Duplicidade ética


Pedro Correia,

Eis um governo com uma insólita noção dos graus de responsabilidade política: demite-se um ministro por prometer duas metafóricas bengaladas no Facebook ao mais verrinoso colunista da imprensa, demitem-se três secretários de Estado por terem aceitado um convite de um grupo empresarial privado para assistir a um jogo de futebol.

Pode estar tudo muito certo, mas semelhante critério não devia estender-se, por larga maioria de razão, à ministra que tutela vários organismos que falharam na prevenção e no combate ao mais mortífero incêndio florestal alguma vez ocorrido no País e ao ministro que tutela as estruturas militares publicamente humilhadas no maior roubo de material bélico de que há memória entre nós?

Não sei o que os leitores do DELITO pensam sobre o tema. A minha opinião é clara: Constança de Sousa e Azeredo Lopes, detentores de pastas ministeriais ligadas à soberania e representação do Estado, estão a mais no Executivo. Ela desde o dia 18 de Junho, ele desde o dia 30. O facto de se manterem em funções constitui uma prova viva da existência de um inaceitável padrão de duplicidade ética neste Executivo. E nada como isto o fragiliza tanto.

44 comentários em “Duplicidade ética”

  1. Não se trata de duplicidade ética, uma vez que nos casos de Constança e de Azeredo nada de eticamente errado está envolvido. Esses ministros podem (se o Pedro Correia assim o entender) ser incompetentes e/ou politicamente irresponsáveis, mas nada de eticamente reprovável fizeram.

    1. “Esses ministros podem (se o Pedro Correia assim o entender) ser incompetentes e/ou politicamente irresponsáveis, mas nada de eticamente reprovável fizeram.”

      Bom, se são incompetentes/politicamente irresponsáveis e continuam nos cargos, são eticamente reprováveis. Se não se dão conta do caso, mais grave será, pois a ética deles seria assim muito “poucochinha”.

    2. A discussão ética (sobre a bonomia borlista perante o “abbonement” da GALP) teve lugar há pouco menos de um ano – pelo meio tivemos uma eminência a gatafunhar um “código de ética” e tal e mais outras com similares “downbursts”… pelo que relevar tal “dimensão” para justificar agora, passados 10 meses, o enxuto dominical enfim é paleio de “encher chouriços” e querer fazer de outros parvos….

      No circo odierno está isto, que se calhar, não tem nada a ver com reprovável ética (cito um extracto do artigo de Alberto Gonçalves no Observador) :
      “Perante o desleixo, lembram desleixos maiores. Perante as dúvidas, confessam sentimentos. Perante as câmaras, dão abraços. Perante a culpa, acusam eucaliptos e furriéis. Perante o caos, pedem avaliações de popularidade. Perante a obrigação, partem de férias para Ibiza, a subjugar espanhóis com a barriga e um par de cuecas”
      Isto já para não falar no desleixo seguido de desnorte reiteradamente patenteado por estas personagens quando começaram a perceber que com o esturro o pivete não era só madeirado o agiestado, isto num longo sábado e domingo de aflição onde um canto da nação (cheio de incautos, coitados..) se poderia estar a contar com algum espírito de serviço (que, aprendi cedo, tem uma ética agregada como o Juramento de Hipócrates…) de tais graduados. Não sei onde fica isto na “ética”, mas sei lá, “eticamente” quer-me parecer que podemos usar o contraste, p.ex. notando um elevado louvor “ético” que merece a sra. D. Maria do Céu Silva que em Nodeirinho meteu mais onze concidadãos num enorme tanque cheio de água até as 4 da manhã assim salvando-os do fogo que os cercava.

      1. Até o secundava, mas depois leio Albertino Gonçalves e ….bumba, porta aviões ao fundo.

        Da PAF , podíamos assim dizer:
        Perante as dúvidas, mostram certezas.
        Perante a ganância e desgoverno dos Bancos culpam os portugueses e privatizam Serviços Públicos, monopólios naturais.
        Também o dr. Passos aguentou a Luisa Albuquerque, apesar dos swaps e o Relvas apesar da licenciatura.

        Quanto a juramento também Passos dizia que não aumentava impostos a um adolescente, junto a uma escola, em campanha eleitoral, e depois foi fartar vilanagem.

        E depois aquela histórica estória do trabalho pro bono na Tecnoforma….e um percurso profissional sempre ligado a empresas da malta do apparatschik….cheira a barrote queimado….

        1. Agradeço-lhe o não secundamento – é que certifica algum acerto na minha modesta escrita asserção.
          E também no que escreve Alberto Gonçalves se bem acerta – pelo menos naquela parte em que calibra os tontos com “Perante o desleixo, lembram desleixos maiores. (…) Perante a culpa, acusam eucaliptos e furriéis”…. Releia o A. Gonçalves – não só escreve bem e com frequente acerto informativo como imuniza contra eventual infecção onde se acabaria a agradecer tralhas incompetentes e sem vergonha por em Pedrogão só terem perecido 64 por causa do “downburst” e dos Eucaliptos da Cristas…

          1. Jorg, gosto de ler e ouvir as opiniões de outros ideologicamente afastados de mim – ex: Jaime Nogueira Pinto, Adriano Moreira, Ruben de Carvalho, Pedro Correia, V, etc. Não suporto é gentalha mal criada, e Alberto Gonçalves insere-se aí. Para o argumento não basta coerência logica, sendo fundamental também a forma como ela se expressa e Alberto Gonçalves fá-lo mal criadamente.

          2. Vamos lá a ver se o V não nos vai deixar mal…arrisquei, porventura, demasiado….

    3. Duplicidade ética, no texto, não se refere ao conteúdo das condutas em causa mas a uma dualidade de critérios no tratamento de assuntos da mesma esfera de responsabilidades políticas.

      O que nos leva a outro problema: o de saber se essa sua interpretação literal é deliberada e pretende enganar-nos apenas motivado por partidarismo, ou se é apenas o resultado de alguma simplicidade filosófica da sua parte (chamemos-lhe assim).

      1. dualidade de critérios no tratamento de assuntos da mesma esfera de responsabilidades políticas

        Não são assuntos da mesma esfera. Nos casos de Constança e de Azeredo, aquilo que está em causa é eventual incompetência ou responsabilidade política. Nos casos dos secretários de Estado, não se trata de incompetência nem de responsabilidade política, e sim de eventual falta de decência (ou, até, de corrupção).

        Não sendo assuntos da mesma esfera, não há qualquer duplicidade ética em tratá-los de forma diferente.

        1. De algum modo a dualidade de critérios até foi provocada criada pelo Ministério Público — da parte do Governo e do PM foi a mesma arrogância indiferente, balofa e despotista na sua pseudo-superioridade. A dualidade de critérios até é mais visível no comportamento nojento dos partidos e dos parlamentares afectos à Geringonça.

          Numa coisa lhe dou absoluta razão: o caso dos incêndios e do roubo em Tancos são casos de incompetência bem mais graves (se calhar até poderiam ser enquadrados em homicídio involuntário) do que a proverbial “falta de decência” dos chefezinhos gordos e dessa coisa triste e imunda que é o futebol.

        1. Eu ri-me foi de si, caraças. O seu comentário das 11:02 tem um piadão.
          Quanto ao Costa acho que vai dar “pena” ainda por muitos anos. Com esta oposição temos vontade de rir mas assim o governo não vai abaixo.

          1. O que mais me espanta é como o Sr. Dr. António Costa continua a ser tratado de fio a pavio como 1º Ministro legitimo sem ponta de mácula. Isto nem são coisas do diabo, é mais o diabo em figura de gente.

          2. ” António Costa continua a ser tratado de fio a pavio como 1º Ministro legitimo sem ponta de mácula” Tem razão. Ele não é primeiro ministro legítimo pois como toda a gente sabe chegou lá por meio de um golpe de Estado de armas na mão. Você tem muita piada e grande sentido de humor . Voltei a rir às gargalhadas.

          3. “O que mais me espanta é como o Sr. Dr. António Costa continua a ser tratado de fio a pavio como 1º Ministro legitimo sem ponta de mácula. “!
            Ó Senhor Rã Marques, ele é como o Trump, que continua a ser tratado como Presidente. O mundo está todo com o passo trocado. Se não fôssemos nós os dois, eu e o Senhor Rã… isto estaria muito mal.

          4. Entenda uma coisa. Sendo você aceite neste espaço como anónimo não tem o direito de alterar abusivamente o nome com que me identifico. Ou pede desculpa ou mando-o f…. em dois tempos.

          5. Peço desculpa. Por favor não me mande f… (embora eu não saiba o que isto quer dizer). Obrigado.

  2. 100% de acordo!
    Aliás esses secretários de Estado não se demitiram. Foram obrigados pelo Ministério Público a fazê-lo.

    António Costa caminha a passos largos para se tornar outro monstro de gila politico…se fosse ao BE começava a tirar-lhes o tapete, embora compreenda, mas não o entenda, pelas sondagens continuarem a dar maioria ao PS – talvez pelo PSD fazer de zombie…

    1. As sondagens dão maioria ao PS (e as sondagens, como é uso dizer-se, valem sempre o que valem) porque o eleitor está-se nas tintas. Desde que tenha a ilusão de possuir uns trocos na carteira, não quer saber de mais nada.

      Ainda hoje eu comentei isso com um conhecido: em 2009, mesmo sendo o ano em que Sócrates ganhou as segundas eleições, as pessoas comentavam o estado político do país. Em 2011, ainda mais pessoas falavam do estado político do país. Hoje em dia, no metropolitano, no barco, no eléctrico, no trabalho, não vejo ninguém comentar estas coisas que se vão passando.

      1. Também não lhes dou valor algum, mas há quem o faça…quanto ao português, ele é suave, tanto lhe dando por hoje democracia ou outra cousa qualquer

  3. Subscrevo na íntegra.

    António Costa não consegue dispensar os amigos ministros, vá lá uma pessoa entender isto.

  4. A esquerda não conhece a palavra ética, princípios, valores, responsabilidade, vergonha. Vale tudo para deter o poder.

    1. Vê tv e lê jornais? Oliveira e Costa, Arlindo Carvalho, Duarte Lima, Dias Loureiro, Daniel Sanchez, Dr. Miguel Relvas….e depois eu é que sou o emborcado?

    2. ” esquerda não conhece a palavra ética,…”. Claro, nós semos umas bestas que nem gramática sabemos. O que nos vale são os que sabem o que é ética e etc.

  5. Plenamente de acordo.
    Quanto a mim a Constança de Sousa até está mais desde o dia em que tomou posse.
    O Primeiro Ministro Costa tem um modo de pensar estranho, upside down, sei lá, baseado no princípio do “ganha quando perde”: demite quando não precisa, não demite quando é imprescindível…

    1. “Constança de Sousa até está mais desde o dia em que tomou posse.” Apoiado. Quem se lembraria de meter uma mulher num cargo daqueles? Aquele cargo bem como a defesa é para homens. Tem toda a razão Dulce, envio-lhe a minha solidariedade.
      Ana

      1. Obrigada Ana.
        Há Homens e homens, como há Mulheres e mulheres. Constança de Sousa não foi nem é mulher de grande competência para o cargo nem de grande exemplo para outras Mulheres. É fundamental que Igualdade e capacidade sejam directamente proporcionais.
        Provavelmente foi convidada para preencher a bendita Quota, que não olha a Curriculum só ao contingente de cromossomas X.
        Boa semana , Ana.

          1. Nada mais verdadeiro, Ana.
            Não se separa o trigo do joio. As mulheres que são competentes para desempenhar as funções que os seus cargos lhes exigem, passam a farinha do mesmo saco , só porque a lei obriga. A lei deveria ser muito mais exigente noutros pontos, do que em se preocupar com quotas .Devia preocupar-se sim com competências. Não havia nada disto quando na pré história , a Maria de Lurdes Pintasilgo foi Primeiro Ministro e não deixou de desempenhar competentemente as suas funções no governo e na sociedade portuguesa e internacional.

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