É mais fácil apascentar animais do que gerir pessoas


Pedro Correia,

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Ambicionava «dar voz aos animais». Por contraste, em apenas sete meses de exercício do cargo, a porta-voz do partido Pessoas Animais Natureza foi silenciando diversos seres humanos que gravitavam em seu redor – começando pelo número 2 da lista por Lisboa, agora seu adversário declarado. E fez recuar o PAN ao modesto patamar de 2015, quando se estreou com um deputado solitário. Pior seria difícil em tão pouco tempo.

Ao assumir o comando, em Junho de 2021, Paula Inês Alves de Sousa Real, 41 anos, passou a gerir uma jovem força partidária que elegera quatro deputados e um eurodeputado nos escrutínios de 2019. É verdade que já existiam problemas: o eurodeputado (Francisco Guerreiro) não tardou a retirar o emblema da lapela e uma das deputadas eleitas na Assembleia da República (Cristina Rodrigues) fez o mesmo, tornando-se «não inscrita», segundo reza o eufemismo da moda. Mas o mais grave aconteceu agora. O PAN perdeu em 30 de Janeiro metade dos eleitores, mais de metade da percentagem anterior e 75% dos deputados. Apenas a porta-voz acabaria eleita por Lisboa, à tangente, no fim da noite eleitoral.

O diagnóstico não tardou: foi «uma catástrofe». O qualificativo veio da boca de André Silva, anterior porta-voz do PAN, ausente nas autárquicas e nas legislativas. Entre duras acusações à sucessora por se ter assumido como «porta-estandarte» do Orçamento socialista entretanto chumbado, «arremessando em direcção a tudo o que mexia contra o PS», para depois admitir trocar António Costa por Rui Rio como parceiro de tango.

A campanha, em que quase só ela apareceu, teve aspectos caricatos. Revelando notória incapacidade de díálogo com o cidadão comum, Inês Real fugiu das pessoas para contemplar couves em quintarolas, calçou galochas junto ao Tejo para exigir que o novo aeroporto de Lisboa vá para Beja e organizou uma vigília com velinhas junto ao jardim zoológico em defesa dos golfinhos. Entre as medidas mais emblemáticas do seu programa, destacaram-se estas: criação de uma rede pública de hospitais veterinários, um «plano nacional de desacorrentamento animal» e o alargamento do Código Penal «aos restantes animais sencientes».

O veredicto das urnas foi o que se previa. E que as palavras críticas de Manuel Alegre prenunciavam pouco antes, ao alertar o PS para não se colocar «na eventual dependência do PAN, partido que subverte o primado da pessoa humana». Agora Inês Real enfrenta a demissão de dez membros do seu núcleo directivo e a exigência de um congresso extraordinário para digerir o péssimo desfecho eleitoral. Sabe que tem o lugar em risco. André Silva elevou o tom ao proclamar que «esta liderança pôs o partido na lama». Acossada, ela chama «dissidentes» aos opositores internos, utilizando uma linguagem própria dos sistemas totalitários.

Moral da história: os novos partidos repetem os piores vícios dos antigos, mas em ritmo ainda mais acelerado. Por esta altura, a porta-voz do PAN já terá concluído que é mais fácil apascentar animais do que liderar pessoas.

 

Texto publicado no semanário Novo

13 comentários em “É mais fácil apascentar animais do que gerir pessoas”

  1. “Criação de uma rede pública de hospitais veterinários”
    Ridícula esta senhora. Na rua onde moro há 3 clínicas veterinárias e no concelho deve haver mais de uma centena.
    E dinheiro para a construção dos hospitais e as despesas inerentes ?(mais uns cobres a acrescentar há dívida monstruosa do país.
    Com respeito vá acariciar a sua gatinha.

    1. Razão tem o Papa, há mais animais nas famílias que bebés! Daqui a uns anos,quando os donos de reformarem e se não tiverem uma “almofada”,os cães e gatos é que vão assegurar a sustentabilidade da S.S. ( Não tenho nada contra os bichanos),mas é uma constatação…

    1. Zé Albino transferiu votos do PAN (que perdeu 80 mil votos) para o PSD (que recolheu quase mais 200 mil votos do que em 2019, embora perdendo um deputado).
      Como a porta-voz animalista já tinha anunciado estar disponível para “coligar-se” com o PSD, foi só baralhar e dar de novo. Tanto fazia votar num ou noutro.

  2. O PAN dá comichão aos insensíveis, machistas e todos os egocêntricos que só pensam no seu umbigo.

    Liliana Campos

    1. É verdade. Por isso mesmo no pan(ificação) apascentam-se a eles e a elas mesmo(a)s e aos animaizinhos. A sua comichão é prova do que afirmo.

  3. (Ena, ena, já sabemos o que é o PAN)
    A rapariguinha pegou mal na questão das touradas e levou uma grande colhida. Tivesse ficado pela “anorexia” dos galgos do toureiro, talvez desse para ficar resguardada nas trincheiras.

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