Distinguir chá de sopas de vinho


jmmcc,

Detido num aeroporto de Nova Iorque por suposta agressão sexual a uma empregada de hotel que lhe limpava o quarto, o director-geral do FMI e provável ex-futuro candidato socialista à Presidência francesa Dominique Strauss-Khan foi apanhado na primeira classe do avião em que devia ter regressado a Paris. O pormenor reaviva o facto de andarmos todos a pagar mordomias a quem não só não as merece como nem sequer tenta merecer os cargos que as permitem.

Isto lembra-me que, dos 22 eurodeputados portugueses em Bruxelas, nove votaram a favor da emenda pelo fim das viagens em classe superior: os três do BE (Miguel Portas, Marisa Matias e Rui Tavares), os dois da CDU (Ilda Figueiredo e João Ferreira) e quatro do PS (Luís Paulo Alves, Elisa Ferreira, Ana Gomes e Vital Moreira). Porém, temos outros nove eurodeputados que votaram pela continuidade da mordomia: sete do PSD (José Manuel Fernandes, Paulo Rangel, Regina Bastos, Carlos Coelho, Mário David, Maria do Céu Patrão Neves e Nuno Teixeira) e dois do PS (Capoulas Santos e Correia de Campos).

É isto, a liderança política da Europa de hoje que o caso sobre Strauss-Khan serve para ilustrar (ou para caricaturar). Nunca se falou tanto em exigência, transparência e outras ências que tais, mas quase sempre os que mais falam são os que menos dão o exemplo. Não importa saber se conseguem convencê-los a viajar em classe económica ou de camioneta. Não importa saber disso por um único motivo: essas pessoas não servem, não nos servem — e são precisamente essas que ficam mais caras, que nos custam mais dinheiro. E o dinheiro, senhores (tão fácil para essas pessoas que confundem o cargo de liderança com o lugar à mesa, como se a importância fosse determinada pela cadeira e não pelas qualidades do dono do rabo sentado), o dinheiro está pela hora da morte para todos nós.

Chega. Chega de mordomias balofas. Se as vacas voltarem a engordar, podem ter a certeza de que seremos os primeiros a desejar líderes mais bem pagos. Mas só aqueles que souberem distinguir o chá das sopas de vinho. Porque os fidalgos tanto vivem na cidade como no campo, ao passo que os pacóvios de bacoquice incurável ficam logo extasiados com as luzinhas da Baixa. E nunca a Baixa foi tão baixa, está bom de ver.

28 comentários em “Distinguir chá de sopas de vinho”

  1. Caro João, a emenda no PE seria apenas para voos com duração inferior a 3 horas. Para voos com duração superior os deputados continuariam a poder fazer marcações em classe executiva.

    Quanto a DSK, não vejo qualquer problema em viajar em 1a classe ou classe executiva em viagens intercontinentais. Faz uma diferença enorme na capacidade de trabalho à chegada (ou até em viagem). Para quem, como ele, fará viagens de trabalho nas quais terá reuniões uns 15 minutos depois de sair do aeroporto, não me escandaliza nada.

    Muito mais me escandaliza o assédio, se provado, ou a exposição do assunto em praça pública, que já fez tábua rasa da presunção de inocência.

    1. Por ordem, João.

      1. Certo. Acho que era para voos até quatro horas, mas é um pormenor.
      2. Estou de acordo. O meu ponto, que mantenho, é as pessoas merecerem a nossa confiança. E o caso serviu como uma luva para lembrar os eurodeputados bacocos que alimentamos.
      3. Sem dúvida.

      Um abraço, meu caro.

  2. Nós sabemos perfeitamente que não podemos fazer nada, pois não existe forma de os “obrigar” a estar na política e no governo com o único fim de servir o País, e claro para o servir não é preciso gozarem de privilégios que nos empobreçam…. É por isso que o povo tem de lutar, para que a classe política possa ser fiscalizada e responsabilizada pelas suas condutas…pois o poder corrompe e errar é humano!

    1. Ora aí está. Devemos pagar bem (se possível) a quem o mereça, porque eles é que escolhem servir o País.

      Servir o País é perceber os limites do que auferem, conhecer a ética e moral do serviço público e não inventar automordomias para evitar aumentos nos vencimentos.

      Com pequenas excepções bem definidas, os vencimentos devem ser claros e não deturpados pela atribuição de mordomias inerentes e regulares.

  3. Coitado do Bijan que faleceu antes de vêr desaparecer dois dos seus melhores clientes.
    O DSK ontem e o senhor Pinto de Sousa dia 5 de Junho.

  4. Há muitos anos, era eu chefe de redacção numa editora de revistas especializadas, foi contratado um novo director comercial para a dita editora. Era um rapazinho novo, recém-formado mas cheio de pose, que exigiu um gabinete fechado e várias outras regalias como parte das condições de contratação. Eu estava lá desde a fundação da editora e por isso ocupava um dos dois únicos gabinetes que havia (o outro era o do director), tudo o resto funcionava em open-space. Como o rapaz não abdicava dessa regalia pôs-se a hipótese de fazer obras para contentá-lo, mas o dinheiro era curto e muito preciso para outras coisas. Fartei-me daquela patetice toda e ofereci-lhe o meu gabinete, para acabar com o assunto. Soube depois que ele tinha dito a alguém que eu devia ser parva por oferecer assim de mão beijada uma auto-despromoção daquelas… Há gente que nunca entenderá que o hábito, ao contrário do que diz o ditado, não chega para fazer o monge.

  5. o problema é que eles controlam-se a eles próprios, tal como acontece com os politicos no nosso país.

    (o grave é sabermos que se o senhor tivesse sido acusado na Europa, de certeza que não tinha ido preso e as culpas recairiam na empregada, que tanto poderia tentado extorquir o dinheiro do senhor como ter inventado toda a história.)

  6. Estou pasmado! Num blog direita uma opinião destas. Já agora, para aqueles que dizem que não há diferença entre direita e esquerda, fica patente neste artigo que ela existe. Os de direita são todos iguais, na esquerda ainda há gente com sentido de decência.
    Quanto ao DSK, cheira a esturro! Entrar num avião para prender um homem desta importância por tentativa de violação, neste mundo, custa a acreditar.

    1. Claro que existe diferença: a direita sempre foi mais fidalga; antigamente só lhe faltava, por vezes, algum sentido de justiça social, mas o último quartel do século XX já deixou isso muito bem resolvido.

      Não sei a explicação lhe chega, meu caro, ou se V. perdeu o Norte de vez.

      1. É espantosa essa análise, precisamente nos tempos em que a direita aproveita a crise que provocou para destruir o estado social. Quanto às elites fidalgas e não fidalgas, os seus planos são mais berlusconianos. São a origem da nossa desgraça. O mar serve-lhes para passear os Yats, e as terras para jogar golf e caçar.
        Desgraçados dos povos: português e espanhol, se cai nas vossas mãos.

        1. Então eu escrevo um texto que V. diz ser de esquerda e agora conclui que eu sou fidalgo? Bem… Se V. o diz… Mas berlusconiano é que não, ok? Esse sujeito é de um novo-riquismo e falta de chá que se cheiram de longe.

          A propósito: o homem que mais tem destruído o nosso estado social ainda é primeiro-ministro. Acha realmente que ele é de esquerda, além de outras coisas menos abonatórias?

  7. Estamos a tratar de assuntos do meio politico-financeiro. Apesar de ser quem é, DSK não escapou ás malhas da justiça, tal como muitos outros.
    E quando será que as mesmas malhas chegam ao meio desportivo?
    Ouve-se e diz-se tanta coisa no tocante a oferta de serviços sexuais para obter fins.

  8. Fizeste bem em trazer aqui os nomes dos eurodeputados portugueses que votaram de uma e de outra forma na questão das viagens aéreas. É particularmente lamentável que os do PSD tenham votado em bloco como votaram.

    1. É para compensar a redução do número de deputados. São tão populistas, e depois, chamam mentiroso ao sócrates. São como o Pinto da Costa, não sentem qualquer vergonha.

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