Ao Largo da Feira


#$&%#,

Largo da Feira.jpg

Não sou muito de doces. Aliás, tenho a ideia – que me é dogma – que homem que é homem não segue dado à doçaria, a esta deixando, em risonho e justificado mansplaining, como monopólio da volúpia do belo sexo. A nós os óleos e banhas da crocante chamuça, do rústico rissol, da bacalhauzada, do entrecosto a roer. A elas – e, vá lá, aos do convento – os açúcares que amainam os espíritos. É certo, é-nos permitida, e até requerida, a mera colher de café do pudim esponsal, sinal da partilha infindável que é o amor, e mesmo a de chá na musse alheia, marca do furor lascivo do amantismo. Mas só isso…

 

Na alvorada de hoje visitei a pastelaria fina da vila. Já lá havia estado, meia dúzia de vezes, “ao pão” e café. Após uma noite insone, encetei-me, em busca de alento para o dia, com uma para mim antiquérrima dupla, a Coca-Cola e a bica. Mas tamanho era o défice próprio que lhe associei – com a impudicícia permitida pela solidão e total anonimato – um “jesuíta”, bolo que terei comido com agrado na juventude impúbere.

 

E fiquei absolutamente espantado. O tal “jesuíta” é ali uma verdadeira delícia, única. Um memorável momento… E enquanto o mastigava, surpreendido, lembrei-me de que já me haviam recomendado, com fartos encómios, a pastelaria desta “Largo da Feira”, em Palmela.

 

Garanto-vos, vinde ao vinho, vinde ao belo castelo panorâmico, vinde às magníficas tulipas e entremeadas do “Miradouro” virado ao (agora fustigado) Vale dos Barris. Mas passai – até para agrado das Senhoras da vossa vida – pela pastelaria “Largo da Feira” a abastecerem-se dos tais açúcares de fabrico próprio, que estes amainam mesmo os espíritos.

16 comentários em “Ao Largo da Feira”

  1. “e mesmo a de chá na musse alheia”
    Eu diria que fica sempre bem um homem pedir uma musse desde que acompanhada com o respectivo cheirinho, de preferência brandy e depois mais um cheirinho no final para “lavar” o recipiente.
    Gostei do texto e gostei, mais ainda, de saber que as coisas estão mais calmas por aí, numa linguagem jornalística: “o pior já passou”.

    1. Sim, conheço (ou melhor, em tempos que já lá vão conheci) isso da lascívia debruada com aguardentes…
      (obrigado, o susto passou)

  2. Não tenho nada a ver com o caso, mas fico perplexo: o jpt não morava no bairro dos Olivais, em Lisboa? E agora mora am Palmela? Mudou de casa?

    1. Está perplexo, comentador balio? Pois pode então perceber a sensação, essa perplexidade, que eu sinto quase todos os dias ao ler os seus comentários…

      1. Como assim, jpt, mudou de casa e não comunicou ao colectivo?
        E então, jpt, a nova casa é comprada ou alugada?

        1. Afinal?!, o comentariado quer tornar o insigne Delito de Opinião numa revista “social”, qual vetusta “Caras” ou ansiada “Cristina”? Devo aqui mostrar a arquitectura e, até, a decoração que me alberga? “Anunciar” com quem durmo? Deixar nota, como quem não quer a coisa, de que marcas são as roupas que me envolvem? Terei assim conseguido ascender ao estatuto que tanto almejei, o de influencer?

          1. O Comité Central do colectivo do blogue fica convocado para manducar chamuças a muito breve prazo e em local a designar por sinais de fumo, não ficando este lavrado em acta com a intenção expressa de contrariar a curiosidade mórbida do comentador Lavoura.

        1. Pois,véu não ando a torcer o pipo aos coelhos nem a apanhar lagartos. E não sou vegetariano. Pelos vistos você é recolector e dá-lhe dimensão ética. Ou então é vegetariano e só come da sua horta e das chinchadas, rapinas que faz. Bom apetite

          1. Não. Não sou vegetariano.
            Os gatos da minha irmã, às vezes apanham lagartixas (sardanetas, como se diz aqui na aldeia) e trazem-nas para casa.
            Quanto ao termo chinchada, tive de ir ver ao dicionário. Afinal fazia isso quando era miúdo.
            Obrigado, aprendi uma palavra nova.

        2. peço , mas não percebo : há alguma diferença entre matar um coelho com as mãos ou com a espingarda ou com uma armadilha ? se for para comer , a mim parece-me tudo igual.
          e felizmente que ainda há quem saiba caçar . não se sabe o futuro e se os hipers e talhos duram para sempre com a tal de nuclear da moda.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *