Diário do coronavírus


Pedro Correia,

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Bairro pachorrento, estranhamente despovoado: há muito menos gente a circular na rua, o trânsito parece de domingo apesar de estarmos a meio da semana, os transportes públicos deixaram de andar apinhados. Tudo em casa? Tudo não: espreito o Continente, habitualmente vazio a esta hora: está repleto de gente a acotovelar-se junto às caixas, exibindo carrinhos a transbordar de compras como se receassem um bombardeamento aéreo. Sem perceberem que o local menos indicado para fugirem ao vírus é ali mesmo, naquelas filas.

Pelo menos cinco estabelecimentos comerciais encerrados «por motivos de saúde», segundo letreiro colocado à porta. Passo pelo Celeiro, sou atendido pela empregada mais bonita das redondezas. Uma brasileira que não esconde a preocupação: «Minha mãe me disse para eu não atender pessoas sem estar de máscara. Tenho medo de estar aqui.» Não permitem que ela use máscara. Aliás nem existem máscaras, como verifiquei há duas semanas, só a título de curiosidade, junto das sete farmácias da Avenida da Igreja. Material esgotado, novas encomendas, não fazem a menor ideia quando voltarão a renovar o stock, já têm muitos clientes em lista de espera. 

 

Eis-nos reconduzidos às questões essenciais – da vida e da morte, da saúde e da doença – no momento presente, sem preenchermos a agenda mediática com engenharias sociais ou hipotéticas calamidades futuras. Aliás não sobra tempo nem espaço nos meios de comunicação para outro assunto: os telediários tornaram-se monotemáticos. E, ao contrário do que sucede em Espanha, por exemplo, a oposição eclipsou-se: deve estar também de quarentena preventiva, como o Presidente da República. Sem possibilidade nem vontade, portanto, de questionar o Governo sobre a decisão tardia de suspender as ligações aéreas com Itália, principal foco de infecção na Europa, e de continuar a permitir a entrada de dezenas de milhares de pessoas em cruzeiros de luxo que aportam a Lisboa e de forasteiros que aterram nos aeroportos sem rastreio de qualquer espécie à chegada.

Um amigo recém-desembarcado da Europa de Leste diz-me, com espanto: «Fiz esta viagem com máscaras e gel para as mãos a toda a hora. Vi precauções em todos os países – nos aeroportos e em todo o lado. Em Portugal, nada.»

 

Entre um Governo que “desdramatiza” para não baixar nas sondagens e uma oposição hibernada, a maralha corre para as praias como se não houvesse amanhã, confundindo quarentena sanitária face à pandemia com férias ao sol. Enquanto o incessante vozear televisivo sobre futebol dá lugar ao incessante vozear televisivo sobre coronavírus, com mil putativos especialistas em epidemologia a surgirem debaixo de todas as pedras da rua.

Salva-se, ao serão na TVI 24, a voz sensata mas firme de António Lobo Xavier: «Há qualquer coisa que não está a ser captada pela opinião pública, com uma certa doçura das mensagens. Olhando para o modo como progride esta epidemia – uma pessoa infectada pode infectar três por dia, em seis semanas sem controlo pode dar origem a três mil infectados – [critico] um certo laxismo mediterrânico, baseado num certo aventureirismo pessoal, numa certa autonomia privada, com cada um a correr os riscos que entende. Este ponto de vista é profundamente negativo e tem de ser criticado. Não é um problema de autonomia nem de liberdade pessoal. É preciso explicar que quem não acata as medidas básicas tem comportamento criminoso em vários planos: origina o agravamento de risco de outros cidadãos, causa mortes das pessoas mais frágeis, provoca danos incomensuráveis. A negligência face às regras custa vidas de pessoas e problemas de saúde, afecta hospitais que deviam estar a tratar dos cuidados normais e causa um dano brutal ao País. É inaceitável o desprezo individual e colectivo de massas de portugueses que se comportam como se não houvesse problema algum.»

Tudo quanto há de essencial ficou dito nestas palavras.

74 comentários em “Diário do coronavírus”

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    <<No Reino Unido há duas novas mortes a registar depois de terem testado positivo para coronavírus. O total de mortes no país está assim em oito. Segundo a Sky News, tratavam-se de pacientes idosos com "outras condições de saúde prévias".>>

    O que é uma "condição de saúde"?

  2. “«Fiz esta viagem com máscaras e gel para as mãos a toda a hora. Vi precauções em todos os países – nos aeroportos e em todo o lado. Em Portugal, nada.»”
    Talvez seja verdade na Europa de Leste, não é certamente noutros aeroportos europeus.

    “Entre um Governo que “desdramatiza” para não baixar nas sondagens e uma oposição hibernada, a maralha corre para as praias como se não houvesse amanhã, confundindo quarentena sanitária face à pandemia com férias ao sol.”
    Não sabia que o coronavírus se apanhava na praia. Ou há restrições a movimentos, ou não há. Neste momento não há. Ficar em casa a ver noticiários na TV em loop sobre o assunto e a ler as redes sociais não me parece uma grande solução. Claro que faz sempre confusão a quem quer gritar a sua desgraça que haja outros que prosseguem a sua vida.

    ” É preciso explicar que quem não acata as medidas básicas tem comportamento criminoso em vários planos: origina o agravamento de risco de outros cidadãos, causa mortes das pessoas mais frágeis, provoca danos incomensuráveis. “
    Grande verdade. Mas as medidas básicas não são as decididas pelos “comentadores especialistas” da televisão e das redes sociais nem pelo Lobo Xavier. Gostava de saber o que é que o Mediterrâneo, um mar tão simpático tem a ver com isto. Neste momento entre a Grécia e a Turquia experimenta-se o modo mais radical de parar a doença – atirar a matar sobre quem vem. Se isto não nos faz impressão, porque há de um vírus fazer.

    1. Aqueles que assumem os comportamentos mais irresponsáveis são muitas vezes os mesmos que correm a entupir as urgências hospitalares ao menor sintoma seja do que for e depois urram contra a falta de capacidade da assistência sanitária.

      1. Na semana passada tive febre, tosse, dores no corpo e problemas gastrointestinais. Estive 5 horas para falar com a saúde 24. Fiquei em isolamento preventivo voluntário. Já vou no sexto dia. Passou. Não fui ao hospital. Fiz aquilo que nos pedem para fazer, comuniquei e informei da evolução. É aborrecido? É pois, mas não é difícil.

          1. Comportamento responsável. Infelizmente, minoritário. Basta ver o que se passa nas chegadas dos portos e dos aeroportos, ou nas escolas que o Governo ainda não teve coragem de fechar, ou nas praias que ontem estavam cheias.

  3. o Continente, habitualmente vazio a esta hora: está repleto de gente

    Mas está a haver açambarcamento, ou não? Há falta de alguns produtos, ou não?

    (Eu na quarta-feira fui às compras, nada me faltou, exceto pão, que se tinha esgotado um par de horas mais cedo que o habitual. Mas pão não é propriamente algo que se açambarque…)

      1. Nunca faço compras no horário de trabalho, claro.
        Na quarta-feira fui às compras depois do trabalho.

  4. Pedro, percebo-o e acompanho – o nas suas preocupações. Também sei que junto da comunidade científica não existe consenso quanto às medidas a adoptar. Aliás, a ciência, com a complexidade do conhecimento, trabalha cada vez mais com probabilidades e menos com certezas (com o aumento do conhecimento descobrem – se novas variáveis, e novas interacções, que minam as respostas concretas a que estávamos habituados. As doenças são cada vez mais multifactoriais ou seja, quanto mais sabemos, maiores são as dúvidas, quer quanto às causas, quer quanto ao tratamento curativo – hoje em dia a medicina controla mais sinais clínicos, “tratando” menos).

    Como lhe disse acompanho – o no que escreve, mas também concordo com eminentes virologistas que afirmam que este coronavirus (da mesmo género do vírus do SARS, que em 2003, surgiu, também, na China com uma taxa de mortalidade a rondar os 12% e que misteriosamente desapareceu, como apareceu) é impossível de controlar por variadíssimos motivos, entre eles : período de incubação muito longo, sinais muito heterogéneos e inespecificos, resiliente a variadas condições atmosféricas, etc.

    Não se pode fechar um país, as suas instituições, sine die, sem afectar, negativamente, os serviços de saúde e portanto influindo adversamente nos próprios planos de contenção e resposta.

    Como muitos virologistas afirmam, teremos de esperar pela vacina, ou por algum factor (ex: mutação) que elimine /fragilize o vírus (à semelhança do que aconteceu com o SARS). Não entendo, muito bem que, para uma patologia, com uma taxa de mortalidade a rondar os 2,5%, se adoptem estas medidas draconianas, excepto se, junto da comunidade científica, houver o receio de uma mutação genética que incremente significativamente a virulência e a morbilidade do Covid-19.

    Julgo que a Alemanha é o segundo país com mais casos, e todos sabemos como os nórdicos respeitam, por vezes de forma excessiva, as recomendações das Autoridades estatais.

    O que faço?

    Regras básicas de higiene (lavar mais vezes as mãos, etc) e aumentar o cuidado quando contacto com pessoas de mais idade, sabendo eu que posso estar infectado e assintomático (há poucos dias estive na casa de uma médica do S. João, agora na casa de uma pessoa que contactou com empresários que foram à feira de Milão, todos sem sintomas, mas sem haver nenhuma certeza de não estarem infectados. Pergunto, o que posso fazer?)

    Nota : as máscaras que vemos na rua são totalmente ineficazes para a prevenção da coronavirose. Existem vários tipos de máscaras faciais e estas, que são vendidas, não têm filtros capazes de reter partículas virais (é só perguntar a um virologista ou militar com conhecimentos em NBQ.

    Exemplo :

    https://www.3m.com.pt/3M/pt_PT/empresa-pt/todos-produtos-3m/~/Todos-os-produtos-3M/Seguran%C3%A7a/Seguran%C3%A7a-pessoal/FUZE-Respiratory-Protection/?N=5002385+8709322+8711017+8711405+8711853&rt=r3

    Talvez esta virose tenha algum aspecto positivo, que consiste em fazer-nos relembrar como a vida é frágil e como é falso o aparente controlo que julgávamos ter dela. Com os feitos magníficos da ciência proveio uma certa arrogância de nos pensarmos de fora da natureza, dos seus ciclos (até há bem pouco tempo a nossa maior ameaça era o terrorismo). Talvez, a partir de agora, com esta ameaça no ar as pessoas aproveitem, saboreiem, de outra forma a vida e reequacionem o seu lugar no todo, que é a Terra, o Cosmos, dando valor ao que realmente importa.

    1. Tudo quanto é negativo tem aspectos positivos, meu caro.
      Mas não pode ser encarada com leveza esta pandemia, creio que a segunda declarada como tal pela OMS neste século.
      A rápida e mortífera evolução da doença em Itália indica-nos quando, como, onde e por que devemos agir sem mais demora.

    2. Deixe.me dar duas achegas/correcções.

      Os virologistas são aqueles que lidam com o vírus em si. Avaliam como se comporta, como contamina, como se transmite, etc. São extremamente importante e aquilo que escreveu está correcto. Não são contudo necessariamente os virologistas que determinam este tipo de medidas, aí entram os epidemiologistas (que também podem ser virologistas, claro). Estes olham para o comportamento do vírus na população e tentam criar modelos de como se espalha e de como as medidas têm efeitos nos mesmos.

      O SARS é de facto da família dos coronavirus (embora dizer “do género” dê ideia de uma parecença que pode não existir – estamos falar de um vírus ser da mesma família como falaríamos de nós sermos da mesma família que os orangotangos). Só que o SARS não desapareceu “misteriosamente”. Sabe-se que a sua taxa de transmissão era relativamente baixa (embora tivesse uma taxa de mortalidade consideravelmente elevada, cerca de 10%) e aceita-se hoje que desapareceu essencialmente devido às medidas de contenção draconianas que foram tomadas na altura.

      1. 1) Os modelos epidemiológicos são previstos/ construídos com base nas características biólogicas dos agentes patogénicos. Daí frisar o conhecimento fundamental dos virulogistas.

        2) Quanto ao SARS permita-me recordar as opiniões contemporâneas dos especialistas, de então, e não as narrativas justificativas, posteriores, ad hoc.

        https://www.nytimes.com/2005/05/15/health/after-its-epidemic-arrival-sars-vanishes.html

        3) Quanto ao resto, às correcções, sobre classificação taxonómica poderia ter – me poupado o “sermão”. Tive 1 ano de Epidemiologia (3°ano da faculdade) , 1 ano de Bioestatistica (1° ano) e 2 anos de Doenças Infecto-Contagiosas (3°e 4°anos) . Quando aqui boto faladura (permita-me, jpt) , não me preocupa muito a exactidão taxonómica. Não estou na faculdade, nem, ao que julgo saber, inter pares. É chato, o tom professoral. Se me permite, a ousadia, o João faz profissionalmente o quê?

        Quanto ao resto, já disse tudo. Tenho a opinião do Dr. Filipe Froes.

      1. Um dos problemas é a ambiguidade que as autoridades vêm revelando nesta crise sanitária.

        Preferem as medidas a meio-gás. Por um lado, não querem afugentar turistas – sabendo que o turismo é a galinha dos ovos de ouro da economia portuguesa.

        Por outro lado, estão conscientes de que cada turista que entra potencia os riscos da pandemia entre nós e sabem – melhor do qualquer um – como é escassa, insuficiente e cheia de lacunas a capacidade de resposta do SNS português em casos desta gravidade.

        Ficam a meio caminho, o que é a pior maneira de dar resposta.

  5. A OMS avisou e tornou a avisar: preparem-se. Os médicos chineses e mais recentemente os italianos disseram o mesmo: preparem-se.
    A ideia base era de que a epidemia podia ser controlada – e nalgumas regiões está a ser – mas não evitada de todo. A ideia base era evitar que o pico da epidemia fosse abrupto, no espaço e no tempo.
    Ora preparar não é reagir. Itália reagiu, não preparou, Portugal vai pelo mesmo caminho.
    A carta aberta dos médicos italianos aos colegas europeus é lancinante, nenhum profissional de saúde quer ver-se na situação de triagem de guerra, saber que vai ter de deixar pacientes morrer. É o que já por lá sucede.
    Por cá, só por milagre não chegaremos a esse cenário. O SNS não tem capacidade em tempos normais, tudo deveria ser apostado na prevenção. Mas isto é Portugal, a DGS não quer enviar dois milhões de alunos para casa, parecendo não perceber que, se correr tudo menos bem, está a enviar tudo para os hospitais.
    Leio que os promotores de espectáculos estão desagradados com o cancelamento de eventos com mais de 5000 pessoas – na Noruega estão cancelados eventos com mais de 500. É o dinheiro acima de tudo, até porque a despesa com os infectados não lhes calha a eles.
    Entretanto os portugueses, bem à maneira portuguesa, por um lado tratam isto como se nada fosse com eles, por outro vão despejando os hipermercados. Incrível.

      1. Idealmente, e se as pessoas tivessem juízo, nem era preciso fechar shoppings nem hipermercados. Mesmo assim, algumas limitações não fariam mal.
        Acontece, caso ainda não tenha reparado, que uma ida ao shopping é facultativa, e as idas aos hipermercados são pontuais e podem ser geridas de modo a serem mínimas. A escola é obrigatória.
        Já agora, há uns anos um tipo infectou-se com antraz e foi passear para um mercado, o que foi considerado – e foi – terrorismo. Suponho que consideraria isso um direito, afinal, não se cala a voz da liberdade e etc.
        Caro Vorph, estou tão saturado dos que acham que vai morrer tudo, como dos que agem como se nada se passasse. Eu estou apenas a usar senso comum. Ou o que considero como tal.

          1. Dou razão ao comentador António. Mas você, Vorph, também acerta quando pergunta por que ficam outros de quarentena e não os trabalhadores das grandes superfícies comerciais – que estão especialmente expostos à infecção.

            A propósito, sublinho uma discrepância de tratamento: todos os trabalhadores das empresas municipais – museus, teatros, salas de concerto – foram mandados para casa mas os mercados municipais, pelo menos em Lisboa, continuam a funcionar como se nada fosse.

      2. Não está relacionado com isso: as escolas são focos de infecção perfeitos. As crianças estão próximas iumas das outras e frequentemente têm contacto muito intímo (especialmente os mais pequenitos, que trocam objectos que andam nas bocas). Acresce que passam a maior parte do dia dentro dos edifícios e não podem sair.

        Por contraste, as resttes idas ao shopping ou semelhantes são mais curtas, por pessoas que sabem (teoricamente) as medidas que devem tomar e que não vão interagir entre si. Há uma grande diferença.

        1. “Por contraste, as resttes idas ao shopping ou semelhantes são mais curtas, por pessoas que sabem (teoricamente) as medidas que devem tomar e que não vão interagir entre si. Há uma grande diferença.”

          São mais curtas, mas serão tão breves que tenham impacto epidemiológico, negativo, na transmissão das partículas virais? Sabe porventura como se faz a manutenção /fiscalização da Qualidade do Ar nos Centros Comerciais? (não se faz….)

          Uma boa teoria se não acompanhada de uma boa prática vale zero.

    1. a DGS não quer enviar dois milhões de alunos para casa

      Mas será razoável sacrificar os alunos para proteger os idosos?

      O covid-19 basicamente não faz mal a pessoas até aos 20 anos de idade. Será razoável sacrificar a vida normal dos alunos das escolas, para proteger os velhinhos de 70 anos?

      Os velhinhos é que se devem proteger, abdicando do contacto com os outros. Não são os alunos das escolas que devem ficar fechados em casa!

      1. “Posso a qualquer momento contrair o vírus, e antes de ter sintomas espalhar a quem não tem sistema imunitário forte o suficiente para o combater. Isto não é sobre mim, é sobre uma coisa maior do que eu. É sobre nós. E é esse degrau mental que me faz ter consciência que a minha prioridade tem de ser colectiva, e não minha e do meu espelho.”

        Bruno Nogueira

  6. Fique por casa, a exemplo dos Kisses, e assista às interessantíssimas mitigações das:

    – ministra das Conferências de Imprensa da Saúde;
    – director geral das Conferências de Imprensa da Saúde.

    Quando se aborrecer ouça a internacional!

    Smoreira

    1. Portugal, país que vive do turismo e precisa das receitas turísticas para sustentar o seu “estado social”, tem o PR há vários dias enclausurado em casa sem estar doente.

      Isto está a ser notícia em todo o mundo.
      Isto está a afugentar milhares de pessoas que planeavam vir a Portugal.
      E sem que ninguém, aparentemente, debata a questão por cá.

  7. Se há duas semanas o Parlamento legislava sobre o reconhecimento do “direito à morte”, porque é que não se há-de reconhecer também o direito à doença? É tudo à vontade do freguês.

    1. Os mesmos que há um mês gritavam pelo primado da “vontade individual” agora apelam à “responsabilidade colectiva” acima de tudo o resto.
      Vá lá a gente entender tal gente.
      Eu continuo onde sempre estive.

  8. Li “A Peste” teria uns dezoito a vinte anos ou talvez menos. Lembro-me apenas dos ratos e de um médico que envia a família para a província para a salvaguardar do perigo e queda no seu posto a tratar os doentes. Creio bem ter sido a família – ou pelo menos a mulher – quem morre. E assim nós. Depois que o vírus se propague com força – facto que depende mesmo de todos -, só o factor sorte nos pode ajudar.
    Esperemos que, cuidando cada um da parte que lhe cabe em cuidados, não precisemos da ajuda da sorte.
    Boa tarde:)

    1. Não é uma questão de sorte ou de azar.
      É uma questão de responsabilidade ou irresponsabilidade.

      Na China, só conseguiram travar a escalada da epidemia com medidas severas e duríssimas de quarentena, com imposição compulsiva de hábitos prolifácticos e recolher obrigatório em certas cidades.

      Em Itália, pelo contrário, preferiram sair à rua, ir a festas, curtir nas praias. Resultado: o coronavírus está incontrolável.

      1. Pedro, na China é tudo mais fácil, por dois motivos:

        1) A cultura asiática não tem uma tradição de respeito pelo indivíduo. Este foi sempre subalternizado relativamente ao Colectivo.
        2) É uma Ditadura.

        Irresponsabilidade é, da China, terem vindo as últimas epidemias/pandemias – H1N1, H5N1, SARS, COVID-19.

        Imagino que o governo chinês proíba os mercados de esfola ao vivo.

        1. A China, de facto, não é modelo.
          Mas na Coreia do Sul, que é uma democracia, travaram a progressão da pandemia com fortes medidas pedagógicas que foram de imediato aceites e assimiladas pela população.
          Esse é o exemplo que devemos seguir.

          1. E em Macau idem.

            segundo sei, há estabilização do numero de infectados, com tendência a diminuir.

          2. E muito bem. Ontem, na SIC, a minha colega e amiga Rita Tavares-Teles explicou isso muito bem.
            Que lição de civismo, comparada com o que por cá se passa. Desde logo nos transportes públicos.

      2. Não aposto de barato na sorte nem sou tão estúpida que, neste caso, me abandone a ela. Concordo com todas as medidas profilácticas como as refere e sem excepção. Mas anote o factor sorte. Pode precisar também dele. Ainda que seja variante aleatória e que não convém, existe.
        BFS:)

  9. Conselho de Ministros adiado para as 20h.

    A decisão sobre encerramento de estabelecimentos de ensino também fica adiada? Ritmo exponencial. As curvas não mentem.

    Adiar um dia as medidas é adiar vários dias as soluções e amplificar exponencialmente os danos. #COVID19.

    Costa vai enrolando as palavras em mirandês, em que tão bem se exprime mas não toma decisões.

    Faz lembrar a situação dos incêndios, o outro deve estar a lavar roupa ou a estênde-la….

    A.Vieira

    1. A suspensão das ligações aéreas com Itália só pecou por tardia.
      Idem, relativamente à antecipação das férias escolares da Páscoa.
      E até a suspensão dos campeonatos desportivos – começando pelo futebol.

      Tudo isto devia ter ocorrido mais cedo.

      1. Andamos a reboque das decisões anunciadas pelos governos espanhol e francês.
        Vem agora o PM anunciar o encerramento de todos os estabelecimentos escolares a partir de segunda-feira (porque não já amanhã?), 24 horas após um caricato “Conselho Nacional de Saúde Pública”, de que ninguém tinha ouvido falar até agora, ter recomendado que as escolas permanecessem abertas.

        Não admira, visto o putativo presidente deste verbo-de-encher ter afirmado há escassas duas semanas que o coronavírus «é menos perigoso do que o da gripe».
        https://observador.pt/2020/03/12/porta-voz-do-conselho-nacional-de-saude-publica-desvaloriza-gravidade-do-coronavirus/

  10. Assistir às discussões sobre o coronavírus parece um jogo de ping-pong. É certo que há irresponsabilidade e atitudes pouco sensatas, mas também tenho percebido por aí bastante vontade de acusar os outros. Convém também lembrar isso, antes que comece o festival da intolerância. Está a transformar-se numa coisa um tanto paranoica de parte a parte. Todos temos opiniões e inclinações, mas temos que pôr os pés no chão. A menos que estejamos de quarentena auto-imposta ou não, como maior ou menor probabilidade, estamos sujeitos a ser contagiados e a contagiar e a coisa vai alargar-se de tal modo que é cada vez mais difícil ter todas as precauções. Por muitas precauções que tenhamos (connosco, com os outros e, sobretudo, com as pessoas com fragilidades), pode haver um momento fortuito em que ficamos infectados. Se convém ter juízo, também convém não abrir a caça aos culpados.

    1. Convém, sim, fomentar comportamentos responsáveis.
      Para evitar a propagação de uma doença que, segundo a ‘Economist’, pode acabar por contaminar cerca de um terço da população mundial. E se muitos têm capacidade de resistir, muitos outros – mais velhos e debilitados – ficam antecipadamente condenados à morte, atendendo até à fragilidade das nossas estruturas sanitárias e das carências de toda a ordem do SNS.

        1. Em França, o Presidente Macron acaba de recomendar a não utilização de transportes públicos, a flexibilização do teletrabalho, o encerramento de todos os estabelecimentos de ensino e a requisição de estudantes de medicina e médicos reformados.
          Não é brincadeira. É mesmo a sério.

          1. Muitas empresas em Portugal já tem estado a tratar dos planos de contingência. O trabalho a partir de casa será uma realidade para muitos (como eu) numa questão de dias.
            Ontem e hoje no edifício onde trabalho – albergue de muitas empresas/escritórios – era notória a diminuição de gente.

          2. O tele-trabalho, quando possível, já devia era ser uma norma.
            Aliás, nesse aspecto, já devíamos estar mais que preparados. Mas…

          3. Pois devíamos. A organização das nossas empresas – incluindo tecnológicas, de “vanguarda” – continua a reger-se por parâmetros do século passado.

  11. Anda tudo doido.

    Uns falam de lavar as mãos como se fosse uma inovação científica recente.
    Outros querem sinalizar quem espirra ou esteve perto de quem espirrou.
    Outros açambarcam gel de limpeza mas espirram para onde estão virados.

    Mas esta crise coloca à mostra algo que todos sabem:

    1) o Governo não tem tomates para tomar decisões duras. O que andam agora a fingir que fazem já devia e podia ter sido feito antes (relembrar que hoje não podemos ir à praia, mas há uns dias podíamos brincar ao carnaval. E o vírus já cá estava)

    2) o portuga tem zero de consciência cívica. Não pode ir às aulas para não ficar perto do possível contagiante, mas pode ir tomar uma cervejinha com ele.

    3) a nossa capacidade de planeamento é perto do zero. Trabalho numa empresa de TI onde o tele-trabalho é uma possibilidade. Nada foi feito para agilizar esse processo caso fosse uma necessidade urgente, agora, se aparecer um infectado aqui, vai tudo para casa de quarentena… mas sem hipótese de trabalhar remotamente. Pára tudo.

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