O caso do quarto do Sofitel, como é conhecido em França o escândalo sob investigação norte-americana que levou à detenção do todo-poderoso DSK (Dominique Strauss-Kahn), está a revelar-se uma verdadeira caixa de Pandora. Depois das revelações do que aconteceu em Nova Iorque, sabe-se agora que DSK era useiro e vezeiro no tipo de comportamento que conduziu à sua detenção, não tendo sido essa a primeira vez que manifestou uma estranha atracção por uma empregada de hotel.
Um deputado, Bernard Debré, citado pelo Libération, declarou mesmo ao magazine L’Express que DSK já era conhecido no Hotel Sofitel. Aconteceu várias vezes e ao longo de vários anos – diz esse deputado. Razões políticas à parte, como se isso não fosse já demasiado mau para um homem com a posição e as aspirações políticas de DSK, a direcção do hotel põe “as mãos no fogo” pela reputação da trabalhadora ofendida e uma jovem escritora francesa, Tristane Banon, aproveitou para se queixar de idênticos comportamentos de DSK em relação a si.
As histórias de alcova envolvendo nomes da política e do social não são novas. Há séculos que os homens e as mulheres são todos feitos da mesma carne. Mas as sociedades evoluem, nem sempre bem como em cada dia que passa se torna mais patente a diversos níveis, mas no que respeita aos hábitos e comportamentos sexuais há hoje uma fronteira muito nítida que separa a liberdade individual, a proposta e a aceitação, do abuso puro e simples.
Ora, o que torna o caso do “affaire de la chambre Sofitel” mais sórdido e lamentável não é que tenha sido conhecido, mas a forma como uma certa imprensa reage a determinado tipo de situações quando em causa estão senhores como DSK, homem dado à cirurgia estética e ao bronzeamento permanente.
Ainda hoje, no Le Monde, Christophe Deloire, director do Centro de Formação de Jornalistas e co-autor do livro Sexus politicus (Albin Michel, 2006), onde chamava a atenção num capítulo que já então tinha o sugestivo título de “L’affaire DSK” para aquele que seria um comportamento inadequado do homem que ao tempo ainda nem sequer era director-geral do FMI, volta a questionar o papel dos jornalistas. Deloire chama mesmo a atenção no seu texto para uma estranha lei do silêncio, a “omertà” dos mafiosos, forma de solidariedade que obstaculiza a investigação de um crime e impede a punição do culpado, que cai sobre os jornalistas quando está em causa DSK, questionando com inegável oportunidade se os jornalistas devem aligeirar a divulgação de factos incómodos para evitarem um acidente eleitoral ou, ao contrário, acelerar a sua divulgação. Já em Julho de 2007 e ainda antes do caso ocorrido no ano seguinte com uma subordinada do FMI, Jean Quatremer escrevia nas páginas do Libération que “le seul vrai problème de Strauss-Kahn est son rapport aux femmes. Trop pressant […], il frôle souvent le harcèlement. Un travers connu des médias, mais dont personne ne parle (on est en France)“. E na Internet as histórias já eram velhas e por demais elucidativas do comportamento do sujeito.
Não serei eu a dar a resposta à questão acima formulada. Em Portugal também temos tido algumas situações parecidas em períodos pré-eleitorais e as dúvidas que Deloire legitimamente coloca em relação à França e ao papel dos jornalistas também se colocam entre nós, em especial tendo presente a quantidade de jornalistas opinadores – alguns mesmo parecem militantes de lobbys e de partidos políticos – que por cá se multiplicam.
Também no caso que abala os meios políticos e jornalísticos franceses, Deloire acaba por recordar a lição de Orwell e resumir numa pequena expressão o remédio para o furacão que faz tremer a democracia francesa: “common decency” – como ele escreve, afinal uma simples “moral da simplicidade e da honestidade”. Mas esta, lá como cá, e como ainda há bem pouco o João Carvalho sublinhou, é coisa de difícil compreensão para a classe política.
Eu abalançar-me-ia a ir um pouco mais longe: tudo o que é simples, claro e linear para o cidadão comum é ininteligível para os dirigentes actuais.
Alguns terão um grave défice de formação escolar e educacional. Ignorância, portanto. Será o que explica, por exemplo, a contratação de jornalistas que se predispõem a apregoar aos quatro ventos, em livros sofríveis, histórias de vida banais e deprimentes como se de feitos históricos se tratasse.
Outros, como será mais, acredito eu, o caso de DSK, sendo intelectualmente dotados, tendo mundo e estando bem preparados tecnicamente, atingem posições que os fazem crer serem pequenos deuses, políticos omnipotentes, a quem todos os contribuintes devem prestar vassalagem e render-se aos seus obscuros méritos, perdendo o sentido da realidade. Escuso de dar exemplos nacionais, mas isso não acontece só com o partido do poder. Muitas vezes a própria situação interna de um partido político contribui para construir essa imagem desfasada que o líder tem de si e das suas capacidades.
Desgraçadamente, como Deloire com crueza pontua, é a falta de entendimento, de interiorização, dessas duas palavras de Orwell que torna tudo tão complicado. E, acrescento eu, transforma a democracia numa sucessão de fait-divers, de insultos, de casos de polícia e de histórias, como a de DSK, simplesmente sórdidas.

Disseste tudo e disseste bem, Sérgio.
Verdade, João. Tudo dito, com lucidez e clareza.
Muito bem, Sérgio. A melhor reflexão sobre este lamentável caso que li na blogosfera. “Common decency” – o excelente lema de Orwell está cada vez mais esquecido nos dias que vão correndo.