Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (10)


Cristina Torrão,

Faz hoje 880 anos que se deu a Batalha de Ourique.

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Batalha de Ourique de Jorge Colaço no Centro Cultural Rodrigues de Faria.

Ainda existe bastante mistério à volta desta batalha, o que alimenta o mito. Não há, porém, dúvida de que ela foi importantíssima para D. Afonso Henriques e a unidade portuguesa. Foi a partir desse dia que ele passou a intitular-se rei, considerando Portugal um reino. Também foi a partir desta altura que o seu nome começou a ser temido no Al-Andalus (a Hispânia muçulmana). Por outro lado, relembremos algo que muita gente não considera: D. Afonso Henriques não conquistou, a 25 de Julho de 1139, um palmo de terra que fosse!

Este último aspecto foi aliás motivo de discussão sobre o local da Batalha: se Portugal acabava a algumas dezenas de quilómetros a sul de Coimbra (embora não houvesse fronteira definida entre Coimbra e Santarém; o castelo de Leiria situava-se em território hostil, constantemente ameaçado) como se foi dar uma batalha entre portugueses e muçulmanos em pleno Alentejo?

Hoje, parece ponto assento que a batalha terá surgido na sequência de um fossado com grande raio de acção. Era costume a realização de fossados de parte a parte, as tropas avançavam devastando e depredando, reunindo espólio, incluindo pessoas (que serviriam como escravos) e animais. Reunindo as suas forças em Coimbra, o rei português avançou em direcção ao Tejo, que cruzou a leste de Santarém, e continuou a avançar, atravessando o Guadiana e aventurando-se até perto de Sevilha. Por onde passava, deixava um rastro de destruição atrás de si. E não encontrou praticamente resistência, o que pode explicar o ter-se aventurado tão longe.

Em Abril, Afonso VII, o primo de Afonso Henriques, iniciara um cerco a Oreja, a nordeste de Toledo. Os governadores almorávidas de Córdova e de Sevilha reuniram um grande exército, a fim de lhe fazer frente, o que explica que os portugueses pudessem avançar facilmente e levando o Professor Miguel Gomes Martins (De Ourique a Aljubarrota, A Esfera dos Livros 2011) a considerar que os dois primos tivessem combinado as suas acções.

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Fosse como fosse. No regresso, Afonso Henriques terá cruzado o Guadiana perto de Mértola, continuando depois para oeste, a fim de evitar a cidade de Beja. Os danos provocados pela sua ofensiva devem, porém, ter sido de tal ordem, que o governador de Córdova decidiu afastar-se de Toledo, a fim de ir cortar o caminho aos portugueses. E assim se defrontaram os dois exércitos no Campo de Ourique, «uma vasta área delimitada pelas serras do Cercal e de Grândola a oeste, pela serra algarvia a sul e pelo Guadiana terminal a leste» (Miguel Gomes Martins, na obra citada).

Pouco se sabe sobre a constituição das duas hostes. As fontes portuguesas são escassas e, o que também é estranho, esta campanha não é mencionada em qualquer fonte muçulmana. Parece, no entanto, que o exército mouro era muito maior do que o cristão, a «Vita Theotonii» (Vida de S. Teotónio) refere que Afonso Henriques «derrotou cinco reis dos infiéis». Os historiadores actuais vêem algum exagero nestas palavras, se bem que, muitas vezes, os almorávidas se intitulavam de reis, sendo meros governadores de pequenas cidades.

«Terá sido nos momentos que antecederam a batalha que teve lugar o célebre episódio (…) da aclamação de Afonso Henriques (…) Erguido de pé sobre o seu escudo – à maneira germânica – pelos seus guerreiros, o príncipe, então com 30 anos, convertia-se, aos olhos dos que iriam lutar a seu lado, em rei». Este episódio (considerado “coerente e verosímil” por José Mattoso) teve certamente «um efeito profundamente moralizador no seio dos combatentes portucalenses» (Miguel Gomes Martins 2011).

Quanto à táctica, Miguel Gomes Martins é de opinião de que a cavalaria pesada cristã (em contraste com os ginetes, os cavaleiros leves e ágeis dos muçulmanos) deve ter conseguido romper e desorganizar as linhas inimigas com grande sucesso. A derrota terá tido um grande impacto no seio dos almorávidas, já que o mesmo governador de Córdova, no ano seguinte, levou a cabo um fossado, no âmbito do qual atacou e arrasou o castelo de Leiria. E, em 1144, foi a vez de Soure.

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Cavaleiros muçulmanos representados na capa de Reconquista Cristã, de Pedro Gomes Barbosa (Ésquilo 2008).

 

A verdade é que Afonso Henriques não mais deixou de se intitular rei, obtendo, em 1143, a confirmação do primo, em Zamora, embora não devesse ter sido quebrado o laço de vassalagem (que aliás nunca foi oficializado em cerimónia, permanecendo ambígua a relação entre os primos). A verdade é que o nosso primeiro rei enviou, dois meses depois da Conferência de Zamora, uma carta dirigida ao papa, prometendo-lhe vassalagem e solicitando que o libertasse do jugo do imperador da Hispânia.

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24 comentários em “Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (10)”

  1. (1) Como eram atravessados os rios (Tejo e Guadiana)? Seria interessante saber. Havendo provavelmente alguma infantaria, teria que se arranjar barcos.

    (2) É importante notar que nesse tempo (e ainda por muitos séculos) só se fazia a guerra na verão. A batalha de Ourique foi a 25 de julho, a de Aljubarrota a 14 de agosto. Todas as excursões guerreiras eram deixadas para o verão.

    1. (1) O atravessamento de rios era de facto um grande problema para os exércitos, na Idade Média. Normalmente, não tinham barcos, talvez jangadas. Aproveitavam locais onde o rio fosse mais estreito e não tão fundo e atravessavam a nado, os animais também. Talvez houvesse métodos, como o uso de troncos, ou cordas, amarradas às pessoas e aos animais e seguradas na outra margem por quem já tinha atravessado. Não estava excluído o afogamento de pessoas e animais e a perda de mantimentos, ou espólio. As jangadas seriam mais usadas para transportar carretos. Por vezes, havia pontes (também romanas), mas eram raras e mais junto a cidades (por exemplo, junto a Coimbra, havia uma ponte romana sobre o Mondego). Mas de facto não sei como foi neste caso, nem noutros. Nunca vi, em livros históricos portugueses, descrições do cruzamento de rios por exércitos, penso que não devem haver fontes que o explicitem.

      (2) Sim, no caso da Península Ibérica, havia inclusive uma espécie de acordo entre cristãos e muçulmanos: fossados, algaras e outras formas de ataques eram levados a cabo entre a Primavera (Abril/Maio) e o Outono (Outubro). Há casos, porém, em que essa regra implícita foi quebrada. E a conquista de Santarém, em Março e pela calada da noite, não respeitou igualmente o preceito. Já agora: no Verão, os rios perdem caudal, que pode ser bastante, conforme a seca. Mesmo os rios grandes, como o Tejo e o Guadiana, poderiam ter locais muito acessíveis, talvez até com ilhotas ou bancos de areia pelo meio.

      1. atravessavam a nado, os animais também

        A nado?! Carregando armas metálicas pesadas? Não me parece… A vau sim, mas nem todos os rios têm baixios que se possam atravessar a vau. O Guadiana, creio, é em todo o seu percurso bastante fundo, para além de ter remoinhos mortíferos (conheci pessoalmente uma mulher que lá morreu afogada no verão, há três anos).

        1. Como disse, não sei quase nada sobre o assunto. Li, há bastantes anos, um romance histórico em língua inglesa que fazia algumas descrições dessas travessias, mas já não me lembro bem. E, repito, ainda não me apercebi de nada sobre o tema em língua portuguesa.

          Sei que nas travessias do Canal da Mancha eram usados barcos (no transporte de exércitos). Mas em rios? Haveria, como disse, jangadas, que poderiam ser construídas na altura (não havia a pressa de hoje em dia). Mas tratar-se-ia sempre de algo perigoso, onde se perderiam pessoas, animais e mercadorias.

          1. Que eu me recorde, o Pulo do Lobo pode ser adequado para lobos atravessarem o Guadiana (que eles aliás não necessitam, os lobos são muito melhores nadadores que os humanos), mas não é nada aconselhável para humanos o fazerem. Tem cascatas e rápidos, e qualquer pé em falso é fatal. Além de que a ravina é bem difícil de descer e subir.

  2. Muito interessante, só me levanta uma dúvida, tendo Afonso Henriques contornado Beja e rumado a Oeste, para depois, certamente, inflectir a Norte e regressar a Coimbra, a que extraordinária velocidade andou um exército muçulmano, para vir de uma zona a nordeste de Toledo e apanhá-lo ainda em Ourique.

    Talvez por isso outras fontes apontem a actual Vila Chã de Ourique, junto ao Cartaxo e Santarém, como local mais plausível.

    E a ausência de referências em crónicas muçulmanas é curiosa, também.

    O devir da História não cessa de nos surpreender.

    Mantenha, por favor, a sua presença nesta “casa”, é um prazer lê-la.

    1. Caro Fernando, estive a pensar nestas suas palavras e temos de considerar que o governador de Córdova terá tido informações sobre a acção do rei português, antes de este iniciar o regresso. Ora, levou algum tempo a decidir se compensaria atacá-lo, a reunir um exército e a ponderar em que local lhe poderia fazer frente. Decerto que teria patrulhas a vigiar a rota tomada pelos portugueses, enquanto se aproximava.
      Ou seja: ele não estava perto de Toledo, soube que os portugueses se encontravam perto de Beja e decidiu ir ao encontro deles.

      O objectivo, porém, terá sido precisamente cortar-lhes o caminho, antes que virassem em direcção ao Norte.

      1. Muito obrigado pela sua informação adicional, mais do que plausível.

        A ver se o (mais ou menos) breve tempo que me falta para a reforma , lá pelo aeroporto (Lisboa), me faz retomar, com mais ritmo, o velho gosto por temas históricos.
        Nem que seja em homenagem ao saudoso professor de História, dos tempos do liceu, em Santarém, o dr. Nestor de Sousa.

        Bom fim de semana

  3. Por mera curiosidade: o que é exactamente um rasto de destruição atrás de si — numa altura em que não haveria assim tanta tralha como isso — suponho que as barracas e as bibendas com murinhos horríveis vieram depois, com os autarcas, essas luminárias do pugresso.

    Como é que os historiadores avaliam estas quantidades ou são apenas expressões literárias?

    1. Em fossados deste tipo, destruía-se tudo o que se encontrasse, isto é, aldeias e suas culturas. Um dos grandes objectivos era devastar as culturas, a fim de provocar a fome. Quem sobrevivesse, era levado, a fim de trabalhar como escravo. Os cristãos tinham escravos muçulmanos e vice-versa. No tempo da Reconquista, havia população de fronteira que enriquecia à custa de fossados destes.

        1. Quanto a números, é difícil, não há dados quanto à densidade populacional, só se pode calcular. Claro que não seria grande. É certo que, se em 100 km, se devastam duas aldeias, por exemplo, não se farão milhares de vítimas, mas destruir o meio de subsistência de 100 ou 200 pessoas, ou levá-las como escravas, é, na minha opinião, “deixar um rasto de destruição atrás de si”.

  4. José Mattoso coloca a hipótese de a batalha se ter travado perto de uma localidade pertencente ao concelho de Leiria, também chamada Ourique.
    Quanto á travessia dos rios no Verão, não julgo que constituísse qualquer dificuldade, embora transportassem animais e armas e produtos de saques.
    Quanto ao “rasto de destruição”, devemos lembrar-nos que as aldeias eram constituídas por casas sem estruturas de alvenaria, uns simples troncos com paredes e telhados de colmo, exceto as casas de nobres que não sendo ainda palácios, já possuíam outro nível de construção. Tudo isso, assim como searas, palheiros, etc eram destruídos e queimados.
    Na batalha de Ourique há ainda que considerar o milagre da aparição de Cristo ao príncipe Henrique, garantindo-lhe a vitória absoluta. Aliás, este facto sucedeu antes de outras batalhas e tomadas de castelos.
    Bartolomeu (o padre voador)

    1. Caro amigo Bartolomeu, conheço a hipótese da localidade perto de Leiria, mas penso que perdeu validade entre os historiadores, incluindo José Mattoso. Actualmente, considera-se a hipótese alentejana a mais viável.

      O milagre da aparição de Cristo a Afonso Henriques faz parte da lenda de Ourique, sim.

      1. Dizem que não foi bem em Ourique. Foi mais a nordeste em Castro Verde que dista de Ourique mais ou menos 15 Kms.

        Já andaram por lá com detectores de metais e encontraram alguns artefactos de guerra datados da época.

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