e abuso das reticências, mas quem é que nos dias de hoje não põe reticências praticamente em tudo?

Ler um teste dum aluno duma qualquer EB, Liceu, Colégio, mesmo a tese dum universitário ou uma frequência em que a resposta a uma qualquer pergunta requeira desenvolvimento, é entrar no mundo do surreal, em que o princípio, meio e fim das frases pode estar patente, mas não forçosamente por esta ordem, e os erros, principalmente nas conjugações dos tempos verbais, são gritantes.

O mais incrível é que os críticos que como eu se arvoram virtuosos e apontam os ataques assassinos à nossa língua-mãe, não estão isentos de conivência com o crime.

Já que constatámos que se torturou, bateu, cortou e moeu a gramática até se tornar picado de carne, valerá a pena continuar a pelejar ou antes fazer vista grossa, olhar para o lado, e comer os hamburgueres?

 

(Imagens do Google)

16 comentários em “Esta noite sonhei com Gramática”

  1. Semântica, Morfologia e Sintaxe são palavras tão estranhas,…
    Podia (devia?) ter acrescentado Estilística. Fora do programa, é certo, portanto fora também da Gramática, que, para ela, será um pressuposto. Fui obrigado a ler a do Rodrigues Lapa e só receio não ter aproveitado melhor. Hoje, como muitas outras coisas, é já um fardo.

  2. está melhor dito no ultimo paragrafo (olhar para o lado).
    (recentemente li um post em que o autor determinava que a palavra chave para os mais idosos ( que nós) é “aceitaçao”, de aceitar, nada a ver com acentuaçao)

    E justamente quanto a acentos, geralmente cometidos sentados, quando a Autora souber de uma regra simples e ainda facilmente assimilavel por este idoso carenciado na materia…

    1. Confesso que não tenho grande conhecimento das regras da acentuação. Aprendi que era assim, e continuo a fazer “assim”, sem nunca pôr em causa. Nem nunca irei pôr porque senão qualquer dia acontece aos acentos o que aconteceu com as consoantes mudas e desaparecem. É aí que ficamos sem perceber se determinada família tem cágado ou… não tem.

      1. é a sua praia. Ampla ou privativa, tanto faz. E existem os banhistas curiosos .

        Existem n nomes de pessoas que “perderam” os acentos mas que sao lidos corretamente.
        A Autora facilmente oferecia um punhado de palavras em que a acentuaçao diferencia como a agua do vinho tinto.
        O leitor, esforçando-se, referiria umas quantas palavras que mesmo nao tendo visivel o acento proprio sao á mesma bem lidas.
        Como é o caso do exemplo que a Autora dá. Sim, claro, tambem depende do contexto. Mas é outra a questao onde quero chegar. Nesse exemplo ter o acento á esquerda ou á direita… Bem sei que nao pode ser á vontade do fregues, que tem e há regras.
        Um exemplo : idilio. Acho que leva acento no i. Mas quem desconhecer o significado da palavra, tenha ou nao acento, vai dar ao mesmo.
        Portanto, regras sao necessarias, como na conduçao, mas tambem na conduçao é possivel conduzir á esquerda e, noutros países á direita. Sobra : com ou sem acentos, importa mesmo é ser entendido ( conseguir ler).

        1. Acredito que a fonética funcionasse, funciona para os emigrantes. Aprendem o som antes de aprender a língua. Lembro-me da minha mãe na Alemanha dizer várias ” palavras” , por exemplo ” êchuligân” e percebiam-na, mas ela se visse a palavra escrita não fazia a mínima ideia do que era. Não duvido que em alguns casos os acentos não sejam fundamentais para a leitura e para a oralidade das palavras. Mas passá-las à escrita seria um pesadelo de erros de ortografia.

  3. O meu amor pela língua (portuguesa, neste caso, mas também por todas as outras, que não se pense que escrever mal é exclusivo do nosso cantinho à beira-mar plantado) não me deixa aceitar e “assobiar para o lado”. Nem todos podemos (ou temos de) ser Eça ou Saramago, mas seria muito bom que houvesse maior interesse por escrever minimamente bem – e este conceito vai para lá da gramática e da sintaxe, tem também a ver com expor de forma inteligível o que se quer dizer. Afinal, a língua é parte muitíssimo importante da comunicação, e a comunicação é essencial para os humanos. Aceitar que tudo vale e não há qualquer problema em assassinar palavras a torto e a direito revolve-me as entranhas. É visceral mesmo, e neste aspecto sou um caso perdido, não consigo ver as coisas de outra maneira.

    1. Concordo consigo a 1000% , Ana. Antigamente, e devido às condições de vida no país, dizia-se que “é triste não saber ler”. Agora com a escolaridade obrigatória, todos sabem ler e o que é mesmo triste é não saberem escrever, nem tentarem escrever bem.

      1. Do ponto de vista funcional, saber ler dá jeito, e a escola cumpre esta função. Já ter gosto pela leitura é outra conversa, e aqui os programas pedagógicos para o ensino do português/língua portuguesa nas escolas andam de mal a pior. Complica-se tudo – a “gramática”, as obras que é preciso ler e analisar – em vez de se fomentar o prazer de ler. E ninguém me convence que o gosto por escrever bem não está ligado ao gosto pela leitura. De livros e artigos bem escritos, obviamente.

        1. Temos que estimular um bocadinho. Ha duas semanas, numa daquelas conversas avó-neta, a pequena perguntou-me o que é que eu lia quando tinha 7 anos e eu disse-lhe que lia os livros dos 5. Contei-lhe dos personagens, das aventuras, das comidas, dos locais, das bicicletas. E ela quedou-se a ouvir ao mesmo tempo que fazia perguntas. Fiquei a matutar na conversa e pensei comprar-lhe um livro dos 5, mas pensando melhor, se queria que ela se interessasse pela leitura, não podia começar por um livro longo e apenas com letras e foi então que me deparei com os mini5. Tem algumas imagens, os livros não são grandes… comprei os primeiros quatro. Já está quase a acabar o segundo. Depois discutimos as histórias. Parece-me que temos leitora!

          1. E não é que esta sua ideia vem mesmo a calhar? Tenho de comprar livros para oferecer em breve a miúdos com 7-8 anos, e estes parecem-me ser uma excelente sugestão. Obrigada!

      2. Boa tarde, e que continue a escrever boas crónicas.
        Os jovens sabem juntar letras, será que – uns quantos, talvez demais – saberão mesmo “ler” ?
        Bom fim de semana, cumprimentos

        Fernando Antolin

        1. Se os entusiasmarmos para a leitura, creio que sim. Tenho estado a preparar a minha neta nesse sentido, começar com leituras simples e aventurosas que lhe despertem o interesse, sejam divertidos e que sejam livros, como os dos crescidos (ou quase). Dez minutos de conversa chegam para discutir a leitura do dia.

  4. Não como hambúrgueres. Não tenho que mudar a minha gramática quando escrevo.
    Sou português. Falo e escrevo português, tal como os brasileiros falam e escrevem brasileiro.
    Não sei falar nem escrever brasileiro. Já os brasileiros, não sabendo falar português, conseguem escrever português. Não obedeço (nem tenho nada que obedecer) ao parolo do OA.

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