
Livro nove: Carta à Geração que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann
Edição Guerra & Paz, 2022
159 páginas
Há livros notáveis pela qualidade literária e pelo suplemento de sonho que transmitem aos leitores. Outros destacam-se por nos fazerem reflectir em nome de imperativos cívicos inadiáveis. É o caso deste, redigido em forma epistolar pelo eurodeputado francês Raphaël Glucksmann, incentivando os jovens a mudar o mundo. Não com chavões ideológicos, nem com frases que «cantam mais do que falam», como dizia Paul Valéry, mas com acções concretas.
Nesta Carta à Geração que Vai Mudar o Mundo (edição original francesa de 2021, boa tradução portuguesa de André Morgado para a excelente colecção Livros Vermelhos, da Guerra & Paz) Glucksmann, cineasta que passou pelo jornalismo, menciona vários marcos do seu percurso no activismo social como incentivo aos destinatários da obra. Antes e depois de fundar o partido Lugar Público (2018) e ser eleito para o Parlamento Europeu (2019) em representação desta pequena força política integrada na bancada dos socialistas e sociais-democratas em Bruxelas.
Filho de peixe sabe nadar. Hoje com 42 anos, o eurodeputado honra o exemplo do pai, André Glucksmann (1937-2015), um dos “novos filósofos” que no final da década de 70 romperam com o marxismo-leninismo, à época ainda dominante nos circuitos académicos e mediáticos em França.
Agora os combates são outros, nestas páginas enumerados sob o signo da urgência. Contra o totalitarismo chinês, que aprisiona mais de um milhão de uigures em campos de concentração. Contra a globalização do comércio que desloca as cadeias de produção da Europa para o Oriente, aproveitando-se do trabalho escravo ao serviço de multinacionais do consumo. Contra as ideologias que sustêm o terrorismo. Contra a economia predadora que vai devastando o planeta. Contra a impotência da Europa, bem visível quando irrompeu a pandemia: descobrimos que éramos incapazes de produzir produtos tão elementares como máscaras ou paracetamol, abdicando da soberania industrial a favor da China e da soberania militar a favor dos EUA. «Sem defesa própria, não há autonomia, logo não há verdadeiramente cidade.»
Ontem André, hoje Raphaël: a militância é quase um imperativo genético. «Vi o meu pai consagrar os últimos vinte anos da sua vida em defesa do povo checheno, massacrado pelo Exército russo», lembra o eurodeputado.
«Os jovens podem mudar tudo. Podem desatar a correia que os prende, podem carregar no travão, podem tomar o volante. Os jovens podem.» Palavras deste intelectual que se tornou político para tornar possíveis as mudanças em que acredita. Contra os «falsos profetas» sempre prontos a jurar que nada há a fazer pois tudo está inscrito nas estrelas. Ele parte do princípio oposto: «Nada está escrito. Nunca.»
Os nossos políticos deviam publicar livros como este. Mas quantos estariam dispostos a tal maçada? E quantos saberiam fazê-lo?
Sugestão 9 de 2016:
Entrevistas da Paris Review (Tinta da China)
Sugestão 9 de 2017:
Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)
Sugestão 9 de 2018:
Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)
Sugestão 9 de 2019:
La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)
Sugestão 9 de 2020:
Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)
Sugestão 9 de 2021:
Woke – Um Guia para a Justiça Social, de Titania McGrath (Guerra & Paz)

Comprei o livro do Vargas Llosa este Verão, está na “pilha” das próximas leituras…
Excelente. Uma espécie de carta de marear de Vargas Llosa, que nos vai guiando pelas suas leituras favoritas. Li-o na edição original, da Alfaguara, ainda antes de haver versão portuguesa. Gosto de obras de escritores que nos falam dos seus livros preferidos. Esta, coloco-a ao nível de outras do género como ‘Ensaios Escolhidos’ (Virginia Woolf), ‘Vidas Escritas’ (Javier Marías), ‘Os Livros da Minha Vida’ (Henry Miller) e ‘A Consciência e o Romance’ (David Lodge).
” Os nossos políticos deviam publicar livros como este.”
A malta nunca está satisfeita. Houve um político que publicou um livro, começaram logo a dizer que não tinha sido ele o escritor.
Invejas é o que é.
Esse comprovou-se que tinha sido escrito por um fantasma, aliás muito bem remunerado.
Ficámos a saber que até os fantasmas têm conta bancária.
aumenta quase exponencialmente o consumo de drogas entre os jovens, predominantemente as sintéticas: catinonas, anfetaminas; para além das tradicionais: heroína, cocaína …