Pedro Sánchez e Susana Díaz: socialistas numa encruzilhada
Tudo indicia que o veredicto das urnas deixará hoje a política espanhola ainda mais embrulhada, com um eleitorado fatigado a acorrer às urnas pela segunda vez em seis meses, um Executivo que se encontra em mera gestão corrente desde Dezembro e partidos que teimam em desentender-se em torno de programas e personalidades, confundindo a segunda década do século XXI com os anos 30 do século XX.
É um cenário nada auspicioso para os espanhóis e péssimo para nós, sob diversos aspectos. Interessa-nos uma Espanha próspera e tranquila, não uma Espanha convulsa, a debater-se com os seus fantasmas históricos.
Segundo o que indicam as sondagens, e de acordo com os cenários que o Diogo já aqui enumerou, creio que o mais provável é sair das urnas um frágil Executivo do PP de Mariano Rajoy, longe de conseguir maioria parlamentar mas apoiado pelos Cidadãos de Albert Rivera, podendo contar ainda com a abstenção socialista na sessão de investidura.
Este Governo terá curta expectativa de vida, que poderá prolongar-se por um período equivalente à aprovação de dois orçamentos do Estado, até ao final de 2018. Será talvez o melhor que se arranja, dadas as circunstâncias. Não creio que a irresponsabilidade política em Madrid vá ao ponto de gerar um vácuo destinado a forçar um terceiro acto eleitoral a curtíssimo prazo destinado a deixar tudo na mesma.
A vedeta eleitoral do momento é o líder do Podemos, Pablo Iglesias – antigo militante da juventude comunista, politólogo, comentador televisivo, hábil utilizador da linguagem mediática. Ao contrário de Luther King, que tinha o sonho de unir gente de todas as cores num abraço fraterno de dimensão universal, Iglesias teve o sonho de desunir a esquerda para mais tarde unificá-la sob a sua liderança carismática, com esmerada coreografia ‘podemista’ – que passa por aparecer sempre de mangas arregaçadas, tratar toda a gente por tu e usar um rabo-de-cavalo modernaço em contraste com os circunspectos socialistas e comunistas, representantes da esquerda clássica.
Depois de engolir a Esquerda Unida maioritariamente composta pelo Partido Comunista de Espanha, tendo-a levado a abdicar da sua sigla para se diluir na lista do Podemos, com escassos candidatos em lugares elegíveis, Iglesias ambiciona agora engolir também o Partido Socialista Operário Espanhol e “reconstruir” a esquerda a partir da sua mixórdia programática pós-ideológica – que é constitucionalista em Madrid e soberanista em Barcelona, social-democrata quando se vira para o centro e orgulhosamente marxista quando se vira para a esquerda.
Uma espécie de Beppe Grillo com verniz retórico académico.
O grande teste eleitoral de hoje, mais do que a um Partido Popular em relativa estagnação e a um Podemos em fase de crescimento, dirige-se ao PSOE, um dos escassos partidos europeus fundados ainda no século XIX e que chegou a ser força hegemónica na Espanha pós-franquista.
Hoje fragmentado em inúmeros feudos internos, sem uma liderança firme, dividido entre o constitucionalismo que lhe serviu de bandeira nos anos em que foi mais forte e a pulsão populista proporcionada pelo ar dos tempos, com ocasionais flirts separatistas na Catalunha, o PSOE luta no patamar da sobrevivência enquanto grande partido nacional.
Com Alfredo Pérez Rubalcaba, em Novembro de 2011, teve o pior resultado eleitoral de sempre em legislativas, recolhendo 28,8% dos votos. Já com Pedro Sánchez ao leme socialista, em Dezembro de 2015, ficou ainda pior, caindo para 22%. Em Madrid, nas autárquicas de 2015, quedou-se num distante terceiro lugar, com apenas 15,3%. Restam-lhe os feudos autonómicos da Andaluzia e Extremadura, onde governa, para emitir prova de vida. Muito pouco para um partido que em 1982, com Felipe González, conquistou a mais dilatada maioria de sempre numas legislativas espanholas.
O tempo que vai seguir-se ao escrutínio de hoje será vital para o PSOE lamber as feridas, arrumar a casa, reorganizar as suas errantes metas programáticas e eleger outro núcleo directivo, que poderá ser encabeçado pela actual presidente andaluza, Susana Díaz. Um toque de salero sevilhano a animar a modorrenta sede central socialista na calle de Ferraz, construindo uma remontada a pensar no médio prazo. Porque de políticos com vistas curtas já os espanhóis estão fartos.

![pedro_sanchez_y_susana_diaz_en_jerez0038[1].jpg pedro_sanchez_y_susana_diaz_en_jerez0038[1].jpg](http://4.fotos.web.sapo.io/i/B3b08dec1/19728289_lWgzZ.jpeg)
Caro Pedro:
O que descreve é o sinal dos tempos actuais, marcados pelos radicalismos extremos, à Direita e à Esquerda. No RU já circula um abaixo-assinado com mais de 2 milhões de assinaturas para novo referendo, redentor da provável argolada de 23.
O que leva tanta gente a deixar-se cativar por Beppes Grillos, Pablos Iglesias; Catarinas Martins, Marines Le Pens, Nigels Farages e quejandos?
O Prof. Luís Cabral tem um artigo no Caderno de Economia do Expresso, «UE, um projecto de sucesso», que é o texto mais verdadeiro e lúcido que li ultimamente sobre a UE e o embuste dos discursos pretensamente críticos, normalmente bastante acéfalos, que se têm generalizado.
Independentemente de a UE dever ser criticada e permanentemente escrutinada.
Vale a pena lê-lo.
(Manuel Silva)
Agradeço-lhe a indicação desse artigo, meu caro. É necessário reforçarmos o argumentário europeísta para enfrentar este delírio nacionalista que paira por aí, potenciado pelo pudim instantâneo das redes sociais: nada mais fácil do que apontar o dedo acusador ao outro – seja o estrangeiro, o negro, o islâmico ou “Bruxelas” – com retórica soberanista que anda a contaminar gente como Pacheco Pereira, por estes dias totalmente irreconhecível, com elogios desbragados aos ‘slogans’ do UKIP.
A deputada trabalhista Jo Cox, europeísta convicta, assassinada pelas suas ideias em plena campanha do referendo britânico, não pode ter morrido em vão.
Haha, a retórica do M.S. noutros textos é tipicamente Marxista e agora temos o centrista M.S…
O que se passa é apenas a tomada de poder no Jornalismo e Universidades desde há décadas por uma clique de Marxistas que vêm a tentar destruir o Ocidente e o resto são várias reacções a esse facto.
Interessante como de repente deixou de haver retórica sobre o “povo”. O “povo” despareceu do discurso jornalista e mediático.
Porque será? Será que as elites politico-jornalistas deixaram de gostar do povo?
Ou será que agora as coisas agora de tão óbvias que deixaram de poder usá-lo?
E a sua retórica é o quê?
Nazi?
Eu sei muito bem quem o senhor é, apesar de escondido sob esse nick name.
Um troca-tintas que foi de Esquerda durante muitos anos e que, agora (que é fácil), cavalgou a onda da Direita radical e populista.
Quando viveu dos réditos que a opção de Esquerda lhe deu não se incomodou com o Marxismo, pois não?
Remeta-se à introspecção.
E temos um novo Batista da Silva desta a vez à escala global.
Vamos ver quantos na Comunicação Social vão dar destaque como deram à dita Petição a como caíram na fraude da Petição a Favor de um novo Referendo.
http://heatst.com/uk/exclusive-brexit-2n d-referendum-petition-a-4-chan-prank-bbc-r eport-it-as-real/
E já agora a petição parece ter sido iniciada por um votante a favor do Brexit que pensava quer iria perder.
Oxalá o PODEMOS oblitere o PSOE…
Só lhe faltou explicar porquê. Assim o “debate” morre antes de nascer.
” Porque de políticos com vistas curtas (mas de bolsos fundos) já os espanhóis estão fartos ”
Não só os espanhois mas os europeus em geral e obviamente os Portugueses.
P.S. – Ainda gostava que alguém na Blogosfera fizesse um apanhado dos lugares actuais dos politicos que o deixaram de ser há menos de 1 ano em Portugal…
O que é que a situação dos políticos “que o deixaram de ser há menos de um ano em Portugal” tem a ver com a eleição de hoje em Espanha?
Caro Pedro:
Noutro comentário eu interrogava-me sobre as razões da adesão de tantas pessoas aos demagogos, desde os da extrema-esquerda, do tipo Iglesias, aos da extrema-direita, do tipo Farage.
Os argumentos superficiais, como os do senhor ww, mostram porquê: porque demasiadas pessoas pensam com a epiderme; mas exige-se que tal se faça com a massa cinzenta.
A minha tese é a de que os políticos ou são iguais à maioria do povo a que pertencem ou agem de acordo com a falta de escrutínio que lhes é permitida.
Como vivemos num mundo inundado de informação que não conseguimos processar criticamente, somo facilmente manipulados.
Este é o ambiente óptimo para a proliferação dos demagogos.
O meu ” post scriptum ” é relevante mas não ao ponto de o Pedro Correia ignorar o que escrevi nas linhas anteriores e que responde muito sucintamente (é certo) á questão do debate que colocou anteriormente.
“P.S. – Ainda gostava que alguém na Blogosfera fizesse um apanhado dos lugares actuais dos politicos que o deixaram de ser há menos de 1 ano em Portugal…”
Demagogia.
Sabe o que é o interesse?
Sabe o que é a liberdade?
Sabe o que é a cidadania?
Primeiro que tudo, o que é um “político”? Até um cidadão é um político, portanto o tal político para mim e é claro nesta frase é a forma que os ignorantes usam para apontar dedos ao vazio, sem nunca saberem bem o quê quem e como. Dantes os fenómenos e catástrofes naturais eram apontadas como caprichos ou ira dos deuses, hoje os problemas do mundo são apontados aos políticos.
Eu ia jurar que o problema são as pessoas, o conflito de interesses delas e dos outros, a liberdade ou a ausência dela, e a cidadania ou ausência dela.
Mas seja como for, está a falar daqueles políticos ou dos outros políticos? Não acha um bocadinho vago?
Mas até indo ao seu encontro, fugindo do exercício retórico, se supondo que não aceita que um político tenha outro papel na sociedade, um político tem de ser profissional desde o momento em que faz o “juramento de político”? É isso que o impede de ter interesses e despertar interesses? É isso que o torna uma espécie dotado de uma tal superioridade moral únicas e defensor máximo dos interesses dos cidadãos? Quais cidadãos? Não me diga que é contra as jotas? Essas forma políticos profissionais quase desde o nascimento.
Esse político profissional merece a minha confiança porquê? Por ser puro e casto? Pelo voto de fidelidade única a um partido e a um país? Já viu logo aí o conflito de interesses?
Depois, esse cargo é extinto e…. Um político que fique no desemprego vive de quê? Pensão vitalícia? Se calhar isso é capaz de meter lá muita gente que pouco quer saber do país…. já percebeu o problema?
Um político no desemprego é um cidadão diminuído? Então a igualdade e a Constituição são para mandar para o lixo? Os cidadãos têm tutela sobre a vida desta pessoa?
Um político no desemprego tem super-poderes altamente apetecíveis a super-vilões? É por isso que os temos de escrutinar e vigiar?
Um político no desemprego é mais atractivo para carreiras paralelas ou um cidadão comum é atractivo ao interesse da política? Quem usa quem? Quem precisa da experiência e conhecimentos deste?
Fica o exercício.
Tanto discurso para lançar uma cortina de fumo, obviamente penso com a massa cinzenta que tenho.
O que gostaria era de ver as pessoas que sairam da politica voltarem ao que faziam antes (se é que faziam alguma coisa), só isso, pois isso é que seria normal e não o que desde há décadas se passa com honrosas excepções.
Cortina de fumo? Estava só neste breve post – em tom de exercício – a aplicar-lhe a ambiguidade devida que a sua “duvida” merece. Cortina de fumo é falar-se de políticos de uma forma tão generalizada que até é difícil contra-argumentar. Políticos ao nível local? Autarcas? Do parlamento? Politicos-comentadores? Do aparelho sem funções de Estado? Políticos de quê?
Sabe, quando todos nós nos movemos por interesse/interesses, e nada neste mundo lhe alheio, fica difícil haver de repente um parcela da sociedade a exigir a outra que abdique dos seus, que seja altruísta e que ignore como chegamos até aqui como sociedade, goste-se ou não. O altruísmo é uma mentira e envolve tanto interesse como todas as outras actividades humanas. O conflito de interesses irá sempre existir, e enquanto não formos substituídos por robots, haverá sempre nas sociedades livres quem esteja mal com a vida alheia e procure impor aquilo que não quer para si nem para os seus.
Caro Pedro: 16/06/o-nascimento-de-um-pais.html
Aceite a minha sugestão e leia este post, é de 5 estrelas: http://destrezadasduvidas.blogspot.pt/20
Do blogue A Destreza das Dúvidas, de Luís Aguiar-Conraria.
(Manuel Silva)
Obrigado, meu caro. Por acaso ainda não tinha lido esse texto. Mas A Destreza das Dúvidas é um blogue que costumo acompanhar com atenção e até tenho citado com alguma frequência aqui.