Domingo


Teresa Ribeiro,

 

O ventinho de fim de tarde arrepia a superfície do lago onde vogam os patos. Da janela do 4º andar consegue vê-los todos. Seis, sem contar com os bravos. Menos dois que na semana passada. Junto ao prédio, a bebé do terceiro andar, a fugir aos guinchos da avó, e o miúdo que mora em frente com o som do auto-rádio no máximo, chamam a atenção de um cão vadio. Ao longe um bando de adolescentes fustiga com paus a vegetação que espiga na orla do lago. Serão aqueles que os matam? Apertou mais o robe contra si. Do outro lado da rua, junto ao muro grafitado, um velho espreita para os contentores do lixo enquanto um par de miúdos se esgueira por entre os destroços da leitaria que fechou. A lua já espreita por entre os choupos. Ouvem-se os pássaros a recolher, numa azáfama aflita.  Diz que é de noite que os matam. À pedrada.

18 comentários em “Domingo”

          1. Anónimo? Como assim? Ou V. acha que é inapelavelmente anónimo quem não tem blog no SAPO, mesmo que deixe um e-mail válido?

  1. Mais vale os patos voarem para os Açores, Teresa. Lá, ao que consta, não matam patos de jardins à pedrada.
    Bela crónica outonal, escrita de acordo com a regra de ouro do Hemingway: é mais aquilo que sugere do que aquilo que descreve.

    1. Obrigada, Pedro. As câmaras passam a vida a repôr os patos nos jardins. Matam-nos muito. Porque sim, para treinar a pontaria, para descarregar a adrenalina, a raiva, o raio que os parta. É abominável esta violência tão gratuita e tão cobarde.

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