Dez minutos para corrigir erro de palmatória


Pedro Correia,

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Uma marca só consegue impor-se se conseguir notoriedade. Ninguém consome aquilo que não conhece.

Eis o problema de origem do canal que agora se chama RTP3. No cabo, tem audiências residuais face ao seu principal concorrente na informação televisiva a tempo inteiro, a SIC Notícias. Esta começou logo em Janeiro de 2001, na dobra do século e do milénio, antecipando a tendência para a difusão de peças informativas em tempo real, sem submissão aos ciclos clássicos dos telediários. Tornou-se marca dominante ao partir primeiro. Vantagem de que a RTP beneficiou no sentido inverso, enquanto canal generalista, com emissões regulares desde 1957 e em sistema de monopólio protegido até 1989 por cláusula constitucional com carácter imperativo. «A televisão não pode ser objecto de propriedade privada», rezava o artigo 38.º da Constituição da República, n.º 6, no articulado original.

O canal informativo público nunca se impôs devido aos ziguezagues do percurso. Começa em Outubro de 2001 como NTV, com informação de carácter regional, centrado no Norte. Em Maio de 2004 assume-se como canal temático da RTP, com a sigla RTPN. Durou até Setembro de 2011, quando houve nova mudança na marca: a RTPN deu lugar à RTP Informação, com a ambição de se tornar o canal «mais forte» em 2012. Sonho jamais concretizado. E perturbado por outra alteração de identidade: em Outubro de 2015 a RTP Informação deu lugar à actual RTP3.

Esta longa via sinuosa prejudicou fatalmente a sua implantação. Quando a RTP3 assinalou o “vigésimo aniversário” com uma emissão especial, em 15 de Outubro, faltou à verdade: nesse dia, em estrito rigor, só festejava seis anos de existência.

O problema principal é que as siglas mudam mas os erros de base permanecem. Alguns chegam a ser exibidos em antena, como aconteceu em noite recente. Ana Lourenço despediu-se dos telespectadores anunciando uma entrevista ao pensador e activista político norte-americano Noam Chomsky feita pelo jornalista-historiador António Louçã. Na introdução, à revelia da boa prática informativa, Louçã começa por dizer que Chomsky «não precisa de apresentação». Depois lembra que o entrevistado foi «protagonista da solidariedade com o povo de Timor-Leste e um dos que mais contribuíram para a sua independência, em 1999». Acontece que a independência do mais jovem país de língua oficial portuguesa só ocorreu em 2002.

Nada disto é grave. Inaceitável foi o que aconteceu depois: a entrevista gravada, por videochamada, decorre em inglês, sem legendas, durante dez minutos, sem que ninguém pareça reparar. Até que Ana Lourenço, certamente sem a menor responsabilidade pelo sucedido, volta à antena e emite a correcção tardia: «Pedimos desculpa pela interrupção da entrevista que estávamos a ver, que não estava obviamente em condições porque nos faltou a legendagem.»

Foi prometida exibição posterior, «nas devidas condições». Mas o mal estava feito. E resume muito do que se passa na RTP3.

 

Texto publicado no semanário Novo

6 comentários em “Dez minutos para corrigir erro de palmatória”

  1. Continuo a acompanhar notícias que me tragam a realidade. Ao momento existem indicativos que o Presidente do mundo será novamente o grande Trump. A Virgínia já caiu para as mãos dos republicanos e Nova Jersey está por um fiozinho.
    Tudo isto sem lendas nem legendas: o feminista Biden está de tombo.

  2. Num dia o Cohen e a Connelly. Noutro, o Chomsky e a Lourenço. É passar da obra-prima do mestre para a prima do mestre de obras.

    1. A sua última frase fez-me lembrar o “Voxx – não confundir a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras” que ocasionalmente soava nas emissões da defunta Rádio Voxx com o carregadíssimo sotaque tripeiro do Miguel Bacelar. Não é uma recordação inteiramente aleatória, esta: o mesmo Miguel Bacelar teve, durante algum tempo, lugar num programa de debate semanal que era transmitido pela NTV, aqui referida pelo Pedro.

  3. As 27 pessoas que compõem o público da RTPN devem ter ficado possessas.
    Adiante, desde pontapés orais na gramática a encavadelas nos títulos e rodapés, vale tudo, e ninguém se chateia. Acontece

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