Enganos académicos


eventhorizon,

Tem sido interessante ler algumas defesas de Boris Johnson – sobretudo à direita, mas também uma ou outra à esquerda – por ele ser um “intelectual”, um “académico”, formado “em Balliol” (Oxford, vá), estudioso dos clássicos latinos e helénicos. A propósito disto ocorrem-me duas coisas mais ou menos óbvias. A primeira, que comparar o currículo universitário do novo primeiro-ministro britânico à mediocridade académica da nossa classe política não significará grande coisa – perante a “licenciatura” de Sócrates, o “currículo” de Passos Coelho ou o “português falado” de António Costa,  qualquer licenciado com um curso (qualquer curso) concluído com média de 12 nos quatro (três? cinco?) anos regulamentares que saiba a diferença entre um sujeito e um predicado parecerá um prodígio. E a segunda, quase tão evidente como a primeira, que um bom aluno não é necessariamente um bom profissional, seja na sua área de estudo ou em alguma outra. Dito de outra forma: Johnson até poderá ser um intelectual de primeira água (não faço ideia se o será), mas isso, por si só, será insuficiente para que seja um bom primeiro-ministro, ou até um primeiro ministro razoável. É um pouco como um fato de três peças: ao vesti-lo, um grunho até poderá parecer elegante, mas nunca deixará de ser um grunho. E, convenhamos: de grunhos licenciados e bem vestidos está este mundo cheio.

15 comentários em “Enganos académicos”

  1. A questão é qual? Não vale a pena ter quaisquer competências, ou tanto faz? Ou as competências prejudicam? Não vale a pena perder tempo a estudar?

    1. Bom, é preferível um intelectual de estudos clássicos aos labregos iletrados que nos governam, claro. Só que ser um bom aluno de latim e grego antigo pode não chegar para ser um bom primeiro-ministro. Veremos.

  2. Detalhes, de facto: Eton e Balliol, ter sido presidente da Oxford Union, os 10 anos como correspondente e “chief editor” do Telegraph e do Spectator, os livros publicados (que não são autobiografias, nem auto-ajuda), os 10 anos como deputado, os 8 anos como Mayor de Londres. Um “grunho licenciado”, enfim. Sigamos, sim, a Greta, com o seu 9.º ano por acabar, e a sua declarada panóplia de (respeitáveis) problemas de saúde mental – suponho que uma “sábia sem escolaridade”. Faz-me pensar porque é que damos emprego a tantos professores.

    1. Alhos e bugalhos, JPT.

      Não questiono o currículo de Johnson, apenas a defesa por ser “intelectual”. O que não faltou (falta) neste mundo é intelectuais a defender o indefensável.

      1. Caso se refira ao Brexit (que eu, que não sou britânico, acho um erro grave), é de tal modo “defensável” que mais de metade dos britânicos o defendeu. Sendo, tendencialmente, de direita, concordo entusiasticamente “que o que não faltou (falta) neste mundo é intelectuais a defender o indefensável”. Basta ver a quantidade de marxistas que, nas suas várias “iterações”, entopem as nossas faculdades de ciências sociais, e escorrem daí para as redacções e/ou para o BE. Parece-me mal é desqualificarem-nos como ignorantes, malucos e palhaços, que é o que tenho ouvido acerca do Sr. Johnson. Limitemo-nos a discordar deles.

  3. Não será dispiciendo ( hoje deu-me para aqui…) dar uma vista de olhos pelos “curricula” dos PM britânicos desde o início do sec.passado, digamos, para não a tornar muito longa…
    Mas compreende-se a (mais) que legítima preocupação de um “país” para quem o Benfica é o melhor do Mundo, o soares era um estadista e o anacleto é uma robusta inteligência…E elegemos o sócrates…e suportamos a quadrilha que o rodeava…E…
    Resumindo , somos da escola Sousa Neto : os “bifes” não têm literatura.
    Nem o resto.

    JSP

    1. Não sei se adianta a comparação. Em matéria académica, a nossa classe política recente parece mesmo muito pelintra. É ouvi-los.

      Bem lembrado, o Sousa Neto!

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