
Livro três: Um Romance Não Escrito, de Virginia Woolf
Edição E-Primatur, 2026
381 páginas
Virginia Woolf (1882-1941) era sobretudo romancista, não contista. Mas uma boa forma de nos iniciarmos na sua escrita pode ser pelos contos, aqui reunidos com base na edição integral organizada por Susan Dick (Grafton Books, Londres, 1989). Panorama completo, ao ponto de incluir textos de juventude, alguns sem título e nunca revistos em versão definitiva pela autora.
O principal interesse deste volume, com tradução de Maria Ponce de Leão e capa ao excelente nível das que a E-Primatur nos habituou, é observarmos como se vai desenvolvendo a técnica literária que ficou conhecida por “fluxo da consciência” e teve um dos seus expoentes precisamente na criadora de Mrs. Dalloway.
O essencial desenrola-se no intelecto da protagonista: toda a ficção resulta de um jogo mental, distorcendo a chamada realidade objectiva. Como transparece daquele que talvez seja o seu melhor conto: «A marca na parede», publicado em 1917. Obra-prima do género: sem enredo, sem acção, quase reduzido a uma personagem imersa nos seus pensamentos que desvendamos como se morássemos naquele cérebro. E com um surpreendente desfecho, apenas revelado na palavra final.
Virginia Woolf cultivou um modernismo literário com características muito próprias. Entendia que um livro devia deixar pistas de reflexão sobre a natureza humana para além de contextos políticos e convenções sociais, suscitando múltiplas interrogações, qualquer delas mais estimulante do que as respostas, sempre efémeras e precárias.
Interessava-lhe também a condição feminina, a partir do seu percurso de vida: londrina nascida em berço privilegiado no bairro de Kensington, filha do editor Leslie Stephen, que a introduziu no mundo das letras, casada com o romancista e ensaísta Leonard Woolf, que lhe sobreviveu 28 anos e geriu com desvelo o espólio literário da mulher.
«Uma casa assombrada», «Uma sociedade», «A cortina da enfermeira Lugton», «A duquesa e o joalheiro», «Lappin e Lapinova», «O legado» e «O símbolo» também justificam destaque. Tal como um conto escrito no modo tradicional: «Gipsy, a cadela rafeira». Sem esquecer, claro, o singular «Momentos de ser: “os alfinetes da Slater’s não seguram”» – considerado o primeiro conto lésbico da literatura inglesa.
Quase tudo upper class: outras camadas sociais apenas surgem em pano de fundo. Ou nem isso.
Sugestão 3 de 2016:
Política, de David Runciman (Objectiva)
Sugestão 3 de 2017:
A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)
Sugestão 3 de 2018:
Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)
Sugestão 3 de 2019:
Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)
Sugestão 3 de 2020:
ABC da Tradução, de Marco Neves (Guerra & Paz)
Sugestão 3 de 2021:
Intervenções, de Michel Houellebecq (Alfaguara)
Sugestão 3 de 2022:
O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral (Leya)
Sugestão 3 de 2023:
Malina, de Ingeborg Bachmann (Antígona)
Sugestão 3 de 2024:
Memórias Minhas, de Manuel Alegre (D. Quixote)
Sugestão 3 de 2025:
A Tradução do Mundo, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

gostei:
Orlando
la promenade au phare
una stanza tutta per se