
Se há exercício no jornalismo que se aproxima da quiromancia ou da cartomância, é este de predizer o futuro. O Expresso gosta de praticá-lo, a cada final de ano. É um pouco como praticar trapézio sem rede – embora as respostas surjam em regra muito arredondadas, para nelas caber tudo e o seu contrário, o que facilita de algum modo a tarefa.
Mas o que por vezes mais interessa são as perguntas. Repare-se na questão n.º 9 destas «100 perguntas para 2020» dadas à estampa na edição de 28 de Dezembro de 2019 daquele semanário. Uma questão afinal desdobrada em duas, sobre um tema sem a menor relevância neste mês de Fevereiro de 2021: «Joacine sai do Livre? E do Parlamento?» Poderá isto interessar a alguém excepto à própria deputada?
O jornal responde não respondendo, como acontece na grande maioria dos temas que aqui suscita: «A palavra à deputada Joacine.» Assim é demasiado fácil: qualquer um é capaz de escrever o mesmo.

Os temas dividem-se em blocos que muito nos indicam sobre a hierarquia noticiosa do Expresso: política, sociedade, mundo, desporto e cultura. A economia está ausente porque foi tratada em local próprio, já aqui lembrado.

No segundo bloco, destaque para dois temas relacionados com o SNS. Eis uma questão: «As urgências vão continuar a dar problemas?» Como hoje sabemos, raros assuntos estiveram tão em foco como este ao longo do ano que passou. Aqui o jornal não foge à questão, respondendo desta forma: «O atendimento de doentes urgentes será sempre o problema agudo do sistema de saúde. Com a saída de médicos (para a reforma, privados ou estrangeiro) as equipas do SNS não chegam para a procura e é utópico pensar que um dia irão chegar.» Isto porque – menciona-se na resposta à pergunta seguinte, a n.º 23 – «as condições de trabalho na rede pública – edifícios e equipamentos obsoletos, horários sobrecarregados, progressões congeladas e baixos salários, por exemplo – não irão mudar o suficiente para devolver atractividade ao SNS.»
E ainda ninguém adivinhava o que iria passar-se.

Algumas perguntas, face ao sucedido, perderam razão de ser. Esta, por exemplo: «A selecção portuguesa irá revalidar o título europeu?» A resposta, como quase todas, vem arquitectada num estilo que permite diversas leituras no fim do ano. Mas neste caso não havia fuga possível: não chegou a acontecer o Campeonato da Europa de Futebol, tal como não ocorreram os anunciados Jogos Olímpicos de Tóquio.
Ou esta, pergunta n.º 85: «O concerto do ano vai ser o dos Faith No More?» Na resposta, dava-se como garantido que o regresso desta banda «irá consumar-se no festival NOS Alive».
Como hoje sabemos, tudo ficou adiado para 2021. Se não chover.

Ao nível ambiental, o Expresso não hesita em profetizar que «os episódios de seca tendem a ser mais extensos e intensos devido às alterações climáticas», registando-se nomeadamente «menos chuva». Podemos queixar-nos muito do sucedido em 2020, mas não da progressão da seca, pelo contrário: há muitos anos que o guarda-chuva e os impermeáveis não eram tão indispensáveis por cá.
Relacionada de algum modo com esta, surgia a pergunta n.º 71: «Greta vai entrar na política?» Assim, de repente, deixaria hoje vários leitores confundidos: é que esta activista sueca, tratada com tanta familiariedade pelo nome próprio, andou praticamente desaparecida ao longo de 2020 – e assim tem continuado nestes quase 40 dias de 2021. O Expresso proclamava-a «ícone de uma geração», com manifesto exagero. Porque, infelizmente, esta não se tornou a Geração Greta: tornou-se a Geração Covid.
![thumbnail_20210208_112750[1].jpg thumbnail_20210208_112750[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2021/22014282_GfKvZ.jpeg)
Tendo sido 2020 marcado pela pandemia do novo coronavírus, que causou mais mortos portugueses do que as guerras que travámos em África entre 1961 e 1974, pela queda mais abrupta alguma vez registada no PIB nacional, por dez inéditos estados de excepção e longas semanas de confinamento forçado, aliás ainda sem fim à vista, isto demonstra como são fúteis estes exercícios de jornalismo: entretêm alguma coisa, mas informam quase nada.
Repare-se só, a título de exemplo final, na pergunta n.º 98, em que o Expresso responde de algum modo em ca(u)sa própria: «A SIC vai consolidar a liderança nos canais generalistas?»
Resposta: «É provável que sim. (…) Tem vindo a reforçá-la ao longo dos meses, deixando o canal público e a estação de Queluz de Baixo para trás. Cristina Ferreira tornou-se num activo estratégico para o canal, mas os números provam que não é o único.»
Cristina Ferreira – «activo estratégico» da SIC em Dezembro de 2019 e hoje accionista e directora da TVI – confirma que o melhor mesmo é os jornalistas deixarem a quiromancia para os quiromantes.

Este objecto (post), que Pedro Correia retirou do seu baú, provocou a ida a outro.
E lá encontrei um comentário, que, talvez melhor do que muitos, se adequa na perfeição a esse “exercício de cartomância” praticado no “Expresso”.
Há quase 2 mil anos, Epicteto escreveu: “Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos delas”. Foi a propósito disto, que P.Watzlawick e outros (1967), viram na asserção de L.Wittgenstein, no “Tractatus” (5.61), um exemplo do paradoxo da existência humana. Concretamente, de que a lógica de um regime ou de um sistema (narrativa ou mentalidade, etc.), que se fecha sobre si mesmo, não permite perceber o que se passa fora e ao seu redor.
“A Lógica enche o mundo; os limites do mundo são também os seus limites…. Aquilo que não podemos pensar, não podemos pensar; também não podemos «dizer» aquilo que não podemos pensar” (5.61).
De facto, o Expresso é o paradigma de uma coisa que se fechou. E, como pretenso porta-voz do actual regime político (47 anos), a evidência do seu fechamento e cegueira
Quantos anos tem o regime politico da Inglaterra?
Qualquer um que preveja o futuro acertadamente será chamado de maluco ou pior quando o fizer.
Pelo menos acertou na pergunta 22. As urgências vão continuar a dar problemas.
Foi preciso aparecer um vírus em 2020 para fazer esquecer o problema das urgências em anos anteriores.
Quem ouça as notícias hoje, fica sempre com a sensação que antes da pandemia as urgências funcionavam às mil maravilhas.
Não. As urgências funcionavam pessimamente. Entre outros motivos, por estarem quase sempre impedidas por doentes sem urgência alguma.
Pois, a fila da ambulâncias que eu vi era só casos urgentes. Deve ter sido por isso que os médicos alemães vieram para ajudar no hospital Amadora Sintra.
Então os médicos alemães não foram para o Hospital da Luz? he/militares-alemaes-aprendem-protocolos-e-p ortugues-no-hospital-da-luz?ref=Exclusiv os_DestaquesPrincipais
https://www.cmjornal.pt/sociedade/detal
Pois foram, mas não deviam ter ido. No hospital da Luz não havia caos nas urgências. Por aqui já se pode ver o show off da gestão da pandemia.
“por doentes sem urgência alguma.”
Sabe lá?
Agora deu uma de médico?
Ou também é daqueles que dizia que as escolas são seguras e não havia covid?
Onde já chega o negacionismo!!!
João Antunes
“Deu uma de médico”?
O que quer dizer essa frase?
Isso e o atraso de cirurgias e consultas de especialidade.
Maldito covid.
O FMI já não vem e passado uma semana estava a desembarcar em Lisboa.
WW
Quando o Expresso decidiu trocar as resenhas do ano anterior, por estas edições especulativas, sempre me perguntei de quem teria sido tão brilhante ideia. Não faz o menor sentido. É mesmo vergonhoso para um jornal que pretende ser “a” referência daqui do burgo.